31 Março 2012

até que Sim



Felizes os Puros de coração 
porque eles verão Deus.











30 Março 2012

até que Sim


Felizes os que se compadecem, 
porque eles serão tratados com compaixão.















29 Março 2012

até que Sim


Felizes os que têm Fome e Sede de Justiça, 
porque eles serão saciados.





















28 Março 2012

até que Sim


Felizes os Mansos, 
porque eles herdarão a Terra.

27 Março 2012

até que Sim





Felizes os que choram,
porque eles serão consolados.











26 Março 2012

até que Sim

E se durante esta semana fizéssemos o exercício de, todos os dias, durante todo o dia, repetirmos interiormente muitas vezes as Bem Aventuranças do SENHOR? Durante o dia ir repetindo, várias vezes, não se deixar desligar muito tempo... como quem traz na boca um caroço de azeitona para ir roendo... É uma maneira de decorar, o que, para quem não souber o que significa a palavra "decorar", quer dizer "colocar no coração". Eu faço a minha parte que é, cedinho cedinho, todos os dias colocar aqui uma Bem Aventurança, segundo o evangelho de Mateus (cap. 5).

Boa Semana!
Comecemos.


Felizes os Pobres segundo o espírito, 
porque deles é o Reino dos Céus.





















25 Março 2012

Somos da Esperança



Trindade Santa,
Glória a Vós por serdes um Deus fiel e verdadeiro. 
Vós sois o alicerce sólido da nossa Esperança, 
pois as pessoas que confiaram em Vós nunca foram desiludidas.

Senhor Jesus Cristo:
com a tua ressurreição venceste a nossa morte 
e, deste modo, iluminaste o sentido da vida humana que robusteceste a nossa esperança.

Após uma vida de doação total ao Evangelho, 
São Paulo sentia-se feliz e, por isso, podia afirmar:
“Para mim viver é Cristo e morrer é um lucro” (Flp 1, 21).

Espírito Santo,
com teu jeito maternal de amar, tu vais-nos confirmando na certeza da fidelidade de Deus.
A primeira Carta aos Coríntios diz que ninguém pode dizer que Cristo ressuscitou 
a não ser por inspiração do Espírito Santo (1 Cor 12, 3).
Apoiada nestes pilares, a nossa Esperança dá-nos a garantia 
de não estamos perdidos num Universo sem sentido, 
pois não estamos a caminhar para o vazio da morte.

Pai Santo,
apesar de os judeus terem crucificado Jesus 
tu confirmaste a autenticidade da sua missão, 
ressuscitando-o e sentando-o à tua direita (Rm 1, 3-5).

Jesus teve o cuidado de robustecer a Esperança dos Apóstolos, 
garantindo-lhes que nunca os deixaria abandonados:
“Agora estais abatidos, mas ver-vos-ei de novo e haveis de vos alegrar. 
Nesse dia já ninguém poderá tirar a vossa alegria” (Jo 16, 22).

Agora é o Espírito Santo quem nos confirma nesta certeza de que tu, Pai Santo, 
nos acolhes como filhos teus e irmãos de Jesus Cristo como diz São Paulo:
“Todos os que são movidos pelo Espírito Santo são filhos de Deus.
Vós recebestes um Espírito de adopção 
que faz de nós filhos e nos leva a exclamar: “Abba, ó Papá!” (Rm 8, 14-15).

Os pilares sobre os quais se apoia a nossa Esperança são dignos de confiança.
A Carta aos Colossenses dá-nos uma norma sábia para fortalecermos a nossa Esperança, 
quando afirma o seguinte:
“Colocai a vossa mente nos bens do alto e não nas coisas terrenas” (Col 3, 2).

E a Primeira Carta de São Pedro diz o seguinte: 
“Acolhei Cristo nos vossos corações, 
a fim de vos manterdes preparados para testemunhar as razões da vossa Esperança 
a todos os que vos questionam” (1 Pd 3, 15).

Pai Santo,
a tua Palavra amplia os horizontes da nossa Esperança, 
fazendo-nos saborear o teu Plano de Salvação, o qual vai muito para além das nossas expectativas.
A tua Palavra, Pai Santo, capacita-nos para compreender que a plenitude dos seres humanos
é serem assumidos e incorporados na Família da Santíssima Trindade (cf. Gal 4, 4-7).

Confirmados pela Esperança 
temos a garantia de que a Felicidade que nos aguarda no Reino de Deus não tem limites.

Deus Santo,
nós vos damos graças pelo facto de as lentes da nossa Esperança 
optimizarem os horizontes da nossa inteligência.
Por ter como alicerce a Palavra de Deus, 
a Esperança cristã ultrapassa os muros estreitos da vida presente, 
capacitando-nos para contemplar, não apenas os bens desta terra, mas também os bens da vida eterna!
Mas isto não significa que a nossa Esperança nos distraia ou aliene dos compromissos históricos.
Pelo contrário, a Vossa Palavra capacita-nos e envia-nos 
para transformarmos o mundo de acordo com os critérios do Evangelho.

No evangelho de São Mateus, Jesus diz que os cristãos estão no mundo como sal que dá sabor à vida.
Impelidos pela Esperança, acrescenta Jesus, 
os cristãos são a luz que ilumina o sentido que a vida tem.
São também um fermento que transforma as estruturas do pecado, 
as quais impedem a humanização do Homem (cf. Mt 5, 13-16).

