30 Dezembro 2008

Os privilégios dos Iluminados

A Carta aos Hebreus é um dos escritos menos conhecidos do Novo Testamento. É um diálogo com as primeiras gerações de discípulos de Jesus que provinham do Judaísmo (Hebreus) em que, usando linguagem do culto e da tradição bíblica judaica, se anuncia a Boa Notícia da Ressurreição de Jesus como princípio de uma Nova Aliança.

Então, utilizando linguagem judaica, conclui que uma Nova Aliança implica uma Nova Lei, um Novo Culto e um Novo Sacerdócio… Na perspectiva do autor anónimo desta Carta, estes “Novos” todos vêm de Deus e devem ser acolhidos porque realizam as três coisas que a Antiga Aliança (Sinai), a Antiga Lei (Mandamentos), o Antigo Culto (Templo) e o Antigo Sacerdócio (Levitas) se pretendiam fazer e não conseguiram: levar à perfeição, perdoar os pecados e aproximar de Deus.

O tema da Carta vai andando sempre por aqui, e é nela que o Re-Suscitado é apresentado, usando linguagem do culto judaico, como Sumo-Sacerdote, ou seja, Mediador. Não já como os sacerdotes do templo, os levitas, mas como um sacerdote–mediador constituído por Deus pela força do Espírito Santo. Não um sacerdócio que se multiplica em inúmeros sacerdotes, mas um sacerdócio único e eterno que ele mesmo exerce, e só ele, uma missão de mediação que consiste no seu lugar de Filho de Deus Pai e irmão de todos os Homens.

Quando se entende a linguagem utilizada é, sem dúvida, um dos escritos mais bonitos do Novo Testamento. Além do alcance teológico, chega a momentos de verdadeira poesia na maneira como fala da ressurreição de Jesus como acontecimento salvador para todos. Ele, sendo Filho de Deus e Vivente no Espírito, conhece a nossa condição, os nossos sofrimentos, passou pela "prova" de existir e chama-nos "irmãos". Por isso, a Salvação é um mistério profundo de solidariedade do Filho de Deus connosco, seus irmãos: "Ele nao veio ocupar-se com anjos mas sim com a descendência de Abraão [connosco!]. E tornou-se, por isso, em tudo semelhante aos irmãos para ser, diante de Deus, um Sumo-Sacerdote [Mediador] Misericordioso e Fiel e, assim, purificar os pecados do seu povo. Pois, tendo ele mesmo passado por esta prova, é capaz de socorrer os que são provados!" (Heb 2, 16-18) "Assim é o Sumo-Sacerdote [Mediador] que nos convinha" (Heb 7, 26)

Enquanto explica estas coisas, o autor da Carta faz lá um parêntesis a meio, nitidamente arreliado com a “lentidão” daqueles para quem escreve… “Muitas coisas teríamos a dizer sobre isso, e a sua explicação é difícil porque vos tornastes lentos à compreensão! Pois deveríeis, com o tempo, ter-vos tornado mestres, mas necessitais que novamente vos ensinem os primeiros rudimentos da revelação de Deus. Precisais de leite e não de alimento sólido!” (Heb 5, 11-12)

Depois, diz-lhes que é altura de deixar de lado o “ensinamento elementar sobre Cristo” que consiste nestes “ensinamentos fundamentais:
arrependimento das obras mortas (conversão dos ídolos) e Fé em Deus;
doutrina sobre o Baptismo e imposição das mãos (ministérios na comunidade);
ressurreição dos mortos e juízo eterno (projecto salvador de Deus)”.
(Heb 6, 1-3)

É nestes três pontos que estão, segundo o autor desta Carta, os alicerces da experiência madura de Fé. Esta é a base… Conversao-Fé, Baptismo-Ministérios, Ressurreição-Salvação.

E agora gostava de partilhar contigo o que ele diz logo a seguir… Falando do perigo de desperdiçar tudo isto, ele fala do privilégio “dos que foram iluminados”. Quem são estes ILUMINADOS?


