31 Dezembro 2011

Feliz 2012


No outro dia pode vir apenas o mesmo “1” de sempre, mas na folha de um calendário novo. Só que isso muda tudo… porque ainda se notam em nós muitas coisas da simplicidade perdida, aquelas “marcas de nascimento” nas quais o próprio Deus nos reconhece como obra das Suas Mãos e Vida das Suas Entranhas. A verdade é que não precisamos de muitas e complicadas coisas para emergir dentro de nós a necessidade de pregar uma rasteira ao Tempo e obrigá-lo a correr mais devagar, enquanto se levanta e não levanta da nossa partida… Levamos dentro de nós a extraordinária necessidade de Marcar o Tempo que passa, inscrever-lhe marcas no corpo – como se de pessoa se tratasse! – que são como certificados de pertença: és nosso, Tempo; és um Dom que Deus nos ofereceu para nos ocuparmos da tarefa da nossa Vocação, para nos fazermos à Sua Imagem e Semelhança.

Precisamos dos Ciclos e das Rotinas para nos sentirmos Seguros; mas precisamos da Festa e do Exagero para nos sentirmos Vivos! Porque fomos feitos para a Festa, para a Glória de estarmos Vivos, para o ritmo dançante da Existência mais plena e duradoura.

É por isso que a seguir pode vir apenas o mesmo “1” de sempre… mas é AQUELE “1” em nome do qual foram desarmadas as guardas e baixadas as defesas, gostámos de estar com pessoas e preferimos viver do que não viver. E quando estas coisas acontecem estamos a tocar no que em nós é Eterno…

É verdade que muitas destas manifestações são desprovidas de sabedoria e sentido? Às vezes são… mas só Deus vê bem o que acontece no íntimo de cada um, de cada geração e de cada cultura, só Deus conhece os porquês e as histórias de cada gesto e opção. No que me toca, peço a Deus que me liberte sempre da Ingenuidade na mesma medida em que lhe peço que me cure da tendência de Julgar.

Apesar de tudo, continuo convencido que não há Maravilha Natural mais espantosa de contemplar do que uma Pessoa de bem com a Vida; é uma Paisagem de Eleição alguém que veste confortavelmente a própria pele, pacificado com a sua História e amigado com o “bichinho da esperança” que tece sempre sonhos novos no casulo aberto do nosso coração.

E ver o Ser Humano em Festa é um vislumbre do Futuro definitivo, o que na linguagem da Fé se chama “o Fim do Mundo”, a Meta da Criação! Ver o Ser Humano a Celebrar é vê-lo a realizar aquele mandato criacional de “ser fecundo” e “assumir o Senhorio da terra”; porque de cada vez que Celebra o Tempo que Vive desobedecendo às regras do Tempo que Passa, está a gerar a Vida que não acaba e a manifestar que, de facto, Deus fez de nós alguma coisa mais importante do que tudo o que existe, capazes de desobedecermos a tudo o que se impõe a todos os animais, capazes de desobedecermos até às leis da morte.

Por um momento paramos, da Austrália à costa este do continente americano, como se uma onde de Celebração da Vida percorresse o globo, como uma Onda Aleluiática só comparável àquela da Vigília Pascal em que a Notícia da Potência do Espírito de Deus a acontecer em Jesus vence a noite para começar a percorrer a Terra inteira. E a verdade é que, de cada vez que somos capazes de formar esta Onda Aleluiática, proclamamos que o definitivo da História Humana está pintado nas linhas evangélicas de um Sepulcro Vazio e limpo. E a Notícia, claro, de que Alguém está à nossa espera ali um pouco mais à frente, só um pouquinho mais à frente…


28 Dezembro 2011

Jesus



Comiam todos o caldo, recolhidos e calados, quando o menino disse:
-Sei um ninho!
A Mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido nos alheamento costumado, nem ouviu. 

Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu:
-Sei um ninho!
O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas, e ficou atento, também.

A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pintassilgo de dentro dum grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobrira o manhuço negro, lá no alto, numa galha. A Mãe bebias as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma. O Pai regressou ao caldo. Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima. De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a Mãe, inquieto, com a respiração suspensa, a ouvir.

E o pequeno ia subindo. O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija. A subida levou tempo. Foi preciso descansar três vezes pelo caminho, nos tocos duros dos ramos. Por fim, o resto teve de ser a pulso, porque eram já só vergônteas as pernadas da ponta.

Transidos, nem o Pai nem a Mãe diziam nada. Deixavam, apavorados, mudos, que o pequeno chegasse ao cimo, à crista, e pusesse os olhos inocentes no ovo pintado. O ninho tinha só um ovo. Aqui, o menino fez parar o coração dos pais. Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu, fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada. E ambos viram num relance o pequeno rolar, cair do alto, da ponta do cedro, no chão duro e mortal de Nazaré.

Mas a criança, apesar de mostrar, sem querer, de que todo se alheara do abismo sobre que pairava, não caiu. Acontecera outra coisa. Depois de pegar no ovo, de contente, dera-lhe um beijo. E, ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho. E o menino contava esta maravilha com a sua inocência costumada, como quando repetia a história de José do Egipto, que ouvira ler a um vizinho. Por fim, pôs amorosamente o passarinho entre a penugem da cama, e desceu. E agora, um nada comprometido, mas cheio de felicidade, sabia um ninho.