Depois de uma vida gasta ao serviço do bem 
e fortalecido pela Esperança que o capacita para os compromissos do amor 
o cristão pode dizer com São Paulo:
“Por isso não desfalecemos. 
E mesmo se em nós o homem exterior vai caminhando para a ruína, 
o homem interior renova-se todos os dias.
Com efeito, a nossa momentânea e leve tribulação 
proporciona-nos uma glória eterna que vai para além de toda e qualquer medida” (2 Cor 4, 16-17).
Afirmações de São Paulo que são realmente uma expressão genuína da Esperança cristã:
"Por isso não nos detemos nas coisas visíveis, pois estas são passageiras, 
mas olhamos para as realidades invisíveis, as quais são as eternas” (2 Cor 4, 16-18).

Fundada na Palavra de Deus e na ressurreição de Jesus Cristo, 
a nossa Esperança dá-nos a certeza de que não estamos a caminhar para o fracasso da morte 
mas para a plenitude da Vida Eterna.

Trindade Santíssima,
Vós sois o alicerce da nossa Esperança! 
Nós vos louvamos pelo dom da Revelação 
que nos capacita para transformar o mundo e a história em harmonia com o Vosso Plano Criador!




No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco, 
Calmeiro Matias 


22 Março 2012


Há uma eloquência que não se tece de palavras, uma elegância que não se exprime em maneirismos, uma autoridade que nos aparece despojada de qualquer força. Há um mistério de autenticidade que percorre o submundo das palavras e das escolhas da gente e, de vez em quando, desagua mesmo diante de nós. Quando isso acontece percebemos que há arroios de água viva que nos chegam a cantar a proximidade da Nascente. E fica muito claro dentro de nós, com a lucidez de um espanto, que temos que escolher andar pelos tornozelos nos remansos do costume ou deixarmo-nos perder o pé no convite silencioso e cristalino dessa torrente. São  infantis as águas de montante… em leito pequeno e a correr só com murmúrios, não nos inundam pelo tamanho mas pela frescura com que se nos metem no corpo, rasgando nesgas de futuro entre a pele. Mergulham-nos por dentro! A vida infiltra-se por todo o lado, e Deus canta na passagem.

21 Março 2012

Pai Nosso, livra-nos do Mal...



Quando gritamos “Porquê???” diante do Mal, não estamos a clamar por uma Explicação, mas por um Sentido… Os autores bíblicos nunca caem na tentação de “explicar” o Mal, mas de muitas maneiras apontam para a possibilidade de encontrar um Sentido, como um rasgão luminoso de Esperança.

Jesus também não nos deu/dá nenhuma explicação do mistério do Mal nem fez nenhum discurso filosófico sobre o “tema”… Então?!

A Fé bíblica aponta-nos 
uma Grande Esperança na Bondade da Criação, cheia de Futuro, 
indica-nos caminhos para vencermos o Mal histórico que enfrentamos, 
critérios para discernirmos diante da insinuação do Mal 
que interiormente também encontra em nós recantos de sedução 
e dá-nos a garantia de que o Mal já foi vencido no Acontecimento Jesus
agora, a História da Criação está em processo de Cristificação
isto é, até que Deus, que já é tudo em Jesus, seja tudo em todos; 
ou, por outras palavras: 
até que o Acontecimento Jesus seja um Acontecimento Universalmente experimentado
até que a história do Cristo seja a história de todos!


Mas o combate já está decidido e ganho! Só ainda não totalmente terminado… O “bom combate da Fé” de que fala o Apóstolo Paulo é a vida herdada de Jesus, é esta tensão história da Fé na Esperança; uma Fé que é apostar a Vida na Vitória de Cristo e uma Esperança que é receber dela a força e os critérios para lutar contra o Mal.

Discípulos de Jesus
Crentes na Ressurreição que é a Vitória da Vida sobre o Mal, 
Querentes do Reino de Deus
estamos Convocados para a Esperança 
que é uma Liberdade diante do desespero público 
e uma Lucidez diante da ilusão de sabedoria que é o pessimismo histórico.


É por isso que um instrumento fundamental na luta contra o Mal é a Oração ao jeito de Jesus
Oração Filial que nos modele na obediência à Sua Palavra 
e Oração Pascal que rasgue em nós nesgas de Esperança 
e adestre as nossas vidas para a Tarefa Solidária da Justiça. 

Ou haverá ainda quem duvide que a luta contra o Mal coincide com a construção da Irmandade?

Não sei se a Irmandade nos livra do Mal, mas tenho, no mínimo, a certeza experimentada de que nos cura dos seus efeitos…



Shalom



20 Março 2012

Pai Nosso, livra-nos do Mal...



A Vida-Missão de Jesus é sempre testemunhada pelos evangelistas como um enfrentamento de Jesus (da parte de Deus) contra o domínio dos demónios e dos chefes do Povo (da parte do Poder deste mundo). O evangelista Marcos, na primeira vez que fala de Jesus (pela boca de João Baptista) chama-lhe “o mais forte”; Mateus fala dele como o mais forte que apareceu para derrotar o forte, para entrar à socapa em sua casa, o amarrar e lhe roubar tudo o que ele tinha em seu poder… É uma parábola fortíssima da luta de Deus contra o Poderio do Mal, uma luta por nós, pela nossa Libertação. Não será sempre isso que está em causa: nós aceitarmos o Dom de sermos Livres?