Não são pessoas “especiais” dentro da Comunidade, mas os próprios membros da Comunidade! Os Iluminados são os Baptizados, todos! Na Igreja primitiva chamou-se durante muito tempo ao Baptismo "sacramento da Iluminação" pelo seu significado de “passar das trevas à luz”, “da morte à vida” ou “das obras da noite para as obras do dia”. Por outro lado, era também a inserção plena na comunhão dos discípulos de Jesus, aqueles que nasceram na manhã de Páscoa pela experiência do Re-Suscitado que nos evangelhos se diz assim: “Nós Vimos!”

“Ver”, nos evangelhos, é um verbo que traz consigo o eco da experiência pascal, assim como as curas de cegos são sempre catequeses baptismais muito ricas.

Mas, afinal, quais são, segundo o autor da Carta, os privilégios dos Iluminados?

“Estes saborearam o Dom de Deus,
receberam o Espírito Santo,
experimentaram a Beleza da Palavra de Deus
e a Força do mundo que há-de vir!”
(Heb 6, 4-5)

Os Baptizados, depois de terem aderido ao anúncio Pascal e terem feito um caminho catecumenal de mergulho da própria vida no Mistério do Filho Re-Suscitado, eram admitidos à plena pertença comunitária com aqueles que procuravam crescer na fidelidade a estes privilégios…

Todos eles são DOM, não conquista ou mérito pessoal… São Dom de Deus para todos! Mas implicam mediações, descoberta, contextos, colaboração, desejo, encantamento…

Nos próximos dias, gostava de aparecer por aqui para saborearmos juntos estes quatro privilégios dos Iluminados, os Baptizados no Mistério de Cristo, os Mergulhados no banho Recriador do Espírito que se abriu como uma Fonte Inesgotável de Vida na Hora da sua Ressurreição…

Não consigo imaginar melhor maneira de fazermos juntos a PASSAGEM de Ano.

Até já! SHALOM

29 Dezembro 2008

o Segredo


O que ele queria era que em todo o lado houvesse quem tocasse músicas que acompanhassem a dança dos contentes ou lamentações que consolassem os que choravam… Por isso decidiu fazer flautas de Alegria e Consolação para todo o povo. No sonho de um Mundo Novo, cada um tem que fazer com seriedade aquilo que descobre que é o seu papel, ainda que pareça pequeno ou pouco importante… o dele era fazer flautas.

Escolhia para isso as melhores canas. Percorria distâncias incríveis à procura delas… e depois trazia-as consigo, para junto da sua oficina, onde as colocava “de molho” na represa que ele tinha feito na margem de um pequeno ribeiro que passava por ali. Tudo ia bem até que…

…até que percebeu que havia entre o seu povo quem não gostasse de músicas para dançar nem melodias de consolação…

Apareciam a meio da noite, sem ele dar conta, e partiam as suas canas. Primeiro uma ou outra como aviso. Mas, como ele não parou de talhar as suas flautas, passado pouco tempo já as manhãs acordavam com as canas todas partidas em dois. É que as melhores, ainda por cima, eram também as mais frágeis…

Ou desistia ou… descobria uma maneira de vencer!

Não demorou muito. Percebeu que podia deixar as canas de molho todas juntas, atadas bem juntas num molho só, e não dispersas, cada uma confiada a si mesmo. E assim fez!

Começou a atá-las num molho só, forte, coeso, bem unido… e de manhã, ele saía de casa e corria até à represa. Lá estava o seu molho de canas, noutgro lado da represa em que ele não as tinha deixado, mas nem uma partida! Uma vez em que chegou lá, ainda conseguiu ver três rapazões do seu povo que tentavam com todas as forças quebrá-las. Um após outro, lançavam-lhes as mãos e faziam toda a força, mas com elas unidas num molho, não as conseguiam quebrar…

E aumentaram as hinos de Alegria e as melodias de Consolação
quando o criador das flautas mágicas descobriu o Segredo…




SHALOM

26 Dezembro 2008

Como as cores que uma criança atira quando pega, ao calhas, num pincel qualquer. É assim que me apetece ver saírem as palavras… e atirar-tas todas à espera que as componhas da melhor maneira, à tua maneira, desde que no fim dê uma forma qualquer de te dizer que te amo e preferia já morrer a ter que viver sem te conhecer.