A ceia acabou num silêncio carregado. Só depois, à volta do lume quente do cepo de oliveira em brasido, é que os pais disseram um ao outro algumas palavras enigmáticas, que o pequeno não entendeu. Mas para quê entender palavras assim? Queria era guardar dentro de si a imagem daquele passarinho depenado e pequenino. Isso, e ao mesmo tempo olhar cheio de deslumbramento os dedos da Mãe, que, alvos de neve, fiavam linho. E tanto se encheu da imagem do pintassilgo, tanto olhou a roca, o fuso, e aqueles dedos destros e maravilhosos, que daí a pouco deixou cair a cabeça tonta de sono no regaço virgem da Mãe.




in "Bichos", de Miguel Torga


...e viram a estrela, esses pagãos das Nações, 
viram o sinal que os outros já tinham deixado de ver, 
encantados que estavam com os olhos colados aos rolos das escrituras... 

26 Dezembro 2011

CER

Todas as terças, às 18.30h, há Silêncios do Entardecer. Amanhã, por ser a última terça feira do mês, os Silêncios do Entardecer chamam-se REZAR COM OS ÍCONES e tem mais meia hora do que o costume.

Os ícones que escolhemos para todo o ano acompanham o ritmo litúrgico. São os sete ícones interpretados e comentados no livro Teologia da Beleza que está disponível para quem quiser no link aqui à esquerda "Livros por encomenda".

Amanhã rezaremos diante deste ícone da Natividade, bem dizendo a Fecundidade do Amor do nosso Deus e a minúcia com que prepara todas as coisas para nós.

Até amanhã. SHALOM

25 Dezembro 2011

dia 1




Cantem até as pedras da calçada 
o Nome daquele que nasceu e andou entre nós!

Que os ventos se reúnam
e nos contem os segredos das Palavras dele,
que tantas vezes levaram como semente a semear!

Vençam o medo da escuridão e o desconforto do frio
todos os Homens de Boa Vontade,
para encontrarem um Fio de Luz mais forte que a noite,
para se deixarem envolver por essa Luz que, mansa como um recém-nascido,
nos cala de espanto e nos dá motivos para louvar!

Afinem as vozes em tom de Alegria Maior todos os Mensageiros do Céu
para cantarem Glórias no meio de nós
até dar a volta à terra inteira a Boa Notícia da nossa Salvação!

E encham-se os nossos olhos com a Misericórdia de Deus
que quer armar no meio de nós a Sua Tenda,
com a Grandeza do Altíssimo,
toda tecida da ternura e da minúcia de um corpo de menino…
um Deus que, para cuidar de nós, Se entrega ao nosso cuidado…

E acorde a nossa Fé nesta noite em que a Luz é mais forte,
para reconhecermos que é na gramática da nossa frágil Humanidade
que Deus faz a narrativa da Sua autobiografia!

Acorde a nossa Esperança nesta noite em que a Luz é mais forte,
para nos fiarmos do Deus que – quem diria?! – é mais Humano que nós!

Acorde o nosso Amor nesta noite em que a Luz é mais forte,
para que aquele Menino um dia nascido e depois feito Senhor de toda a História,
possa contar connosco para o desafio da Irmandade e para a tarefa da compaixão salvadora.

Eis que nasceu em Belém de Judá o Menino de Maria e de José,
e este Menino é o Rosto Humano do Amor de Deus.



23 Dezembro 2011

22 Dezembro 2011

Francisco



Quando comecei a viver por estes lados, ele já era velho. O quiosque estava mesmo em frente ao meu portão. Ele movia-se lá bem, pequenito, só pele e osso, aquele quiosque azul parecia assentar-lhe como um fato feito a prumo. Não tinha espaço para dar meio passo sequer, apenas para girar para a direita ou para a esquerda conforme o que fosse preciso. Depois a  saúde tremeu e ficou a nora a tomar conta do quiosque. Deitava dois dele, mulher larga, bonita. O quiosque não lhe ficava tão bem…

O velhote não conseguia ir embora; passava os dias ali ao lado, dentro do carro, parado a olhar. Cá fora parecia mais mingado, como bicho triste tirado fora da sua casca. Perguntava-lhe e dizia que era da doença, mas eu estava convencido que não, que era da nudez.

Agora, o quiosque está fechado. Lembro-me daquele rosto duplamente velho quando me veio procurar para me entregar o último jornal: “Ó sô padre, amanhã já não há jornal. Vou ser operado.”

“Não há”…

Foi há mais de meio ano. O quiosque lá está quieto, sem sair do lugar, com as entranhas fechadas. Mas o meu amigo tem andado por aqui… Já o vi mais que uma vez. Continua velho e cinco reis de gente, mas aparece por aqui para cumprir o ritual. Vejo-o do meu quarto a descer a rua em passo ligeiro e começa a abrandar assim que lhe poe o olho… Aproxima-se devagar, dá uma volta completa ao quiosquezito em passos muito pequeno e vagarosos, e depois afasta-se um pouco. Encosta-se ao muro que está diante, fuma um cigarrinho, consolado, e no fim dá outra volta. Nunca toca. E segue pela outra rua, não aquela por onde desceu. Olha sempre pelo menos uma vez para trás e só Deus sabe o que lhe passará pela cabeça.

Tem-me encantado isto e, de cada vez que o vejo, aquele velho reescreve-se dentro de mim em forma de pergunta.


