É já amanhã mais um encontro sob o lema "Leigos na Matéria", no CER. Um serão descontraído de conversa, aberto pelo testemunho pessoal de três pessoas com idades, profissões e experiências de fé diferentes. São esses testemunhos que "dão o mote" e abrem a conversa. Desta vez, o mote é a pergunta que aparece no convite aqui em baixo. Serão tod@s bem vindos, às 21h, aqui em V.N.Gaia. Não é uma noite de conferências, nem temas, nem palestras... mas de conversa aberta, descontraída e espontânea entre cristãos que não desistiram ainda de fazer as Perguntas mais importantes e não têm medo de partilhar as inquietações que a Fé coloca à Vida. Se ainda houver quem não sabe onde acontecem os Encontros CER, clique aqui à esquerda no link do CER onde encontrará um mapa e explicação de como chegar cá de várias maneiras.
Para dar o tom do que poderá ser e explicar o porquê de ter proposto esta pergunta-mote para esta noite, republico aqui no estaminé hoje e amanhã dois posts de Maio 2010.
Sobre o Ateísmo Cristão...
Vamos fazer uma viagem no tempo até meados do séc. II… Estamos ali entre os anos 150 e 160… O Império Romano ia escrevendo a sua própria narrativa pela mão dos seus historiadores. Um deles, nesta altura, é Dião Cássio que escreve na sua História de Roma (em 80 volumes!!!) uma informação sobre o movimento dos cristãos: “ateus”. É disto que estas gerações de primeiros discípulos de Jesus são acusadas: ateísmo. Já outro, Plínio o Jovem, por volta do ano 100 tinha dito o mesmo numa carta-relatório enviada ao Imperador Trajano sobre problemas na região da Bitínia (província romana já falada no Novo Testamento, actual Turquia ocidental) durante um período em que ele esteve lá designado como governador.
A religiosidade no Império Romano estava organizada em torno dos Templos de adoração das divindades principais do Império. Normalmente, eram divindades assimiladas de outras culturas mais antigas e transformadas em Panteão Imperial. Os Templos e Basílicas eram grandes espaços, às vezes até ao ar livre, cheios de altares a toda volta, cada um com sua divindade. Não é difícil perceber como as construções cristãs imitaram este modelo, “substituindo” as divindades por santos… Quando o cristianismo foi tornado religião oficial do Império, as basílicas foram ocupadas para o “culto cristão” e o modelo permaneceu até hoje em quase todos os lugares. Mas, adiante…
O centro de todo o Panteão era o Culto do Imperador, adorado como um “filho dos deuses”, um ser divino. Como é evidente, o culto imperial era obrigatório. Desobedecer-lhe era crime de lesa-estado e a pena, caso durante o interrogatório não houvesse mudança, era a morte. Ora leiam lá um pedaço de uma carta de Plínio o Jovem ao Imperador Trajano:
“Por enquanto, o método por mim observado para com aqueles que me foram denunciados como cristãos tem sido o seguinte: pergunto-lhes se são cristãos; se confessam, repito mais duas vezes a pergunta, acrescentando uma ameaça de punição capital; se perseveram, então mando executá-los; pois estou convencido de que, qualquer que seja a natureza do seu credo, uma obstinação contumaz e inflexível certamente merece esse castigo. Outros fanáticos dessa espécie me têm sido trazidos que, por serem cidadãos romanos, remeto para o juízo de Roma.
As denúncias de cristãos começaram a estender-se, e várias formas desse mal vieram à luz. Afixaram um cartaz sem assinatura, denunciando pelo nome um grande número de pessoas. Aqueles que negaram ser ou ter sido cristãos, que repetiram comigo uma invocação aos deuses e praticaram os ritos religiosos com vinho e incenso perante a vossa estátua (a qual para este propósito mandei buscar juntamente com as dos deuses), e finalmente amaldiçoaram o nome de Cristo (o que não se pode arrancar de nenhum verdadeiro cristão), julguei acertado absolvê-lo e não o executar. Outros que foram denunciados pelo informante confessaram-se a princípio cristãos, depois o negaram; de fato, tinham sido cristãos, disseram, mas abandonaram a crença (uns faz três anos, outros há muito mais tempo, sendo que alguns há cerca de vinte e cinco anos). Todos prestaram culto à vossa estátua e às imagens dos deuses, e amaldiçoaram o nome de Cristo.