Na linguagem cultural do tempo dos evangelhos, é disto que falam todas as “expulsões de demónios” ou “espíritos impuros”. Não se conheciam causas naturais para os problemas das pessoas, todos se explicavam por referência a forças sobrenaturais. Mas para além do modo de explicação destas coisas e das diferenças de linguagem e cultura, está algo mais evidente que é exactamente o que eles anunciam: Jesus oferece às pessoas a possibilidade de nascer de novo, de passarem de uma condição de servidão ou sub-humanidade à alegria da Liberdade e da Comunhão com outras pessoas. 

Abdicando de todas as dúvidas historicistas se sim se não e de todos os matizes de linguagem e interpretação, em relação aos sinais de expulsão de demónios-espíritos impuros e curas de doenças o que importa MESMO ver é aquilo que no meio de tanto palavreado nos passa ao lado: eis a história de alguém cuja vida se conta assim: “Era uma vez eu antes de Jesus… e depois de Jesus!” 

Todos os relatos de sinais/curas/libertações querem anunciar-nos este acontecimento fundamental que é Encontrar-se com Jesus. Nele é possível nascer de novo, fazer experiências concretas de Libertação, contar a vida com um “antes” e um “depois”… nele e com ele é possível vencer o Mal que, se não for vencido, nos leva a funduras sub-humanas…

Eis o que está em causa no anúncio de cada sinal/cura/libertação no Evangelho: a proclamação de que o Reino de Deus está em marcha e isto é uma caminhada vitoriosa do Vigor de Deus sobre o poderio do Mal que habita os nossos corações e as nossas relações (isto mesmo nos evangelhos: demónios e espíritos impuros) e sobre o poderio do Mal que perverte as nossas estruturas e sistemas sociais (isto mesmo nos evangelhos: os chefes do Povo). 


Shalom

18 Março 2012

somos feitos de tanta gente...



A nossa vida é o ponto de encontro com muitas outras vidas.
Os encontros marcados pela fraternidade e o amor 
optimizam as nossas capacidades de diálogo e comunhão com os outros.

Os desencontros, pelo contrário, 
geram em nós solidão e bloqueiam as nossas capacidades de comunicação.
Há histórias pessoais que são o entretecido de muitos desencontros. 
Na verdade, há muitas pessoas que preferiam não se ter cruzado na vida 
com os seres humanos que as deixaram mais tristes, pobres e sós.

Tudo isto significa que a pessoa precisa dos outros para se realizar, 
mas há muitos seres humanos que não facilitam a realização e a felicidade dos outros.
Mas também há histórias de muitas pessoas 
que são uma cadeia de encontros com seres humanos que são autênticos tesouros de bondade.

Pai Santo,
Tu chamas-nos a viver fazendo bem às pessoas, 
a fim de facilitarmos a sua realização e felicidade.
Quando procedemos assim, 
realizamo-nos como pessoas livres, conscientes, responsáveis e capazes de amar.

Jesus disse aos seus discípulos que a sua missão é ser luz, sal e fermento no meio do mundo.
A luz ajuda as pessoas a ver o sentido da vida e dos acontecimentos.
O sal é para dar sabor, isto é, a sabedoria necessária para pensar e agir de modo acertado no meio do mundo.
O fermento é a levedura que faz que o pão e os bolos fiquem fofos e não pedras duras e intragáveis.

Então, Pai Santo, ajuda-nos a sermos o que Tu nos garantes que podemos ser 
e o que Jesus nos mande que sejamos.


No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco, 
Calmeiro Matias

14 Março 2012

O que fazer, então?


Um texto de Enzo Bianchi, teólogo e monge italiano, fundador da Comunidade Monástica de Bose acerca da Igreja que somos. (é o primeiro texto que aparece aqui no estaminé segundo o novo acordo ortográfico, eheh)



Como reagir ao que está acontecendo na Igreja, nestes últimos tempos de modo mais manifesto do que antes? Lamentar? Já foi feito. Denunciar? Sim, sempre buscando não ofender a caridade nem nomear o "pecador"! Talvez, trata-se também de fazer desses momentos uma ocasião para viver o Evangelho e para continuar amando a Igreja, mesmo que às vezes se devesse concluir que ela é irreformável por ser impermeável ao Evangelho...


Sabemos que a Igreja não é uma realidade atemporal gerada pelo testamento de um fundador: é uma realidade histórica, é história e faz história. Sabemos também que, no lugar estabelecido pelo direito, pode haver a iniquidade (cf. Eclo 3, 16) e que ainda no grupo dos 12 chamados por Jesus ao seu redor e envolvidos na sua vida, a pedra fundamental tem a tentação de reagir como Satanás, e os 12 são lentos para crer, mas prontos para renegar e até mesmo para trair Jesus! Das palavras de Jesus sabemos também que, no campo, no espaço eclesial, trigo e joio crescem juntos, que a cizânia não deve ser erradicada, mas é preciso esperar, ter paciência e voltar o olhar para aquele que será o fruto da colheita.


Então, por que sofrer? Por que lamentar aquele lamento que foi profético na boca e no coração dos profetas do Antigo Testamento, do próprio Jesus que chorou sobre Jerusalém, de homens da Igreja como Basílio, o grande, ou outros Padres do Oriente e do Ocidente? Nestes anos, observamos a deterioração que ocorria sob os nossos olhos: da calúnia e da crítica feroz atiçadas em um submundo traiçoeiro alimentado por blogs e jornalistas complacente às diversas facções, ao denegrimento de homens e mulheres que tinham o único defeito de serem leais, não aduladores, não buscadores de poder e de apoios nas diversas cúrias eclesiais. 


