27 Janeiro 2012

sobre um acidente nada acidental



Andam a construir a problemática e contestadíssima Barragem do Tua. São interesses de milhões a cair nos bolsos de uns quantos. Convido aqueles que ainda não viram a procurarem o documentário “Pare, Escute e Olhe” do realizador Jorge Pelicano. Dá um vislumbre da situação… Ontem, numa derrocada, morreram três trabalhadores. A EDP, essa empresa pública que foi nacionalizada, mas pelo Governo Chinês, um dos que mais violam as leis básicas dos Direitos Humanos, veio imediatamente esclarecer nos meios de comunicação social que se tinha tratado de “uma derrocada inesperada, um acidente natural”. E a gente engole?

Tenho o privilégio de conhecer um pequeno lugar que fica na encosta Norte da zona da Foz do Tua com o Douro, a zona da construção da Barragem. Há cerca de um ano que as explosões são contínuas. Já estive lá e pude aperceber-me dos rebentamentos que fazem tremer o chão e gemer as janelas das casas, apesar de acontecerem a uns quilómetros. Teve que ser feita uma petição para que os rebentamentos, pelo menos, não acontecessem durante toda a noite, porque ninguém conseguia descansar.

Agora, a encosta cede e foi um “desmoronamento natural”… O solo por ali é xistoso, uma das características que possibilitam a vinha. Evidentemente, tantos rebentamentos vão gerando ondas de fractura muito profundas. Depois, sem que ninguém o tenha programado nas folhas de trabalho da Somague e Companhia, o que foi sendo provocado acontece. E dói-me interiormente este tipo de “esclarecimentos” que apontam causas “naturais” e “inexplicáveis” para o que aconteceu. Foi apenas um grande azar…

Imediatamente me veio à cabeça uma frase que li em qualquer lado há muito tempo: Deus perdoa sempre; os Homens, às vezes; a Natureza, nunca.

Andamos a ser tiranos com a Natureza, não apenas na Foz do Tua mas no Planeta inteiro, andamos a portar-nos como imbecis depredando todos os recursos naturais e forçando a própria Natureza aos caprichos do nosso domínio. Andamos globalmente a cair na tentação de transformar pedras em pão e, de repente, em vez de termos pães nas mãos temos pedras a caírem-nos na cabeça. Transformar a Criação em Dinheiro está a ser causa de inúmeras catástrofes e doenças. Não, não é um processo de vingança da Mãe Natureza… a Criação tem inscrita as impressões digitais do Criador, nunca se vinga. O que temos diante dos olhos é o processo de suicídio da Humanidade quando perverte o sentido do Dom e da Graça que, durante milhões de anos, a Criação tem exercido a nosso favor.

O que aconteceu ontem não foi uma catástrofe natural. Aquele acidente não teve nada de acidental. Foi um dos inúmeros sinais da direcção suicida que o Sistema do Capital assume na sua interacção com o meio ambiente.

E os senhores do Dinheiro provocam-me náuseas com a sua polida diplomacia e desmascarada insensibilidade quando vêm depois dar explicações “naturais” para os seus homicídios e declarar que já está “aberta uma investigação”… a quê?! 





8 comentários:

Anónimo disse...

A mim também se me embrulha o estômago...que podemos fazer?

figlo disse...

Os senhores que nada podem mandam sempre que nos calemos. Também eles são mandados pela vergonha de se desdizerem, pelo nojo de perderem amizades tão poderosas como eles. São mandados pelo poder que nada pode - fazem o que não querem e vendem ou dão o que não lhes pertence.Esses senhores do nada precisam de silêncio cúmplice para que não lhes seja descoberta a fraqueza. E quantas vezes nós nos calamos e nada fazemos na hipótese longínqua e improvável de podermos vir a receber uma, mesmo que minúscula,migalha como dividendo das asneiras e das vergonhas que se vão fazendo em proveito de alguns poucos empobrecendo muitos...Lembro-me que quando foi feita a queixa na polícia e nas Câmaras de Alijó e Carrazeda de Ansiães, por causa do barulho e da vibração do "Martelo" perfurador 24 sobre 24 horas por dia e que não deixava dormir a aldeia mais próxima...as Câmaras empurraram a queixa uma para a outra, e houve gente que não quis assinar - tinha sido indemnizada por terrenos ou tinha alguém da família a trabalhar na obra...Não admira que tudo o que acontecer daqui para a frente, decorrente da instabilidade das encostas, seja "natural"...

jose fonseca disse...

estamos a passar uma fase de comer e calar mesmo que não goste. foi o que o povo escolheu...

Anónimo disse...

Destruímos dias e existências a apregoar para não dizer pregar , temo-nos por apoiantes da Teologia da Libertação , falamos da Criação , mas cremos é saber de causas nossas e nem pensamos se causam mossas , a Nossa Jorna da Nova Evangelização, muito próxima na Diocese do Porto, só faz sentido se tiver consequências na vida de muitos e não só para dentro e pregadas para os outros, mas sabemos bem todos o que é uma Acção Popular , conhecemos dirigentes de Associações Ambientais e Humanitárias autodesignados do "Alto Clero", mas isto são coisas do Povo,


Desculpe o desabafo, mas as Revoluções fazem-se por dentro e não estamos Sós

Carta Dia Mundial da Paz . 1 Janeiro 2010


Desculpe o desabafo

Alexandra Rocha

Rui Santiago cssr disse...

Só haveria alguma coisa a desculpar se não tivesses razão, Alexandra... mas tens, e isso é que é o caneco!
Obrigado. Para a frente, então. Acho que a Palavra também faz parte da Acção. Não a esgota, não a substitui, mas a Palavra também é Acção. SHALOM

Levi disse...

Assumimo-nos como donos e senhores deste nosso canto tão bom que é a Terra. Não há consciência de que a Terra e nós somos um todo...parte de uma mesma Criação. É pena ver o que uns quantos tostões (até podem ser milhões que não passam de tostões) fazem. Quantos se calaram, calam e calarão,quantos comeram, comem e comerão, quantos choraram, choram e chorarão, em nome de um suposto progresso.

Pedro Figueiredo disse...

Muito se pode fazer...Custa e dá chatice...quem se tem mexido só arranja dores de cabeça...mas não são anónimos: partido ecologista, bloco de esquerda, movimento cívico da linha do tua, etc...ou seja, "são políticos" que se mexem, e não "ah, os políticos não fazem nada"...políticos somos nós...e a gente é que tem que se mexer...rezar muito sim, mas que Deus ou os outros nos apanhem a fazer alguma coisa...

Isabel Pimenta disse...

Relembrando o documentário do Jorge Pelicano, o que mais dói é ver as coisas a acontecer e ter uma sensação de impotência.
"Derrotar montanhas" é neste momento uma expressão plena de significado...O que aconteceu aquando da construção das três barragens no rio YangTsé "three Gorges" foi dramático para 1 milhão de pessoas que foram deslocadas à força de suas aldeias por causa da barragem...