Quanto mais te tornas próximo, presente, companheiro mesmo, mais te sinto meu Senhor e meu Dono e meu Mestre e meu Salvador! Porque o Amor, quando é verdadeiro, é ao mesmo tempo grandioso e humilde… ou grandiosamente pequeno, porque me amas ao meu tamanho! Porque me amas de maneira a que possa acolher e amar-te também. E até me dê à ousadia de te atirar palavras assim para que faças com elas o que quiseres…

E quero conhecer-te melhor, acima de tudo. Muito melhor… olhar-te como quem te sorve com o olhar, viver pendurado dos teus lábios como quem respira do hálito de outro e refazer-me sempre sentado aos teus pés, como discípulo.

Conhecer-te… conhecer-te… Não há outra maneira de conhecer-te senão dar-me a ti! Não há outra maneira de conhecer alguém senão assim… Dou-me a ti e vejo o que fazes comigo. O que fizeres comigo é que me revela quem és! Se amar quem és, se gostar de ti, vou querer dar-me mais… e experimento o que fazes de novo comigo, mais… se gosto, dou-me mais… e experimento… e experimento um desejo enorme de me perder em ti e nunca mais ser encontrado! Viver perdido em ti, envolvido, dando-me, recebendo-te maravilhado e recebendo-me agradecido…

Não há outra maneira de conhecer alguém…

Amo-te.

Que toscas são as palavras… Amo-te. Por isso é que o amor, quando é verdadeiro e está vivo, não deixa de inventar outras maneiras de dizer-se, porque as palavras esgotam-se num instante… E às vezes apetece só amar quem amamos, pronto, sem pensar em mais nada! Nem sequer em fazer isto ou aquilo, tirar esta ou aquela consequência, ser assim ou assado… mas gozar apenas o privilégio de poder sentir-te tão vivo e tão próximo que parece que isso basta para que o mundo se torne num instante em Reino de Deus! E não, não torna, eu sei… Mas também sei que não é o rosário das minhas preocupações que vai fazer milagres, nem o caderninho das minhas boas intenções. Acredito mais no poder da minha capacidade de me fascinar do que na eficácia dos meus bons propósitos!

Acredito profundamente que o gosto e a proclamação do Mistério de Vida que Deus fez explodir na tua Ressurreição são capazes de transformações mais poderosas que a doutrinação das nossas certezas e o rigor das nossas morais…

O essencial da vida é da ordem do fascínio, não do dever!

Mas parece que isto anda longe por estes lados… a capacidade de se espantar contigo, de fascinar-se pela Boa Notícia da tua passagem entre nós e da tua Passagem para o Pai… parece que desapareceu o gozo de fazer perguntas… todos se consolam com respostas. Que pobreza…
A tua passagem, Mestre, provocava perguntas… “Quem é este?! De onde lhe vem isto?!” Os teus primeiros também as provocavam nos que se encontravam com eles, como a Paulo ou aos que os escutavam em Jerusalém: “Quem és tu?! Quem és tu, por trás desta gente?! Irmãos, o que devemos fazer?!”

Hoje, pobres de nós, não só nos consolamos todos com respostas, como achamos que nos basta ensiná-las… Como Igreja, temos um zelo enorme em defender e ensinar as nossas respostas - ainda que já esvaziadas pelo correr do tempo e pelo sopro do Espírito que levou a história para outras bandas - mas deixámos de provocar perguntas! Mais: parece que temos medo delas…

Oh, Mestre…

Amo-te.

Outra vez a pequenez das palavras… parecem gastas, pôssa! Olha, já chegam. Amo-te muito. Pegas nestas palavras todas e dá-lhes a volta que quiseres, se quiseres. Para mim dá o mesmo, desde que no fim dêem um “amo-te” qualquer mas dito de outras maneiras que só tu entendas.