Notamos também que, ao grito de alguns – incluindo o próprio cardeal Ratzinger a partir de pelo menos a Via Sacra celebrada na vigília da morte de João Paulo II – que denunciavam o mal-estar eclesial, o carreirismo, a avidez do dinheiro e do poder, seguia-se logo depois uma série de eventos que forneciam motivação a esses lamentos e a essas denúncias.


E contudo: o que fazer, o que dizer diante de uma Igreja que parece ter perdido, em muitos dos seus responsáveis que carregam o fardo do serviço a todos, a tensão em direção à unidade e à caridade? Se antigamente criávamos ateus com imagens distorcidas de Deus por nós fabricadas e pregadas, hoje eles não são mais significativos, e nos encontramos paralisados pelo espetáculo que oferecemos. Os homens e as mulheres não pertencentes à Igreja se sentem confirmados no seu estranhamento com relação aos que se dizem comprometidos com a nova evangelização, enquanto muitos cristãos vão embora silenciosamente, sem contestação, ou tentam viver a fé "apesar da Igreja", etsi ecclesia non daretur.


Bento XVI, na Mensagem para a Quaresma 2012, exorta a redescobrir a dimensão da correção fraterna como constitutiva da vida cristã. De correção, são necessitados o indivíduo assim como a comunidade cristã no seu conjunto, a ekklesía. E a correção ocorre com palavras e obras, assim como a evangelização, a liturgia, a história da salvação.


A degradação da vida eclesial é, acima de tudo, abandono da escuta da Palavra de Deus, tendo saído da postura salvífica da escuta, na qual se recolhe toda a existência da Igreja e da qual só pode proceder todo ato de palavra seu. Mas o primado da Palavra de Deus é tal não só quando está na base da pregação e da palavra magisterial da Igreja, mas também quando regula e corrige o falar intraeclesial, quando se torna ascese da palavra na Igreja para construir uma comunicação "evangélica" que foge das duplicidades, das mentiras, das manipulações, das adulações.


A franqueza, a “parresia”, a transparência e também a partilha da palavra, a dimensão comunitária e colegial da palavra são a resposta eclesial à Palavra de Deus que busca comunhão e a cria convertendo o falar humano a partir do exemplo de Jesus, de quem as pessoas diziam: "Ninguém jamais falou como esse homem" (Jo 7, 46).


De Jesus também se dizia: "Ele fez bem todas as coisas" (Mc 7, 37). A escuta da Palavra de Deus é acompanhada pelo agir bom, verdadeiramente magisterial, de muitos, muitíssimos cristãos anónimos e sem holofotes mediáticos, que são igreja santa de Deus mesmo que escondida como cepa em terra seca. Há os mártires, os cristãos perseguidos, há homens e mulheres que se levantam de manhã para trabalhar, que lutam para pôr filhos no mundo e para mantê-los, há pessoas que quotidianamente se consomem curvando-se sobre os seus irmãos sofredores com amor, há muitos cristãos que sofrem intimamente por sua própria inadequação de serem conformes ao Evangelho, mas todos esses não fazem notícia, ninguém os discerne e os observa, ninguém os ouve...


Além disso, isso já não aconteceu com aquele "judeu marginal" que foi Jesus de Nazaré? Quem se deu conta dele durante a sua vida? Quem se interessou pela sua história tecida só de amor e de serviço fiel aos irmãos? Só poucas dezenas de discípulos no meio de uma multidão que acorria a ele só para ganhar pão e assistir a algum milagre...


O que fazer, então, nessa amarga situação? Escutar novamente a Palavra de Deus, escutar o magistério silencioso dos cristãos quotidianos, e resistir de novo e de novo ao diabo, o divisor, combatendo o bom combate da fé todos os dias, confiando somente em Jesus, o Senhor, e lembrando as palavras do profeta Jeremias: "Maldito o homem que confia no homem" (Jer 17, 5). Resta-nos recomeçar a nossa vida cristã dizendo a nós mesmos: hoje é o primeiro dia de vida cristã que me resta para viver!



13 Março 2012

microconto 12


Chegou carregado com um peso dos de dentro, com um nó no estômago e um garrote de angústia no coração. Ele acolheu e calou. Com os olhos, sem palavras, perguntou-lhe se queria a Paz ou uma solução. Com os olhos, sem palavras, disse que nessa Hora queria a Paz. Passou a Hora quando percebeu que a Paz, afinal, era a solução.


12 Março 2012


Desde sexta-feira, tive o privilégio de viver um Retiro que me soube muito bem, com pessoas de quem gosto. No final, a Alexandra (Obrigado!) escreveu esta pequena oração para partilhar na Eucaristia. Partilho-a convosco…


Obrigado Abba, Paizinho Nosso, por estes momentos em que através de Pessoas e de Silêncio nos conseguimos libertar do emaranhado das palavras e dos gestos desconcertados, tal como eram desconcertadas as palavras e os gestos dos vendilhões no templo.
Obrigado, Abba, por nos teres dado a oportunidade de nos libertarmos deste cinto que nos aprisiona no templo construído pelos Homens, para contemplarmos o verdadeiro Templo que é a vida do Teu Filho Jesus.