17 Dezembro 2011

Ama e Deus estará contigo



Senhor Deus,
a Bíblia diz que tu és Amor (1 Jo 4, 7; 4, 16).
Isto quer dizer que só através do amor nós te podemos conhecer.
Se é esta a realidade,
nós temos esta notícia bonita para comunicar aos nossos irmãos:

“Ama e Deus estará contigo!
Procura fazer o que é recto e justo
e o teu coração vai ficando preparado
para amar verdadeiramente.
Há uma série de passos importantes
que nos conduzirão a esta meta vitoriosa:

Amar a verdade e cultivá-la incessantemente.
A verdade é a compreensão e enunciação correcta e adequada
da realidade de Deus, do Homem e do Universo.
Outro passo importante é tentar ser sempre bom com os outros,
nada fazendo para os machucar ou deixar mais pobres.
Procurar fazer aquilo que digo,
mesmo que não seja muito fácil.
Aprender a partilhar,
não só o que tenho, mas também o que sei e sou.
Deste modo o meu coração adquirirá o jeito da vida eterna,
a qual é vida partilhada e Comunhão Universal.”

Pai Santo,
ajuda-me a viver a dinâmica do amor,
a fim de partilhar com todos os que sabem amar
a plenitude da vida eterna.
Na verdade, o amor é uma dinâmica de bem-querer
que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

Deus Santo,
nós sabemos que tu és Amor.
Isto quer dizer que a meta de todo o amor
é a comunhão contigo, Trindade Santa.

Aleluia!






No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias





16 Dezembro 2011

Aviso



Avisam-se todos os estimados clientes deste estaminé 
que já se encontra disponível 
na secção bíblica do nosso estabelecimento, 
conhecida por Abriu-lhes as Escrituras 
e perfeitamente assinalada à vossa esquerda, 
mais um vídeo do PerCurso Bíblico

Desejando sempre prestar o melhor serviço 
e gratos pela preferência, 
o gerente.

Sr. Rui

15 Dezembro 2011

Algumas ideias para uma Teologia de Advento e Natal

Partilho um encontro comunitário sobre estas coisas que aconteceu ontem. Além do audio, abaixo está o texto com os tópicos que toda a gente tinha para ser mais fácil acompanhar. Um abraço.





Para fazer DOWNLOAD, clique direito AQUI e selecciona a opção "Guardar destino/link como".



Algumas ideias para uma Teologia de Advento e Natal

- Advento: tempo de Preparação para… o Ano Litúrgico! Primeira etapa de preparação para o Cristo Rei, a nossa Grande Esperança, a Coroação Crística da História…

- Tempo para “começar com o Deus Certo”, um Deus Vivo, com mil e uma histórias para contar, com muitas iniciativas, ideias, acções de um Projecto

- Um Deus “não endeusado”, não metido em nenhum Templo, não resumido em nenhuma Religião, não descodificado m nenhuma Lei, não escravo de nenhum Culto, não domesticado por nenhuma espécie de Virtude. O Deus de Quem celebramos o Advento/Vinda é o oposto de uma “essência”, um Algo que explica tudo o que existe, mas Alguém que lhe dá Sentido, um Novo, um Significado não “explicativo” mas Revolucionário, Transfigurador. O Deus de Quem celebramos o Advento/Vinda é o contrário das divindades das filosofias e das divindades dos mitos, ocupadas das coisas das suas “divinolândias”…

- O Céu na Religião de Jesus é a Presença contínua e universal de Deus junto dos Homens. E a Narrativa Bíblica é a história maravilhosa das contínuas Visitas do Céu aos Homens.

- Desde o Princípio, a Presença de Deus junto de nós se revela como uma Pedagogia, a acção paciente de Deus em vista a um Projecto de Felicidade e Plenitude…

- A Fé bíblica é a Fé numa Esperança tecida de Promessas. Fazer Advento é re-aprender a acreditar em Promessas e re-aprender a arte da Esperança…

- Para os cristãos, o horizonte da Esperança bíblica alargou-se, Personalizou-se. A nossa Esperança ganhou Corpo, Vida e Nome de Homem: Jesus de Nazaré. Já não é uma Esperança apenas Simbolizada, como para a Fé dos Profetas da Antiga Aliança, mas é uma Esperança Personificada, como para a Fé dos Apóstolos. “Os Novos Céus e a Nova Terra onde habitará a Justiça” são o Reino de Jesus, as Bodas do Cordeiro, o Mundo Novo moldado à medida de Jesus, a Humanidade refeita na condição filial de Cristo, toda a Criação culminada na energia da sua Páscoa para o Pai, a História inteira atraída a si para chegar à sua original Vocação e Cumprimento…

- O final do livro do Apocalipse é um extraordinário Hino a esta Esperança. A bíblia “fecha” com um “Maran’tha: Vem para aqui!” Senhor Jesus…

- Como vai ser/está a ser essa Vinda? Como vão/estão a realizar-se para nós as Promessas de Deus? Como vai/está a realizar-se o Fim do Mundo? A “resposta” a estes Como é: Quem vai fazer tudo isso? Para explicarmos Como vai/está a ser alguma coisa, dizemos Quem a vai/está a fazer…

- Assim se torna importante dizermos o Nome e a Vida desse Jesus a Quem Deus “entregou o Livro da Vida, selado com os selos que só ele pode abrir”. Por outras palavras, aquele a Quem Deus entregou o Senhorio e a Interpretação da História

- O Natal é o “primeiro acto” do conto de Jesus, a abertura do que temos para dizer daquele por Quem e de Quem esperamos as Promessas do Plano de Deus…

- Advento é a Esperança da Vinda do Senhor Jesus, não do “Menino” Jesus, que já não existe! “Cresceu em sabedoria, estatura e graça, diante dos Homens e de Deus”. Esperamos o Senhorio de Cristo, a Realização/Consumação da Aliança entre Deus e a Humanidade…

- Esperamos o Fim do Mundo, a Cristificação total da Criação, a Hora em que Deus, que é tudo em Cristo, será tudo em todos… Entre Tanto, a nossa Vocação mais sublime é a Esperança e a nossa mais verdadeira é o Amor, que conduz todas as coisas ao seu Fim…



Shalom

14 Dezembro 2011

Eu?... a Voz...