Afirmaram, contudo, que todo o seu crime ou erro se reduzia a terem-se encontrado em determinado dia antes do nascer do sol, cantando então uma antífona a esse Cristo que adoram como a um Deus, ligando-se também por solene juramento de não cometerem más acções e de nunca mentirem nem traírem a confiança neles depositada; depois, era costume separarem-se e então reunirem-se novamente para tomarem em comum algum alimento, pelo que me pareceu, de natureza inofensiva.
Todavia, até esta última prática haviam abandonado após a publicação do meu Édito, pelo qual, de acordo com as vossas ordens, proibira eu as reuniões políticas. Julguei necessário empregar a tortura para ver se arrancava toda a verdade de duas escravas que eram entre eles chamadas “diaconisas”. Nada consegui obter senão excessiva superstição.
Julguei por isso de bom aviso adiar qualquer resolução nesta matéria, a fim de pedir o vosso conselho. Porque o assunto merece a vossa atenção, especialmente se se levar em conta o número de pessoas em risco: indivíduos de todas as condições e idades e dos dois sexos estão e serão envolvidos no processo. Pois esta contagiosa superstição não se confina nas cidades somente, mas já começa a espalhar-se pelas aldeias e pelos campos. Todavia parece-me ainda possível detê-la e curá-la. Os nossos Templos, pelo menos, que andavam quase desertos, recomeçaram agora a ser frequentados, e as solenidades sagradas, após uma longa interrupção, são de novo revividas; e há uma geral procura de animais para os sacrifícios, para os quais até há bem pouco tempo poucos compradores apareciam. Por aí é fácil imaginar a quantidade de pessoas que se poderão salvar do erro, se deixarmos a porta aberta ao arrependimento.”
E hoje não me alongo mais… Fiquem a conhecer hoje esta carta com 1900 anos sobre os nossos primeiros companheiros na Fé em Cristo, e amanhã já continuo. Guardem apenas isto: uma das primeiras acusações feitas aos cristãos foi de Ateísmo, porque eles recusavam-se a adorar as divindades imperiais, porque eles desobedeciam ao culto imperial…
Até já.
SHALOM

4 comentários:
Achei bastante interessante esta carta de Plínio... nunca pensei que, alguma vez, os Cristãos tivessem sido apelidados de "ateus". Isto vem reforçar a minha convicção de "não julgar...".
Quem somos nós para julgar???
Eugénia Pereira
hummm, parece-me bem interessante. Gosto bastante da imagem visual do cartaz.
"Julguei necessário empregar a tortura para ver se arrancava toda a verdade de duas escravas que eram entre eles chamadas “diaconisas".
........Porque o assunto merece a vossa atenção, especialmente se se levar em conta o número de pessoas em risco: indivíduos de todas as condições e idades e dos dois sexos estão e serão envolvidos no processo."
Opiniosa, e a correr sério risco de me tornar ateia, relevo a paridade dos primórdios da Fé que quero crer Deus Pai não me fará perder.
Sempre grata,
Alexandra Rocha
Se o Espírito de Deus é livre e sopra onde quer… não há pagão, nem ateu, nem religioso que esteja imune.
Geralmente, há uma raça atenta: os poetas. Encanta-me imaginar que um deles escutou algum sussurro, enquanto escrevia a obra literária que pretendia fundamentar o culto imperial. Nesse poema, escrito por encomenda do imperador, Virgílio contou a história de um homem em fuga de Tróia, em guerra, carregando o Pai às costas e o Filho pela mão, rumo a uma nova terra, à fundação de um reino novo.
Isto pode parecer um disparate sem qualquer fundamento, mas a imagem de Eneias carregando Anquises toca-me profundamente, por motivos pessoais. Serve de contraste e talvez como um prenúncio ainda incompleto, muito desviado. Apesar das segundas intenções, Virgílio colocou todos diante da relação entre um Filho e um Pai, como fundante do novo reino.
Peço desculpa se este comentário foge ao contexto, mas vou sempre dar à palavra Pai, principalmente depois de escutar o Irmão Roger.
Só a palavra Pai - pronunciada e vivida por Jesus - parte, a partir de dentro, a suprema idolatria que é o individualismo. Muda tudo.
Os sistemas paternalistas caem diante da Paternidade de Deus que nos sonhou livres e felizes, rodeando-nos de um cuidado maternal.
A fidelidade não se arrasta em servilismos, mas faz-se do que é filial, como quem veste as roupas de Filho.
Isto é subversivo e perigoso, porque a assistência caritativa, a solidariedade deixam de ser deveres cívicos com nomes pomposos: são os gestos corriqueiros diários de cuidado, de trato entre Irmãos.
Obrigada por não calares as perguntas.
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