Jesus é a imagem visível do Teu Reino que passa, que tem encontro marcado connosco de tantas maneiras! Não apenas ontem e hoje, mas amanhã e depois…

Obrigado Abba, por neste fim-de-semana nos teres ajudado a expulsar de dentro de nós a imagem que tínhamos de Ti, imagem de um deus com poderes, e de nos teres ajudado a descobrir-te como Deus com Projecto, que nos quer Livres e Felizes.

Dá-nos o discernimento e a sabedoria para que em todos os dias saibamos partilhar o Pão que Tu nos dás, pois a Partilha gera Abundância, ela é a Alternativa quando não temos Soluções. Dá-nos sempre deste Pão que fama a fome de dignidade e de salvação, e em cada dia faz alargar mais o nosso coração até sermos verdadeiramente livres no Teu Amor.

Amo-te… e aceito o Teu Amor.

Procurarei todos os dias fazer da minha vida uma Homenagem digna de Ti e de tudo o que me fazes saborear.


11 Março 2012

O Coração é a Morada da Sabedoria


Quando a Palavra de Deus encontra eco no nosso coração podemos ter a certeza de que estamos a ouvir a voz do Espírito Santo.

Segundo o ensinamento de Jesus, as coisas mais importantes acontecem no interior das pessoas.
Por isso ele aconselha os discípulos a procurarem a força do Espírito Santo no silêncio do deserto, isto é, fora dos ruídos do mundo:

“Retiremo-nos para um lugar deserto, disse-lhes Jesus, e fiquemos ali por algum tempo” (Mc.6,31).

Traduzindo esta proposta de Jesus para os nossos dias tenhamos a certeza de que quinze ou vinte minutos de concentração e meditação diária são muito importantes para realizarmos a “higiene” da mente e do coração.

Deste modo podemos encontrar o equilíbrio pessoal e a força para sermos sal, luz e fermento no meio do mundo, como diz Jesus (Mt 5, 13-16).

Quando sentirmos o nervosismo a progredir e a agitar o nosso coração ponhamos um travão e procuremos a paz interior que é esse fruto especial do Espírito Santo.

Jesus convida-nos a pormos as nossas dificuldades nas mãos de Deus, sabendo que Deus está connosco e por nós.

Eis o que São Mateus diz a este propósito: “Não andeis preocupados, dizendo: “que iremos comer, beber ou vestir? (...).

Procurai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas as demais coisas vos serão dadas por acréscimo.

Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta viver a dificuldade do dia-a-dia” (Mt 6, 31-34).


No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias

09 Março 2012

depois de ver um filme



Estamos feitos para gostar de pessoas. Não podemos fugir disto! Pelo menos, não podemos fugir disto sem que qualquer coisa essencial em nós seja posta em causa. Estamos feitos para gostar de pessoas. Pronto, é assim. É como abrir um brinquedo para ver como funciona… a gente abre, a gente vê, a gente fica a saber que é assim mesmo que a coisa funciona! Não é uma opção… não é uma escolha que tenhamos que fazer ao longo da vida, mas é o próprio mecanismo íntimo de ser pessoa.

Não é em vão que somos à imagem e semelhança de Deus. Não conseguimos livrar-nos desta vocação íntima de gostar de pessoas sem que nós mesmos nos tornemos menos pessoas.

E nós esquecemo-nos de vez em quando disso… sobretudo quando vivemos com um ritmo em que todas as possibilidades de comunicação estão acessíveis, onde podemos estar conectados com o mundo a partir do silêncio dos ecrãs dos nossos computadores, das nossas televisões ou dos nossos telemóveis. É possível estar ligado ao mundo inteiro sem estar conectado com a vida.

Mas o coração acaba por sentir… o que existe de mais íntimo em nós acaba por pressentir e dar sinal de que alguma coisa não está bem, de que precisamos de pessoas, de carne e pele; não nos chega a conexão: precisamos de contacto. Não nos chegam as palavras trocadas: precisamos da voz, do tom, do cheiro. Precisamos de pessoas, de gostar de pessoas, e pronto, é assim que somos.

Não conseguimos sentir-nos felizes de maneira duradoura se não tivermos a quem o dizer. Não podemos viver contentes sem termos com quem partilhar a alegria. A verdade é que, isolados, somos tão pouco interessantes… Reduzidos a nós mesmos ficamos dramaticamente incompletos, como se nos faltassem peças essenciais.

Não é bom que o Ser Humano esteja só… Aquele que nos conhece melhor que nós mesmos, lá sabe o que diz e porque o diz. E faz a Sua parte, também, que é dar-nos uns aos outros de presente; Deus apresenta-nos a muita gente; Deus presenteia-nos com muita gente. E, admiravelmente, aquele que nos conhece melhor que nós mesmos e que vive para nos fazer felizes, inventa uma variedade extraordinária de pessoas para que o nosso coração se alargue. 

Deus introduz continuamente na marcha humana o fio da novidade pessoal, da originalidade. As pessoas são como delicadas e fantásticas obras de artesanato: não há duas iguais! Não há pessoas Made in China, nem sequer os chineses! Todos somos obra ainda não terminada das amorosas mãos de Deus. E todos somos beijados de maneira única pelo Seu Sopro de Vida.