Ainda me lembro da hora em que se revelou a mim a palavra “ExCêntrico”, enquanto recebia o beijo quente de uma lareira em trás-os-montes. Desde então, muito temos conversado os dois.

Este fim-de-semana estive a anunciar o Evangelho (espero eu!) no Cartaxo e, perguntando ao grupo que coisas suscitava neles a figura do Profeta João Baptista, a primeira resposta que escutei foi: “Era um homem excêntrico”. E sorri, contente.

Todos os Profetas o são por causa da sua ExCentricidade, por serem pessoas cujo Centro está para além delas mesmas, fora de si. Aliás, esta é a acusação que a própria família de Jesus lhe faz quando o vai procurar a Cafarnaum para o levar de volta à pacata Nazaré: “Ele está fora de si!” (Mc 3,21). João era um homem ExCêntrico, como todos os Profetas da História, porque descobriu para além de si mesmo o centro da vida, o sentido da própria existência. Quando vão ter com ele os manhosos de Jerusalém, tudo o que ele tem a dizer acerca dele mesmo é “Não sou! Não sou! Não sou!” três vezes repetido. E, depois da pergunta: “Então quem és para termos alguma coisa para dizer àqueles que nos enviaram?” (a espiar…), João responde: “Eu?... a Voz do que clama no deserto”… a Notícia da chegada de Outro! (Jo 1,19-23) O mesmo João a quem depois colocam na boca estas palavras em relação a Jesus: “É preciso que eu diminua e ele cresça”. (Jo 3,30)

E viver esta Fidelidade radical, que é uma ExCentricidade, um centrar-se noutro, mover-se por uma atração que nos desloca de nós mesmos, torna-se sempre uma ExPosição. Hoje andei a fazer amor com esta palavra. 

O Profeta, por ser um ExCêntrico, fica ExPosto, ou seja, deslocado de si mesmo, posto para além de si mesmo. Esta é a ExPosição da vida dos Profetas, como foi de Jesus. Girar fielmente em torno do fascínio por Outro “que é maior que eu e diante do qual eu nem me sinto digno de lhe desatar a correia das sandálias” (Mc 1,7), introduz os Profetas num itinerário de Liberdade sem retorno. Porque ficam ExPostos…

Assim coincidem, na vida dos Profetas, o motivo da sua Força e da sua Fraqueza. Os evangelhos abrem com o encontro das figuras proféticas de João e Jesus; cada um a seu jeito existiu de maneira profundamente ExCêntrica e ExPosta; ambos foram assassinados por causa disso. E ambos, cada um a seu jeito, foram extraordinariamente Fecundos e duradouros também por causa disso.

A vida está cheia de Sentido e Significado. Agradeço ao Mistério da Existência de tudo quanto me envolve por me deixar ser participante do Milagre de estar Vivo e por me dar ganas de O louvar e bem dizer.


Shalom



13 Dezembro 2011



Dou-me bem com a descrença e com as dúvidas de quem procura. Sinto-me confortável numa conversa entre sensibilidades religiosas diferentes e experimento como um privilégio a amizade com pessoas que não abdicam de procurar o Sentido e a Beleza da Vida e dos Gestos, apesar de não sentirem necessidade de fazerem dessa procura um itinerário religioso. Onde me sinto como peixe fora de água é na terra dos mitos e da beatice, no bairro de lata das mezinhas e das devoções sem outros fundamentos para além do medo e das superstições. Sinto-me triste no território das aparições, dos milagres de trazer por casa, dos gurus que têm uma caixinha mágica dentro da qual transportam o Espírito Santo sempre com eles e das revelações particulares que pouco mais revelam que a particularidade – tantas vezes doentia – de quem as tem.

Há horas em que o que fica para dizer é um desabafo entristecido diante da religiãozeca em que tantas vezes transformamos o Evangelho de Jesus. E a Igreja torna-se Templo, e a Fé faz-se crendice, e a Esperança uma espécie de fezada de que, pedindo e negociando com jeitinho, é possível ainda darmos a volta ao todo-poderoso lá do céu para ele fazer o que nós lhe pedimos. “Não há nada que Deus possa e não queira!”, vá-se lá dizer uma heresia destas…

A religião cansa-me. 

11 Dezembro 2011

Construindo a Paz do Coração



Espírito Santo,
obrigado pela paz do coração.

São Paulo diz expressamente que
a paz de coração brota em nós pela acção do Espírito Santo.
Eis as suas palavras:
“São estes os frutos do Espírito: amor, alegria e paz” (Ga 5, 22).

Uma das primeiras atitudes da pessoa para construir a paz interior
é treinar a mente e o coração
no sentido de não se deixar dominar
por ideias e sentimentos negativos.
É uma arte que os evangelhos nos aconselham a cultivar
todos os dias.
Eis o que diz o evangelho de São Lucas:
“Tende cuidado para que as vossas vidas não fiquem pesadas
devido ao excesso de preocupações” (Lc.21,34).
O Espírito Santo, com a sua ternura maternal,
realiza no mais íntimo do nosso coração uma acção libertadora.
Recordamos, agora,
as palavras da Segunda Carta de aos Coríntios
em que São Paulo diz o seguinte:
“Onde está o Espírito do Senhor aí está a liberdade” (2 Cor 3, 17).