És o melhor que aconteceu na minha vida.

25 Dezembro 2008

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No Princípio... à volta da fogueira...


Sonhei que, de repente, com uma magia que vinha de muito para além de mim mesmo, tudo ganhou corpo e voz e cor de pele! Sonhei isso mesmo, que o mundo da minha Fé se tinha tornado apenas uma casa cheia de gente!

E lá estavam, em sofás diante da lareira, o Deus Criador de todo o Universo e Senhor de Israel, a própria Criação e também Israel estavam lá, cada um com corpo e voz de gente, cada um em seu sofá. Estavam lá a Fidelidade de Deus e a Esperança dos Homens, como duas irmãs gémeas com sardas na cara e tranças no cabelo. Estava lá a Humanidade… Estava lá também a Palavra, na sua típica postura silenciosa e discreta… mas com uns olhos vivíssimos, atenta a tudo…

E havia lugar para mais… percebi que o serão estava apenas no princípio…
Deus, em forma de gente com corpo e com voz, foi quem ouvi primeiro!

- “FAÇA-SE!!!”
Foi o que ou ouvi dizer… E a Criação respondeu-lhe entusiasmada:

- “Eis-me aqui! Sou a tua pérola, o teu tesouro, a beleza e a ternura do Teu Coração que se faz céu, mares, rios, pássaros, árvores, flores, dia, noite, orvalho, neve e luz… Sou da forma das tuas mãos e guardo no meu ventre o eco da Tua Palavra…”

Deus Criador estava vaidoso, e a Palavra também sorriu. Deus continuou:
- “Quero que guardes no teu ventre ainda mais que o eco da minha Palavra… És bonita, Criação, saída de mim com o amor e a ternura que se colocam naquilo que fazemos com maior cuidado… És bonita, e eu quero desposar-te… Quero fecundar-te com uma Semente de Vida que faça nascer no teu ventre Vida à minha imagem e semelhança, capaz de amor, ternura, compaixão, sonho, espanto e esperança…”

Ao ouvir isto, a Esperança mexeu-se na sua cadeira dizendo:
- “Falou em mim! Falou em mim!”

Mas a sua irmã gémea, a Fidelidade, mandou-a calar e estar quieta porque “a coisa” ainda não tinha acabado...

A Criação ficou admirada com aquela proposta… e disse ao Criador:
- “Mas, como será isso?!”
E o Criador respondeu:
- “Vê quem chega!”

Chegou, assim como os outros, em forma de gente, com corpo e voz e tudo, o Espírito Santo… Sentou-se no mesmo sofá que a Palavra, apertaditos, e Deus continuou:
- “A minha Palavra conduzirá o meu Espírito até ti, ela que te conhece desde o princípio, que moldou cada recanto teu… o Espírito te fecundará e começarás a gerar em ti um…”

Fez-se silêncio… Deus parecia andar à procura das palavras certas para dizer qualquer coisa muito importante…
- “um… … … o Espírito te fecundará e tu começarás a gerar em ti um… … … gerar para mim um… um FILHO! É isso, um Filho!”

Um Filho?!?!?! Todos estavam à espera que Deus explicasse, enquanto a Palavra e o Espírito se riam como cúmplices desta história…
- “Vais gerar um Filho para mim, fecundo-te com o meu amor para isso. É esse o meu projecto a teu respeito, Criação!”
- “Quando será isso, meu Artesão? Quando?”
E Deus disse…
- “Vamos com calma… com muita calma… Vamos fazer as coisas, todas as coisas, com o ritmo do amor e da ternura… Primeiro gerarás em ti Vida à minha imagem e semelhança, de maneira a poderem reconhecer que os amo, que cuido deles, que nasceram todos do meu carinho por eles e da minha atenção… e para que possam construir isso entre eles também…”

Todos escutavam com os ouvidos empinados… e alguns perguntavam: “E depois, e depois?!”