É por isso que uma das maiores desgraças humanas é ter aprendido a não perdoar. Encanta-me a Religião de Jesus, homem como nós e bom como Deus, que por acreditar tão bem em Deus, foi capaz de uma espantosa Fé no Ser Humano. As pessoas eram para Jesus um lugar de Fé e a História Humana era o terreno concreto da sua Esperança.

Na Religião de Jesus, se houvesse um dom para oferecer a Deus mas não se tivesse ainda tomado iniciativa de reconciliação com alguém com que estávamos desavindos, era preciso ir primeiro oferecer a Reconciliação… “Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão”… Vai primeiro… Hoje andei a mastigar a beleza deste “Vai Primeiro”…

Estamos feitos para gostar de pessoas… mas como ganhámos medo de nos expormos ou acreditámos que não confiar é mais seguro, vamo-nos chegando atrás diante dos Homens julgando-os. O juízo sobre os outros é uma maneira de nos afastarmos deles e de manter tudo e todos a uma distância de segurança suficiente para que nenhuma originalidade pessoal venha desorientar os nossos esquemas ou questionar a nossa mentalidade.

Estamos feitos para gostar de pessoas. Jesus dizia que que um único mandamento chegava para resumir o espírito da sua Religião: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Por outras palavras: permiti-vos ser o que sois! O Mandamento do Amor não nos aponta alguma coisa fora de nós, mas a realização do que verdadeiramente somos.


Shalom


07 Março 2012

reflexão em forma de pergunta


Na Tradição Bíblica, o Deus dos Profetas revela a sua atenção e o Seu carinho preferencial em relação àqueles que são socialmente débeis e estruturalmente marginalizados por culpa do Sistema em que vivem. É isto que está por baixo das três grandes figuras de debilidade de que o Deus dos Profetas sempre fala e a quem sempre nos envia: as viúvas, os órfãos e os estrangeiros imigrantes no seio do seu Povo. As viúvas e os órfãos, des-cuidados por não terem marido e pai, num Sistema Patriarcal; os estrangeiros imigrantes, des-cuidados por não terem pertença de sangue, num Sistema de mentalidade Tribal.

O que significa actualizar isto? Hoje, na lógica e mentalidade do Sistema em que vivemos, quem serão os des-cuidados por culpa estrutural do próprio Sistema, ou seja, aqueles para quem a Mentalidade Cultural e Social comum não oferece respostas nem soluções? Quem serão, hoje, os des-cuidados por culpa da própria lógica do Sistema em que vivem e não apenas por “culpa pessoal”? Quem serão aqueles a quem o Sistema em que vivem debilita e enfraquece?



Shalom

05 Março 2012

"não tenhais medo!"


A sensação é a de que, sejam quais forem as veredas tomadas, quando os seres humanos se põem honestamente no encalço da verdade, acabam por encontrar-se depois na mesma Praça. Conheço os que vão pelo caminho da Poesia, outros seguem as paisagens da Fé, outros ainda pela Sociologia e pela Economia, buscando um mundo mais justo e uma fraternidade mais eficaz, outros pela Filosofia e outros pela Acção Social. Sejam quais forem as perspectivas, mesmo dentro de cada um destes caminhos, quando a motivação é a Verdade, vai-se dar à Comunhão. Só os saberes fragmentados geram divisão, só os dogmatismos que servem para estruturar os nossos medos e desconfianças separam os Homens. Levamos dentro uma fome imensa de Verdade e uma capacidade indizível de a intuir. Acredito na Bondade e fio-me inteiramente da Esperança. Acredito, porque o experimento todos os dias, que nascemos tecidos de Bondade e estamos feitos para a Bondade. E acredito a Esperança, o Futuro da Vida, que não é “outra vida” mas esta mesma que vivemos, como um Dom imenso e maravilhoso que nem a morte é capaz de anular.

Perguntaram-me o que tem o Cristianismo a propor hoje ao mundo que faça dele um sinal de contra-cultura. Respondi que “contra” é algo em que não me reconheço muito bem… Acredito que o Cristianismo tem como missão conhecer e dar a conhecer Jesus de Nazaré, Vivo, e isso não será um sinal de “contra-cultura” mas meta-cultura ou trans-cultura. Por outras palavras: não vai simplesmente contra, mas aponta um sentido mais “para além”, transcende e transforma, não se conforma com a cultura de nenhum Sistema nem se adapta a nenhum regime de poder. Porque, segundo o Evangelho, tomar partido "contra" não é nunca a última palavra de nenhuma opção, mas apenas uma etapa do caminho de tomar partido "a favor" de alguém. Reformularam-me, então, a pergunta: o que tem o Cristianismo a propor hoje ao mundo que faça dele um sinal de meta-cultura ou trans-cultura? E eu respondi que, nestes tempos que vivemos, temos para testemunhar uma Fé profunda na Bondade das Pessoas e na Esperança do Mundo.

Pessoalmente, é para isto que me sinto convocado há muito tempo. Porque aprendo de Jesus e do Evangelho (Boa Notícia) que é a sua Vida que quando ficamos aquém do Projecto Salvador de Deus isso não tem a ver com a nossa falta de religião (há tanta e tantas!) mas com a nossa falta de humanidade.

Quando o Cristianismo afirma que Jesus é Salvador do mundo, o que estamos a proclamar é que Deus nos deu a conhecer que é a humanidade que nos salva.


Shalom


04 Março 2012

o Amor, Princípio e Fim...