Jesus disse que o Espírito Santo o ungiu,
a fim de proporcionar a liberdade aos oprimidos (Lc 4, 18).
Tudo isto quer dizer que o Espírito Santo
é uma pessoa livre e libertadora.

Ele é, diz a Carta aos Romanos,
“o amor de Deus derramado nos nossos corações” (Rm 5, 5).

Na véspera de partir para o Pai,
Jesus deixou-nos o Espírito Santo
como garantia do grande dom da paz.
Eis as palavras de Jesus no evangelho de São João:
“Deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou” (Jo.14,27).
O evangelho de São Mateus aconselha-nos
a alimentar a confiança em Deus,
a fim de habitar em nós a paz do coração:
“Não andeis preocupados, dizendo:
que iremos comer, beber ou vestir?
Procurai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua Justiça
e todas as demais coisas vos serão dadas por acréscimo.
Não vos preocupeis com o dia de amanhã,
pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo.
A cada dia basta a sua dificuldade” (Mt 6, 31-34).

Pai Santo,
unidos a Jesus Cristo e ao Espírito Santo,
nós vos louvamos pela vossa grande bondade para connosco.

Amen 






No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco, 
Calmeiro Matias

09 Dezembro 2011

?



Quando Jesus contava uma parábola, estava a introduzir aqueles que o escutavam num diálogo pessoal com o Deus em que Jesus acreditava e do qual falava encantado. Porque uma parábola é assim mesmo, uma proposta, uma convocatória a meter-se dentro do Mundo Novo que é narrado.

Não é como um ensinamento… esse, quem o escuta pode aceitar ou rejeitar, aderir ou discordar. Mas uma parábola não é coisa de concordar; é coisa de perguntar. Uma parábola é uma interrogação. É uma pergunta em forma de micronarrativa, um desafio em forma de estória. É uma interrogação sobre o que aquilo significa. Uma interrogação que só pode ser respondida por quem a quiser escutar. Não é um caminho a que se adere, mas uma pergunta à qual ficamos expostos. Por isso é que “ter ouvidos para ouvir” é sinónimo de estar disponível à nudez diante do Deus do Reino e às Suas propostas.

“Àqueles que o seguiam, Jesus explicava tudo em particular”. Eis a vantagem de ser discípulo, o privilégio da intimidade. Porque se cada parábola é contada para provocar em nós as perguntas e as nossas interpretações do Reino de Deus, é uma graça imensa poder escutar de Jesus e ver em Jesus a interpretação que ele mesmo faz dessas coisas.

Ele é a chave-de-leitura do Reino de Deus. A vida de Jesus é a hermenêutica do Reino, é a visibilidade e a interpretação do Projecto de Deus chamado “Reino”. E ser discípulo é um dom que nunca saberemos justificar capazmente. Porque, para onde quer que olhemos, percebemos que estamos rodeados de Graça e Sentido; aí vivemos, nos movemos e existimos.

08 Dezembro 2011

Imaculada Conceição


Para este dia, escrevi isto já em 2006. Mas pronto, espero que ainda sirva...
Um abraço!
SHALOM

Dito em linguagem clássica, o Dogma da Imaculada Conceição refere-se à “concepção de Maria sem mancha de pecado original”. A maior parte dos católicos pensa ainda, erradamente, que a linguagem da Imaculada Conceição tem a ver com a concepção virginal de Jesus. Durante a sua história, a Igreja proclamou quatro dogmas marianos: a Maternidade Divina de Maria, a Virgindade de Maria, a Assunção de Maria e a sua Imaculada Conceição.

Este dogma foi proclamado apenas em 1854 pelo Papa Pio IX, e o texto original diz o seguinte: “No primeiro instante da sua concepção, pela graça e privilégio de Deus Todo-Poderoso e em consideração aos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, a Virgem Maria foi preservada e isenta de toda a mancha de pecado original”.

É isto que significa Imaculada [sem mácula-mancha-pecado] Conceição [concepção].

Um Dogma é uma formulação teológica que serve à Igreja para dizer uma determinada dimensão do Mistério da Fé num tempo concreto. Temos sempre que distinguir entre aaquisição teológica a que a Igreja chega e as condicionantes culturais em que a exprime. Sem esta permanente releitura da nossa própria linguagem da Fé caímos no dogmatismo farisaico ao qual Paulo já se referia: “A letra mata, o Espírito é que dá a vida” (2Cor 3, 6).

Em relação ao dogma da Imaculada Conceição, este não pode ser mediação da Boa Nova se não fizermos uma releitura do que significa “Pecado Original”.

Quando foi escrito o Dogma, por “Pecado Original” entendia-se uma mancha na alma herdada de geração em geração, que passava através da relação sexual. Já tinha acontecido ao longo de toda a teologia medieval um afastamento quase radical da teologia bíblica e da sua compreensão de pecado, que tem sempre a ver com a quebra de uma Aliança. A linguagem bíblica é sempre relacional.

No entanto, depois entendeu-se o pecado como “mancha na alma”, maior ou menor conforme a gravidade… Era preciso ter a alma sempre mais ou menos limpa, porque a qualquer hora podia soar a hora do juízo [morte], e cada um seria julgado pela brancura e pelas manchas da alma. Não havia a mínima noção da interioridade pessoal humana como construção histórica. A “alma” era igual para todos, vinha directamente de Deus e era introduzida no corpo humano durante a gestação intra-uterina (!!!); a diferença é que uns a tinham mais limpa, outros mais suja! Para limpar havia os Sacramentos, sobretudo a Confissão, e diversos sacrifícios [jejum, longas orações, abstinência sexual, peregrinações…].