Deus continuou:
- “Depois, eu tomarei conta deles, como sempre, e arranjarei as condições para começar a conversar com alguns de maneira especial… A minha Palavra há-de descobri-los… o meu Espírito há-de faze-los experimentar o que nunca poderiam conquistar sozinhos… e, então, hão-de reconhecer que eu estou com eles, que a história deles me diz respeito, que os seus dias são os meus dias, que vivem à minha boca respirando do permanente beijo criador que lhes dou… Reconhecerão que a minha Palavra se faz Caminho e o meu Espírito se faz Liberdade no mais concreto e íntimo do que viverem… Vou chamar-lhes: MEU POVO!”

Israel, até aí muito distante, saltou do sofá:
- “Presente!”

Gritou este “Presente” como se estivesse na escola! Todos se riram, mas Israel continuou:
- “O teu POVO sou eu! A tua Palavra não é vento que passa, mas revelação do teu rosto! O teu Espírito não é uma brisa que se perde, mas um movimento ao qual procuro dar as costas para que me conduza e oriente… o teu povo sou eu!”

Deus disse que sim com a cabeça e acrescentou:
- “Meu Povo, Israel, quando perceberes que me pertences, que a minha Palavra e o meu Espírito se fazem História no meio de ti, passará a habitar contigo sempre a minha Fidelidade!”

E a Fidelidade saltou de um pulo e abraçou-se a Israel no seu sofá. A Esperança dos Homens, sua irmã gémea, arregalou os olhos daquela cara sardenta e gritou:
- “Hei!!! Onde é que pensas que vais sozinha?!”
E saltou também, abraçando Israel do mesmo modo…

Deus riu-se e consentiu:
- “Sim, sim! É assim que eu quero… Que a minha Fidelidade te abrace sempre, e não deixes para trás a Esperança…”

De repente, parou tudo…
Deus propôs um brinde e todos levantaram os copinhos de licor que estavam numa mesinha, no centro, à frente da lareira. E Deus disse:
- “À Vida!”

E todos responderam: “À Vida, essa Vida à tua imagem e semelhança!”
Beberam o primeiro gole…

- “Mais um!”, disse Deus, “Brindemos à Vida e a Israel!”
E todos disseram o mesmo antes de beber o resto.

A Humanidade, que também estava lá sentada à espera, assim com corpo e voz de gente, interrompeu os mais atrasados a beber:
- “Oh Deus, é Israel o teu Filho? Aquele que sonhas desde o princípio?...”

E Deus disse:
- “Ainda não… Ainda não… O ventre da Criação, a marcha da História, continua a gerar para mim o meu Filho… Ainda não chegou o fim do tempo desta gestação… o Amor é Paciente! E o que é importante prepara-se bem…”

Deus voltou-se para a Palavra e o Espírito e pediu-lhes que continuassem porque estava com os pés frios e queria chegar-se mais à fogueira…

A Palavra obedeceu:
- “Eu estarei sempre dentro da história de Israel, o Povo de Deus, para que se entenda a si mesmo como Eleito e Par de uma Aliança que o próprio Deus quis sonhar com ele… Nós arranjaremos uma tenda e caminharemos com Israel por onde andar, ainda que se meta por desertos, ainda que tenha que atravessar mares ou terrenos dominados por povos violentos…”

Depois o Espírito continuou:
- “Sim! Israel fará experiências de carinho e libertação tão especiais, que perceberá que Deus tem ainda muito mais para dar… Chegará a altura em que começará a entender que um cuidado assim não é típico da relação das divindades com os homens… é mais coisa de Pai e Filho…”

Deus voltou-se para trás:
- “Pois! Isso! Mas, ao mesmo tempo, darão conta tantas vezes que são rebeldes e desobedientes… que não acreditam em mim… que fazem troça do que lhes proponho…”

Israel, no seu sofá, corou tanto que parecia que estava a arder de calor… e Deus seguiu:
- “Por isso… apesar de começarem a intuir que eu amo como um Pai, vão duvidar de si mesmos como filhos… e a Esperança, então, vai ter um papel muito importante… Conta, Esperança!”