O Homem é um projecto sonhado pelo Deus Amor e talhado para amar.
Por isso a nossa plenitude não pode ser outra senão a comunhão amorosa.
Isto quer dizer que estamos a caminhar de modo gradual e progressivo para a plenitude do amor.
Seremos tanto mais capazes de partilhar na plenitude da salvação 
quanto mais tivermos moldado o nosso coração para a dinâmica do amor.

Em Jesus Cristo, o divino e o humano ficaram unidos e dinamizados pela força do amor.

O amor é uma dinâmica relacional que estrutura as pessoas e a comunhão entre elas.
Ao mesmo tempo suscita possíveis, abrindo as portas para novas realizações.
A maneira mais bonita de Deus suscitar novidade na criação é recriar.
Por outras palavras, Deus não destrói o que cria, pois cria por amor.
Por isso Deus está sempre a recriar, isto é, a optimizar e conduzir à plenitude as realidades que cria.

Isto é sobretudo verdade tratando-se do Homem, o qual foi constituído o coração da Criação.
O amor criou o Universo e gostou de o ter feito, 
como repete incessantemente o Livro do Génesis (cf. Gn 1, 1-25).

O Cosmos está cheio de sentido, pois em Cristo ofereceu a mais bela das saídas à vida: o amor.
Na verdade, o Universo seria uma aventura inútil 
se não oferecesse uma saída válida para o amor e a vida pessoal.

É certo que o Universo não é uma pessoa. 
Mas no seu interior surgiram biliões de pessoas, as quais já pertencem à esfera da Comunhão Divina.
O sentido mais profundo do Universo radica no facto de ter possibilitado a emergência de vida pessoal, 
isto é, seres proporcionais a Deus e capazes de comungar com Ele.

Na verdade, a Divindade é pessoas e a Humanidade, também.
A Encarnação é o sinal máximo de que a vida humana já está divinizada pelo Espírito Santo, 
a Água Viva que faz brotar no coração do Homem uma fonte de Vida Eterna.

Podemos dizer com toda a verdade que o amor dinamiza a Marcha do Universo a partir de dentro.


No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias

02 Março 2012

até logo




…e, continuando o post de ontem, sinto que este testemunho histórico que nos chega dos primórdios da Igreja é para nós hoje um desafio imenso. Eles eram acusados de ateísmo em relação às divindades imperiais, eram reconhecidos e denunciados pela desobediência aos cultos imperiais.

Porque sinto isto como um desafio? Porque não acredito que o tempo dos impérios tenha acabado, com as suas divindades e os seus cultos instituídos. Já não das mesmas maneiras, talvez não com as mesmas “fórmulas” na maior parte dos casos, mas com a mesma lógica: dominar e manipular.

Segundo o testemunho histórico dos primeiros, umas das características de ser Discípulo de Jesus é ser reconhecido como ateu em relação aos cultos imperiais. Qual é o desafio? Perceber que existem ainda hoje cultos imperiais… perceber e percebê-los. Isto passa certamente por uma vigilância de si mesmo e um cuidado permanente da própria liberdade para não nos deixarmos manipular pelos grandes meios de embrutecimento da nossa capacidade de nos revoltarmos e reagirmos. Não há cultos imperiais à nossa volta? Não há divindades do império que já armaram um nicho de adoração dentro de nós mesmos e das nossas comunidades, sejam elas familiares, sociais, familiares ou religiosas?

O que significa hoje este ateísmo que é uma característica testemunhal dos cristãos? Ateus em relação a quê? Porque o que está em causa não é um “ateísmo dogmático” em relação a outras religiões, mas um “ateísmo prático” em relação àquilo que os poderes deste mundo divinizam e em função do qual nos obrigam a cultuar e sacrificar tantas coisas…

Há muito tempo que estas perguntas me acompanham. Já era altura de as partilhar convosco. E queria que as últimas palavras não fossem só minhas. Pedi ajuda ao apóstolo Paulo e a Tiago: “Foi para a liberdade que Cristo vos libertou! Por isso, permanecei firmes, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão” (Gal 5, 1) “Aquele que cuida com toda a atenção da Lei Perfeita que é a Liberdade e nela se mantém firme – não como quem a escuta e logo a seguir se esquece, mas como quem faz o que ela ordena – esse torna-se feliz naquilo que faz!” (Tg 1, 25)


Shalom



01 Março 2012

Convite CER

É já amanhã mais um encontro sob o lema "Leigos na Matéria", no CER. Um serão descontraído de conversa, aberto pelo testemunho pessoal de três pessoas com idades, profissões e experiências de fé diferentes. São esses testemunhos que "dão o mote" e abrem a conversa. Desta vez, o mote é a pergunta que aparece no convite aqui em baixo. Serão tod@s bem vindos, às 21h, aqui em V.N.Gaia. Não é uma noite de conferências, nem temas, nem palestras... mas de conversa aberta, descontraída e espontânea entre cristãos que não desistiram ainda de fazer as Perguntas mais importantes e não têm medo de partilhar as inquietações que a Fé coloca à Vida. Se ainda houver quem não sabe onde acontecem os Encontros CER, clique aqui à esquerda no link do CER onde encontrará um mapa e explicação de como chegar cá de várias maneiras.

Para dar o tom do que poderá ser e explicar o porquê de ter proposto esta pergunta-mote para esta noite, republico aqui no estaminé hoje e amanhã dois posts de Maio 2010.



Sobre o Ateísmo Cristão...

