como filhos bem amados e como discípulos

A Nova Criação que Deus está a realizar pela vida permanente que emerge e se derrama da Páscoa [Passagem] de Jesus para o Pai não é apenas uma espécie de trabalho de artesão moldando cada um de nós, pelo Espírito, à imagem do Seu Filho Primogénito. É fundamentalmente uma Força Pascal que foi introduzida na marcha da história, o Impacto de um Novo Big Bang que gerou um dinamismo de Expansão que está a abraçar todas as coisas, a gerar uma espécie de “onda de impacto” que percorre a Criação inteira e a faz rejubilar, saltar, bater palmas e conhecer a revelação do Evangelho da Vida. Esta é a linguagem fortíssima dos salmistas e dos profetas para falar do Dia em que Deus viria para Julgar a terra, para Re-Criar a história, para a Libertar e Salvar, como Redentor (Sl 98). Esta é a linguagem belíssima que está por baixo do pensamento do apóstolo Paulo quando, apenas 30 anos após a Páscoa de Jesus, ele afirma que o Evangelho da Vida e da Primazia de Cristo foi “dado a conhecer a toda a criatura que vive debaixo do céu” (Col 1, 23).

“Até que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15, 28) estamos a ser transformados no contexto de uma Criação em génese, em mudança. A Mudança que Deus inaugura em Jesus e confirma com a plenitude do Poder do Seu “SIM” na sua Ressurreição é uma Acção Salvadora a abarcar o Cosmos inteiro, a vencer nele todas as forças de Caos que, entre nós, se chamam Pecado ou Desumanidade.

Fazer Corpo com Jesus, o Cristo, e proclamar a Fé no Deus Vivo que está a operar uma Nova Criação implica ser colaborador de Deus na tarefa de “fazer novas todas as coisas”, de “limpar as lágrimas de todos os olhos” e de dizer: “O que era antigo passou!” (Ap 21).

Quando fazem a experiência pascal, os discípulos de Jesus nunca passam da surpresa à “crença”, mas da surpresa à Missão. “No Primeiro Dia da Semana” eles percebem que o que Deus começa é uma Nova Criação e o primeiro gesto desta Nova Criação é a Ressurreição de Jesus, a sua Transfiguração Filial no seio do Pai pelo Espírito Santo e o Dom deste Espírito para todos os que são seu Corpo. Mas, depois disto, a conclusão não é: “Então, quer dizer que quando morrermos vamos para o Céu!” Não! Se Deus fez nascer “o Primeiro Dia da Semana” da Nova Criação, e o fez Ressuscitando Jesus, significa que “temos trabalho para fazer! Somos os seus discípulos, somos as testemunhas destas coisas, os que bebemos as suas palavras e fomos revestidos pelo seu Espírito! Temos trabalho para fazer…”

Este é o princípio da Missão dos Discípulos de Jesus no Novo Testamento. A Mudança que a Fé em Jesus realiza em nós não é utilitarista nem individual, mas coincide com uma consciência renovada de Pertença e, por isso, de Missão. Percebermos a nossa “pequenez” é percebermos a nossa real “grandeza”, isto é, o nosso lugar insubstituível num Projecto e numa Grandiosidade que ninguém individualmente se pode oferecer.

Esta Mudança que a Fé realiza em nós torna-nos “mudadores” das situações como instrumentos na mão do Deus Criador que é Senhor da História, servos fiéis do Reino de Deus como filhos que colam os olhos nas mãos do Pai para aprender dele como se faz, como se mexe, como se arranja, como se molda, como se cura, como se força, como se espera, e vão tentando imitar, com as suas dificuldades e desajeitos, em obras à sua medida.

Temos connosco Jesus de Nazaré, mão visível do Pai, o braço nu de Deus que mergulhou na nossa história para lhe sentir o pulso e a atrair à sua salvação, como vemos nos ícones orientais o Ressuscitado a fazê-lo à Eva. E temos connosco o Espírito Santo. Aquele que trabalha em toda a Criação é o que trabalha nos nossos Corações para nos assemelhar a Jesus, assim como trabalhou no seu coração para fazer dele “imagem visível” do Pai Fiel, Bom, Forte e Salvador.

Qual é o nosso lugar nesta Nova Criação que Deus está a realizar? Não está apenas em causa o nosso bem pessoal e a tranquilidade do nosso coração mas a Pertença a um Projecto de Salvação para todos! Não podemos negar esta Pertença e esta Vocação, como Filhos de Deus-Pai e como Discípulos do Jesus de Nazaré Suscitado entre nós e Re-Suscitado para nós.


Mas não nos perguntamos pelo nosso lugar-missão no Projecto do Reino de Deus como se fôssemos contratados por um patrão, ou como se fôssemos os escravos de um senhor que está em casa à lareira a ler o jornal… É Deus mesmo quem está a trabalhar, na Sua Comunhão: o Pai como Pai Nosso, o Filho como nosso Irmão e o Espírito Santo como Nossa Vida! “Nele vivemos, nos movemos e existimos”, dizia Paulo (Act 17, 28). E eu acrescento: e trabalhamos para o Reino. Não “por causa dele”, não “em vez dele”, não “por seu mandato”… mas “NELE”! COM Deus e EM Deus.

Não trabalhamos como servos mas como filhos. Por isso, o “não-fazer” é uma dimensão essencial deste estar ao serviço do Reino de Deus e colaborar na Nova Criação. Porque não chegamos a perceber o que nos é pedido sem contemplar, parar, olhar, escutar, admirar, bendizer, agradecer, exultar, louvar. É uma experiência insubstituível… era o que dizia antes de “colar os olhos, como meninos, às mãos do Pai que trabalha” e aprender dele, admirá-lo, beber cada gesto, cada toque, cada minúcia… e sentir-se vaidoso e contente e feliz por sermos de quem somos e podermos estar ali, apenas assim, naquele momento…

Este é um serviço precioso que devemos prestar à Humanidade que precisa de quem lhe diga incessantemente o bem que lhe está a ser feito, o carinho que lhe está a ser dedicado, o trabalho com que está a ser cuidada e recriada e o futuro grandioso que o Amor lhe garante. Tudo daquele e naquele que a Criou e não abdica dela porque a guarda em Si com Amor eterno.
Louvar o Bom Deus pelo Seu Projecto Salvador e dá-lo a conhecer aos irmãos é um bem precioso que devemos prestar à Humanidade...


SHALOM

3 comentários:

C.A. disse...

...que magnífico .
Caríssimo , ...sem palavras fico cá.
bjnhos .

Ruca disse...

Belíssimo texto.É muito bom estar no Cosmos com Ele e n'Ele.

Ruca disse...

Rui Santiago continua com a mesma força, verdade e alegria a realizar a tua/nossa missão. Abraço amigo, Rui.