A Esperança, pondo-se de pé muito lampeira no centro da sala, disse como se fizesse um discurso já preparado:
- “Eu ensinarei sorrateiramente ao Povo de Deus que, no meio de si, Deus está a suscitar um Filho… um Filho de verdade, muito Fiel, Obediente, que se torne o Encanto do Pai que é Deus! Deus mesmo é quem o sonha… desde o princípio, Deus mesmo é quem o sonha… e Deus mesmo no-lo dará…”

- “Como?!” , perguntou Israel, “Vai cair do Céu? Trazido por uma estrela? Virá do fundo do mar?!”

Todos tentavam esconder o riso pelas perguntas ingénuas de Israel…
Deus, bem-disposto, disse:
- “Não Israel… No meio de ti… Do meio de ti… Um dos teus… A Palavra e o Espírito o irão suscitando, geração após geração… Até que tudo esteja preparado… Antes dele aparecerão outros, preparados pela Palavra e inspirados pelo Espírito, que eu suscitarei também entre ti para darem testemunho dele, para que não esqueças que a tua missão é seres o regaço da Criação que eu fecundei para que me gerasse um Filho… Tu, Israel, serás o regaço maternal do meu Filho…”

A Humanidade, no sofá da ponta, parecia nem estar lá… desencantada com aquilo tudo, sentia-se fora do sonho, do projecto, da conversa… ali estava, remoendo quem raio seria o tal Filho…

E brindaram todos outra vez a esta missão de Israel, de ser o regaço do Filho que Deus queria…

A meio do brinde, novamente, a Humanidade falou dirigindo-se a Deus:
- “Olha lá! Já que não dizes quem é o Filho, ao menos diz lá como é que ele é?!”

Todos se calaram meios atrapalhados… E Deus saiu-se desta assim: voltou-se para todos e perguntou:
- “Que vos parece?!”

Começaram a chover respostas…
“Tem que sair ao Pai!” E riam-se… “Tem que ser Verdadeiro, perceber de Ternura, ter olhos postos no Futuro e Coração fortalecido na Esperança… tem que saber rir-se e gostar de brincar, para que as crianças queiram sentar-se no seu colo… tem que ser apaixonado pelo projecto do Pai dele, apaixonado pelo projecto inteiro desde o primeiro momento que é Vida à Imagem e semelhança de Deus… Tem que ser muito importante para ele a dignidade e a liberdade das pessoas, porque são imagem de Deus… tem que ser simples… tem que ser muito dócil àquilo que o Espírito quiser fazer nele e muito autêntico ao transmitir o que a Palavra lhe disser…”

Disseram muitas coisas mais!

Deus levantou os braços, feliz, e acrescentou:
- “Quando chegar a Plenitude do Tempo, começarão as dores de parto da minha Criação e começará a nascer o meu Filho… mas aquele que suscito em Israel, meu predilecto, o meu Filho Primogénito, será o princípio apenas… Será como que a Cabeça de um Corpo… o Corpo de um Filho… Suscito em Israel a Cabeça deste Corpo, o Princípio do nascimento deste Filho que sonho e quero e do qual não abdico…”

Voltou-se para a Humanidade e falou forte:
- “Humanidade, és tu este Filho! Tu! Suscito em Israel o Princípio de uma Nova Humanidade… Vou recriar-te… Suscito em Israel, pela Palavra e pelo Espírito, uma Cabeça Nova para o teu Corpo, porque é pela Cabeça que todo o Corpo começa a nascer… um Filho gerado por mim como Cabeça te conduzirá à condição filial de todos os teus membros… Pela sua obediência, pela sua escuta, pela sua verdade e pela sua coragem, a Palavra e o Espírito, através dele e de Israel, poderão penetrar nesse teu Corpo com um jeito que ainda não tinham podido antes… Ele é a Porta, o Caminho, para eu mesmo me encontrar contigo como um Pai e tu te encontrares comigo como um Filho bem-amado! O meu Projecto és tu, Humanidade, renascida, encabeçada por um Filho gerado por mim para que todo o teu Corpo seja por mim também recriado e transfigurado em cada um dos seus membros…”