Como não havia outra maneira de conceber pessoas senão através da relação sexual, mas como esta era pecado [como, aliás, tudo que tivesse a ver com sexualidade!], todos os seres humanos nasciam com uma mancha do pecado na alma, antes mesmo de poderem pecar! Este era chamado o “Pecado Original” [o que vem das origens].

Como vemos, a formulação do Dogma está muito distante da compreensão bíblica do Mistério da Vida de Deus e do Homem…

Na bíblia, o que chamamos “Pecado Original” [que é uma expressão criada por Sto. Agostinho no séc. IV] chama-se Pecado de Adão. Adão é a figura simbólica do princípio da Humanidade. Adão e Eva cederam à tentação da Arbitrariedade, ao impulso de escolher o bem ou o mal em função de si próprios, e assim iniciaram a dinâmica do Egoísmo. É isso que significa “colher da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”. O Egoísmo provoca rupturas: estavam nus um diante do outro, e deixam de estar [estar nu diante do outro é símbolo da verdade e da confiança recíproca]; eram unidos como uma só carne, mas passam a acusar-se mutuamente; viviam em harmonia com toda a criação, mas agora vão ter que lutar com ela para viverem [é o que significa o trabalho agrícola]…

Mas este Pecado de Adão não ficou encerrado neles… A bíblia continua: tiveram dois filhos, e um matou o outro!!! A Arbitrariedade gerou o Egoísmo; o Egoísmo gerou a Acusação; a Acusação gerou o Fratricídio.
Depois – ainda continua a bíblia – Caim vai ser pai de muita gente… E passado um pouco encontramo-nos simbolicamente com toda a Humanidade junto à Torre de Babel, símbolo do desejo de possuir, dominar e conquistar que gera o desentendimento universal! [todos estes símbolos da história humana marcada pelo pecado estão nos 11 primeiros capítulos da bíblia]

Já no Novo Testamento, São Paulo usará uma imagem muito simples para entendermos o mistério da Nova Aliança como Reconciliação: a Humanidade é como um enorme Corpo a que todos pertencemos. “Quando a Cabeça não tem juízo… o Corpo é que paga!”

A primeira Cabeça da Humanidade [Adão] iniciou a dinâmica do pecado, do egoísmo que gera a violência, e isso é como que o sangue que percorre todo o Corpo, infectando-o…

Então, Deus amante da Humanidade, o que sonha? Dar-lhe uma Nova Cabeça! Jesus Cristo é o Novo Adão – diz Paulo – ou seja, é a Nova Cabeça da Humanidade.Acontece em Jesus Cristo a Recapitulação da Humanidade [re-capite: pôr uma nova cabeça]. Da Nova Cabeça circula para o Corpo a dinâmica da Vida, da Reconciliação e da Paz que recria o Corpo inteiro do pecado. Eis como o diz o Apóstolo: “Por um homem penetrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte [no sentido de morte violenta, como o fratricídio de Caim], e assim a morte estendeu-se para toda a Humanidade. Mas assim como pelo pecado de um só reinou a morte através dele, com muito maior razão por meio de Jesus Cristo reinou a vida… Assim como com o pecado de um só se estendeu a condenação a toda a Humanidade, assim a fidelidade de um só estendeu a toda a Humanidade o decreto que concede a vida! Onde abundou o pecado, superabundou a Graça! (Rom 5, 12-20)

Assim como o Primeiro Adão introduziu na marcha histórica da Humanidade a dinâmica do pecado que gera o fratricídio, o Novo Adão tornou-se para todos dador do Espírito da Vida que gera a Fraternidade. Assim como o pecado de Babel gerara a confusão entre todas as línguas, o Espírito do Pentecostes gerou o entendimento entre todas! Eis a Nova Humanidade iniciada em Jesus, o Cristo.

Esta Nova Humanidade nele inaugurada ainda não está acabada. Ainda correm nas “veias relacionais” deste Corpo universal muitos ritmos negativos à moda de Adão… Mas circula também neste Corpo que formamos com todos os Homens e Mulheres de todos os tempos o Espírito Santo que nos inspira ao Amor e nos abre a relações fraternas marcadas pela Verdade e pelo Bem-Querer.

Aqui, temos que despertar para uma outra dimensão essencial da Vida: começamos por ser o que outros fizeram de nós. Quando uma pessoa humana começa a tomar consciência da sua própria existência já está profundamente habitada e marcada por outros! É à luz desta verdade que devemos entender hoje a linguagem do Pecado Original, o Pecado que vem das Origens.

Nascemos num contexto que não escolhemos nem pedimos. Começamos a nossa vida recebendo um leque de possibilidades que nos são dadas pelos outros. No entanto, os outros também inscrevem em nós bloqueios e limitações. A Humanização é um processo histórico de realização das possibilidades permanentemente recebidas e a vitória sobre os bloqueios, na certeza de que quando realizamos uma possibilidade abre-se um novo leque de possibilidades, e quando derrotamos um bloqueio ficamos mais fortes para derrotar os seguintes!

Ninguém é herói ou culpado pelas possibilidades ou bloqueios que são inscritos na sua vida. O heroísmo ou a culpa decidem-se no modo como cada um põe as suas possibilidades a render. As possibilidades têm sempre a ver com o amor, e os bloqueios são sempre consequência do pecado humano.