Vamos fazer uma viagem no tempo até meados do séc. II… Estamos ali entre os anos 150 e 160… O Império Romano ia escrevendo a sua própria narrativa pela mão dos seus historiadores. Um deles, nesta altura, é Dião Cássio que escreve na sua História de Roma (em 80 volumes!!!) uma informação sobre o movimento dos cristãos: “ateus”. É disto que estas gerações de primeiros discípulos de Jesus são acusadas: ateísmo. Já outro, Plínio o Jovem, por volta do ano 100 tinha dito o mesmo numa carta-relatório enviada ao Imperador Trajano sobre problemas na região da Bitínia (província romana já falada no Novo Testamento, actual Turquia ocidental) durante um período em que ele esteve lá designado como governador.

A religiosidade no Império Romano estava organizada em torno dos Templos de adoração das divindades principais do Império. Normalmente, eram divindades assimiladas de outras culturas mais antigas e transformadas em Panteão Imperial. Os Templos e Basílicas eram grandes espaços, às vezes até ao ar livre, cheios de altares a toda volta, cada um com sua divindade. Não é difícil perceber como as construções cristãs imitaram este modelo, “substituindo” as divindades por santos… Quando o cristianismo foi tornado religião oficial do Império, as basílicas foram ocupadas para o “culto cristão” e o modelo permaneceu até hoje em quase todos os lugares. Mas, adiante…

O centro de todo o Panteão era o Culto do Imperador, adorado como um “filho dos deuses”, um ser divino. Como é evidente, o culto imperial era obrigatório. Desobedecer-lhe era crime de lesa-estado e a pena, caso durante o interrogatório não houvesse mudança, era a morte. Ora leiam lá um pedaço de uma carta de Plínio o Jovem ao Imperador Trajano:

“Por enquanto, o método por mim observado para com aqueles que me foram denunciados como cristãos tem sido o seguinte: pergunto-lhes se são cristãos; se confessam, repito mais duas vezes a pergunta, acrescentando uma ameaça de punição capital; se perseveram, então mando executá-los; pois estou convencido de que, qualquer que seja a natureza do seu credo, uma obstinação contumaz e inflexível certamente merece esse castigo. Outros fanáticos dessa espécie me têm sido trazidos que, por serem cidadãos romanos, remeto para o juízo de Roma.

As denúncias de cristãos começaram a estender-se, e várias formas desse mal vieram à luz. Afixaram um cartaz sem assinatura, denunciando pelo nome um grande número de pessoas. Aqueles que negaram ser ou ter sido cristãos, que repetiram comigo uma invocação aos deuses e praticaram os ritos religiosos com vinho e incenso perante a vossa estátua (a qual para este propósito mandei buscar juntamente com as dos deuses), e finalmente amaldiçoaram o nome de Cristo (o que não se pode arrancar de nenhum verdadeiro cristão), julguei acertado absolvê-lo e não o executar. Outros que foram denunciados pelo informante confessaram-se a princípio cristãos, depois o negaram; de fato, tinham sido cristãos, disseram, mas abandonaram a crença (uns faz três anos, outros há muito mais tempo, sendo que alguns há cerca de vinte e cinco anos). Todos prestaram culto à vossa estátua e às imagens dos deuses, e amaldiçoaram o nome de Cristo.

Afirmaram, contudo, que todo o seu crime ou erro se reduzia a terem-se encontrado em determinado dia antes do nascer do sol, cantando então uma antífona a esse Cristo que adoram como a um Deus, ligando-se também por solene juramento de não cometerem más acções e de nunca mentirem nem traírem a confiança neles depositada; depois, era costume separarem-se e então reunirem-se novamente para tomarem em comum algum alimento, pelo que me pareceu, de natureza inofensiva.

Todavia, até esta última prática haviam abandonado após a publicação do meu Édito, pelo qual, de acordo com as vossas ordens, proibira eu as reuniões políticas. Julguei necessário empregar a tortura para ver se arrancava toda a verdade de duas escravas que eram entre eles chamadas “diaconisas”. Nada consegui obter senão excessiva superstição.

Julguei por isso de bom aviso adiar qualquer resolução nesta matéria, a fim de pedir o vosso conselho. Porque o assunto merece a vossa atenção, especialmente se se levar em conta o número de pessoas em risco: indivíduos de todas as condições e idades e dos dois sexos estão e serão envolvidos no processo. Pois esta contagiosa superstição não se confina nas cidades somente, mas já começa a espalhar-se pelas aldeias e pelos campos. Todavia parece-me ainda possível detê-la e curá-la. Os nossos Templos, pelo menos, que andavam quase desertos, recomeçaram agora a ser frequentados, e as solenidades sagradas, após uma longa interrupção, são de novo revividas; e há uma geral procura de animais para os sacrifícios, para os quais até há bem pouco tempo poucos compradores apareciam. Por aí é fácil imaginar a quantidade de pessoas que se poderão salvar do erro, se deixarmos a porta aberta ao arrependimento.”


E hoje não me alongo mais… Fiquem a conhecer hoje esta carta com 1900 anos sobre os nossos primeiros companheiros na Fé em Cristo, e amanhã já continuo. Guardem apenas isto: uma das primeiras acusações feitas aos cristãos foi de Ateísmo, porque eles recusavam-se a adorar as divindades imperiais, porque eles desobedeciam ao culto imperial…

Até já.
SHALOM