A Humanidade não conseguia sequer dizer nada! Boquiaberta, esperava…
E o Espírito foi quem continuou:
- “Nascerá no meio de ti, num dia igual a todos e de maneira igual a todos, um menino… e nem imaginarás que um dos teus membros é o preparado desde sempre e gerado no coração de Deus como um Pai sonha um Filho… Ele nascerá em ti, um menino, que vai mudar a sorte de todos os meninos que já nasceram ou nascerão em ti. Porque eu e a Palavra nos encarregaremos de o fazer entender e acolher sempre o Mistério de Amor e Vida que lhe dá origem… Ele entender-nos-á… e Tornar-se-á no meio de ti porta-voz de uma Notícia tão Boa que muitos não acharão possível… Eu, dentro dele, vou estar continuamente a gerá-lo como Filho de Deus e nada nem ninguém poderá deter isto senão ele mesmo! Ainda que o matem… é como partir um frasco de perfume! Parti-lo para fazer desaparecer o seu odor não adianta… Ainda que partam o frasco, só farão que o odor se espalhe e toque toda a terra… da pior maneira, é certo, mas garanto-te que nada nem ninguém, além dele mesmo, pode pôr em causa o projecto amoroso de Deus que eu e a Palavra fazemos acontecer no seu íntimo… e, depois dele, Humanidade… serás tu a nossa morada, para sempre!”

Já ninguém sabia muito bem o que dizer…

Ouvia-se a chuva a cair do lado de fora de casa sobre as folhas que cobriam a entrada… e a Palavra, que não gostava muito de “aparecer”, teve uma ideia.
- “Chamem o Poeta!”, disse ela, “Mandem chamar o Poeta para cantar tudo isto!”

E, passado pouco tempo, já lá estava. Contaram-lhe tudo, puseram-no ao corrente, apresentaram-lhe toda a gente, e ele começou assim…

No princípio já existia a Palavra,
e a Palavra estava em Deus
e a Palavra era Deus.
No princípio Ela estava em Deus.


Por essa palavra é que tudo começou a existir e sem ela nada veio à existência.
Nela é que estava a Vida de tudo o que veio a existir.
E a Vida era a Luz dos homens.


A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam.
Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele.
Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.

A Palavra é que era a Luz verdadeira,que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina.
Ela estava no mundo
e por Ela o mundo veio à existência,
mas o mundo não a reconheceu.

Veio para o que era seu, e os seus não a receberam.

Mas, a quantos a receberam,
aos que nela acreditam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.

Estes não nasceram de laços de sangue,
nem de um impulso da carne,
nem da vontade de um homem,
mas sim de Deus.


E a Palavra fez-se carne e armou a sua tenda entre nós.
E nós contemplámos a sua glória,
a glória que possui como Filho Unigénito do Pai,
cheio de graça e de verdade.
João deu testemunho dele ao clamar:
«Este era aquele de quem eu disse:
'O que vem depois de mim passou-me à frente, porque existia antes de mim.'»


Sim, todos nós participamos da sua plenitude, recebendo graças sobre graças.
É que a Lei foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram-nos por Jesus Cristo.

A Deus jamais alguém o viu.
O Filho Único, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer.
Jo 1, 1-18

24 Dezembro 2008

Tenho uma Boa Notícia para anunciar!

Jesus Re-Suscitou!

Ele passou entre nós fazendo o bem, curando e libertando todos os que eram oprimidos pelo mal… Ainda assim, mataram-no, porque não reconheceram nele o dedo de Deus…

Mas Deus mesmo lhe deu crédito! Não esteve nem um segundo sequer sob o poder da morte porque Deus o Re-Suscitou para nós! Encheu-o de Vida pelo Espírito Santo que lhe deu, como num beijo recriador, e esse Espírito foi derramado, através dele, para todos nós, seus irmãos, membros do seu Corpo…