Falar de Pecado Original significa compreender esta dinâmica da vida pela qual nascemos no seio de uma Humanidade marcada não só por ritmos positivos, mas também por ritmos negativos. Entende tudo isto como linguagem relacional!

Podemos entender o Pecado que vem das Origens deste modo: começamos por ser apenas vítimas do pecado da Humanidade, mas depois tornamo-nos também culpadosdesse pecado pelo nosso próprio pecado individual. Isto é, não só nascemos num contexto humano marcado por ritmos negativos, como depois nós próprios inscrevemos alguns ritmos negativos na marcha da História.

Dizer que Maria, mãe de Jesus, foi “isenta de pecado original” não significa, por isso, que não tinha uma “manchinha na alma” que os outros tinham! Significa dizer que nascendo no seio de uma Humanidade marcada por ritmos negativos, não inscreveu na história novos ritmos negativos! Vítima do pecado humano, não se tornou culpadadesse pecado pelo seu próprio pecado individual. Por isso foi uma mediação extraordinária da Verdade e da Ternura Maternal do Espírito Santo para Jesus na preparação da sua Missão Messiânica!

Celebrar Maria como Imaculada Conceição é Boa Nova para todos os discípulos de Jesus, o Cristo, porque se torna para nós apelo a derrotarmos a lógica do pecado original-universal em nós e nas nossas comunidades.

A linguagem da “manchinha da alma” milagrosamente inexistente retira dignidade a Maria, desfigura a seriedade de Deus e é totalmente inconsequente para a nossa própria Fé!

Ajuda-nos,
Espírito da Verdade, que nenhuma fórmula pode conter
nem nenhum tempo consegue esgotar,
a vivermos abertos à Novidade da Tua presença
e à Surpresa da Tua acção em nós.
Dá-nos um Coração Generoso
para nunca nos negarmos aos Teus pedidos,
Forte para vencermos o pecado que nos vitimiza
e Sábio para resistir a todas as tentações
que aumentam o Pecado Original-Universal!
Servos de Jesus Cristo,
o Novo Adão,
faz-nos vitoriosos sobre o Pecado, a Violência e a Morte!
Amén

06 Dezembro 2011

ainda há imagens que valem as palavras




Praça Tahir, Cairo, Egipto. Sabemos - mais ou menos - o que se tem passado por lá nos últimos tempos. Mas no meio dos confrontos e da violência, o ser humano é capaz de gestos que mostram o melhor de que é capaz. À hora em que os nossos Irmãos Muçulmanos eram chamados à Oração, o desconforto reinava, porque colocarem-se todos no chão de joelhos em adoração deixava-os numa situação de insegurança. O que aconteceu? Estavam lá muitos cristãos, que formaram um cordão humano e os rodearam para que pudessem fazer a sua Oração tranquilos. E mais palavras não são precisas.


E hoje, apenas ISTO, para quem der jeito.





05 Dezembro 2011

"...até que Deus seja tudo em todos!"



Entre Fogo, Chamas e Labaredas, há muita linguagem a arder na escritura bíblica da nossa Fé. “E a terra será consumida num fogo e os elementos serão consumidos nas chamas, quando o Senhor cumprir a Sua Promessa…” Ou, então, o próprio Jesus que diz “Eu vim trazer fogo à terra, e como gostaria que já estivesse ateado”… E João Baptista que diz de Jesus que é aquele que não virá baptizar em água mas “no Espírito Santo e no fogo”…

E séculos de pregações transformaram a beleza da linguagem bíblica num instrumento de terror, quantas vezes… e daí ao inferno como um lugar de fogo foi um saltinho, até aos pequenitos de Fátima que, na simplicidade e pureza do seu coração de crianças, até viram o que ouviam.

Partilho umas ideias muito simples para entender bem esta linguagem do fogo na bíblia. Evidentemente, não é o fogo das nossas lareiras, mas uma linguagem simbólica para nos aproximarmos da maneira como Deus actua na Criação e em nós. O anúncio de toda a realidade a ser dissolvida no fogo ou a ser absorvida nas chamas que vêm da parte de Deus, não são coisas para nos assustar mas para nos apontarem o alcance máximo da Esperança Bíblica: “Deus será tudo em todos”, como diz o Apóstolo Paulo. A linguagem do fogo é a simbologia bíblica para dizer isto mesmo que Paulo anuncia desta maneira: a Criação inteira está em génese, em mudança, e nós mesmos estamos dentro deste processo divino de transfiguração de toda a realidade até que Deus, que já é tudo em Cristo, seja tudo em todos.

Na altura, muitas filosofias e tradições religiosas se estruturavam – como hoje – a partir dos quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Porque é que a acção de Deus é simbolizada tantas vezes através do fogo? Porque é o único elemento que tudo transfigura em si mesmo, transforma o que toca naquilo que ele mesmo é. Se enterrares alguma coisa, ela fica escondida, mas não se torna terra. Podes desenterrá-la e recuperá-la. O ar passa pelas coisas e não as vaporiza, a água corre continuamente sobre os seixos mas não os liquidifica. Mas o fogo… o que toca, transfigura em si, absorve, consome. A terra, o ar e a água desgastam os elementos; o fogo não os desgasta mas consome-os em si mesmo, torna-os fogo.

Eis como Deus actua connosco… não como algo que se justapõe à realidade, mas como Alguém que nos quer transfigurar em Si. Deus quer-nos inteiramente participantes do Seu Mistério Pessoal, transfigurados na Sua própria maneira de Ser. Para usar uma palavra das origens da Fé cristã e que, entretanto, caiu em desuso: por Amor, o Projecto de Deus é Divinizar-nos. Não tornar-nos “deuses”… mas tornar-nos Deus, uma só coisa conSigo, convivas da Sua Alegria e da Sua Festa. Já o Camões dizia que "Amor é Fogo que arde sem se ver"… não nos admiremos tanto de a escritura associar o Amor de Deus por nós à acção do Fogo. O Fim do Mundo, isto é, a Finalidade da Criação, é a plena assunção divinizante de toda a realidade no Mistério Familiar de Deus.

Quando os Apóstolos testemunham que o Espírito Santo desceu sobre eles como “línguas de fogo”, não consta que tivessem ficado todos com a careca queimada… porque o fogo é o símbolo da maneira como experimentaram Deus a actuar neles. O Espírito de Deus, que é Fogo, Chama, Labareda Viva, não passa pela nossa vida como ar que faz festinhas no rosto nem como água que só nos limpa por fora, nem como terra que nos esconde… mas como fogo que quer transfigurar inteiramente a nossa existência.

E não apenas nós… mas toda a Criação está convocada para esta metamorfose do Espírito de Deus que já está em marcha, esta Transfiguração Pascal que se insinua a nós no sinal de Jesus Cristo Vivo.

“No Fim do Mundo estará tudo a arder”… ah, empolgadas pregações que criaram tantos fantasmas… Mas sim, quando a Criação inteira chegar ao seu Fim, à sua Culminação, ao ponto Omega que Deus nos promete que é o próprio Cristo ReSuscitado, então, tudo estará definitivamente envolvido no Fogo do Amor de Deus, na temperatura e energia do Seu Projecto que, finalmente, será tudo em todos! E veremos, com olhos novos, a realização da oração de Jesus: “Oh Pai, assim como eu e tu somos Um, que eles sejam todos apenas Um connosco!”

Vem, Fogo de Deus, labareda da Sarça Ardente de Moisés que está viva sem se gastar, que arde sem consumir, e traz histórias de Futuro que apontam a Liberdade dos Novos Céus e da Nova Terra onde habita a Justiça. Ou não fosse essa a Terra Prometida a toda a Humanidade…



04 Dezembro 2011

a Fidelidade de Cristo



Obrigado, Jesus Cristo, por teres sido fiel ao plano salvador que Deus te confiou!
Ensina-nos, nós te pedimos, a ser fiéis como tu, 
pois desta fidelidade pode depender a felicidade de muitos irmãos nossos.
Queremos ser mediações do amor de Deus para os nossos irmãos, 
tal como tu foste o medianeiro do amor salvador de Deus para nós.

Glória a ti, Jesus Cristo ressuscitado. 
A tua morte violenta foi o resultado abominável da ingratidão humana.
A tua ressurreição, porém, deu-nos a certeza de que Deus toma partido 
pelos que gastam a vida pelas causas do amor.
Na verdade, tu ressuscitaste, 
porque Deus não permite que o justo seja destruído pelas forças da iniquidade.

Tu que eras o Filho Unigénito de Deus decidiste ser nosso irmão através do mistério da Encarnação.
Em ti, Cristo Bendito, o humano e o divino interagem directamente.
Com o seu jeito maternal de amar, 
o Espírito Santo dinamiza esta união orgânica através da qual a Humanidade é divinizada.
Glória a ti, Filho Eterno de Deus, por teres decidido ser nosso irmão!

Recordo com muita gratidão as palavras bonitas em que te declaras nosso irmão...
Ao ressuscitar, Jesus apareceu a Maria Madalena junto ao Sepulcro, 
enquanto esta chorava a perda do seu salvador.
“Jesus disse-lhe: 'Maria!' 
Ela, aproximando-se exclamou em hebraico: 'Rabbunni!' que quer dizer Mestre!
Não me detenhas, disse Jesus, pois ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com meus irmãos:
'Subo para junto do meu Pai, que também é vosso Pai 
e para junto do meu Deus que também é vosso Deus'" (Jo 20, 16-17).

Louvado sejas, Filho Eterno de Deus, Segunda Pessoa da Trindade Divina!
A tua decisão de te exprimires em grandeza humana no homem Jesus 
fez de ti o Primogénito de muitos irmãos, como diz São Paulo (Rm 8, 29).
E foi assim que te tornaste a cabeça da Nova Humanidade reconciliada com Deus (2 Cor 5, 17-19).
Eis a maneira bonita como Paulo exprime esta realidade:
 “Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação.
O que era antigo passou. Eis que tudo se fez novo.
Tudo isto vem de Deus que, em Cristo, nos reconciliou com Deus, 
não levando mais em conta o pecado dos homens” (2 Cor 5, 17-19).

Ajuda-nos, Senhor Jesus, 
a libertar-nos dos fardos que bloqueiam a nossa caminhada para a Comunhão do Reino de Deus.
Dá-nos a força necessária para nos libertarmos dos nossos antigos ódios e ressentimentos.
Dá-nos a capacidade para nos libertarmos dos sentimentos de fracasso e incapacidades.
Dá-nos um coração fraterno, a fim de ultrapassarmos as nossas divisões.
Ajuda-nos a ser o verdadeiro povo de Deus, 
escolhendo como Lei o Amor e como Sabedoria a tua Palavra.



No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco, 
Calmeiro Matias