Este Jesus Re-Suscitado é o Senhor da História, o princípio de uma Nova Criação, a Cabeça de uma Nova Humanidade por causa do Espírito que nele venceu a morte e por ele se derramou para todos…

Este Jesus Re-Suscitado é um dos nossos… é da nossa raça… por isso estamos Salvos. É nele que acontece a nossa Salvação, na comunhão com ele…

Este Jesus Re-Suscitado é dos nossos… é da nossa raça… Por isso, um dia nasceu entre nós, como um menino… que, sendo nosso, era todo de Deus também, preparado e gerado por ele…

Um dia nasceu este Menino, tão habitado de Deus, que mudou a sorte de todos os meninos da história inteira… porque a Vida para a qual ele nasceu, tornou-se Vida para todos na sua Ressurreição…

Esta é a Boa Notícia! Re-Suscitou Jesus, aquele menino nascido entre nós… e nele também nós Re-Suscitamos…

No seu nascimento, começa a nascer uma Nova Humanidade…

ALELU' YA! Louvai o Senhor!

22 Dezembro 2008

Por causa do Ti Manel...

Depois de anunciarem a Ressurreição de Jesus como a Boa Notícia de que Deus tinha tomado partido por ele e tinha penetrado o mistério mais profundo da sua morte para exaltar a sua vida e confirmar a sua missão, os primeiros Apóstolos começaram logo a perceber uma coisa muito bonita: "Uma Boa Notícia nunca vem só!"

O aprofundamento desta Boa Notícia fazia experimentar muitas outras... Era(m) esta(s) Notícia(s) que congregava(m) pessoas em Comunidade e animava(m) uma Caminhada de tipo Catecumenal, ou seja, progressiva compreensão e pertença ao mistério da Vida que se manifestara em Jesus.

Foi no seio de comunidades assim, reunidas à volta da Presença de Jesus Re-Suscitado pelo Pai, que surgiram os Evangelhos. Não são uma "apresentação" de Jesus nem uma "proposta de adesão" à Fé de ninguém... São textos de Fé que acontecem já em contextos de Caminhada Catecumenal. Por isso, utilizam linguagens que só com essa Caminhada e experiência de Fé se tornam claros... Além disso, têm umas quantas marcas culturais e bíblicas que, sem sermos introduzidos nelas, não deciframos.

A verdade é que, andando por aí, uma das coisas de que mais me dou conta é que toda a gente gostava de perceber melhor os textos dos Evangelhos... Todos temos muitas perguntas! E, quem não as tem, normalmente, é porque as substituiu por "certezas" ditas de maneira mais ou menos convicta...

Por isso, fizemos aqui na Comunidade onde vivo, um encontro sobre estas coisas... Preparei um caderninho para que toda a gente pudesse continuar a aprofundar em casa, e pareceu-me importante, por ser o tema que é, preparar também um blog com esses temas bem arrumadinhos. Espero que possa ser útil quer para reflexão pessoal, quer para catequistas e outros evangelizadores ou grupos que procuram fazer caminhos de Fé.

Foi na sexta-feira passada... Mal comecei o encontro, fui "interrompido" (parecia aqueles programas da manhã, eheheh) por uma figura de boina na cabeça, galochas até ao joelho, óculos de massa grosíssimos e uma bíblia enorme debaixo do braço! Era o meu irmão Gustavo, do blog "
Vida Teologal", que de repente se tinha transformado em Ti Manel para levantar algumas perguntas que, no fundo, são as de quase toda a gente... Foi com umas risadas bem dadas que começámos depois, tentando ajudar o Ti Manel em tantas dúvidas que ele levantou! Já agora... o "moço" de quem ele fala, sou eu...

Senhoras e Senhores, eis o Ti Manel e as suas perguntas... carreguem no "play"



E o blog fica AQUI... com o nome Jesus nos Evangelhos...


SHALOM

19 Dezembro 2008

“O Reino de Deus é como um GRÃO de mostarda, o mais pequeno de todos, que um homem ENTERRA na terra… ele cresce, torna-se árvore, e as aves do céu podem abrigar-se nela…

O Reino de Deus é como um pedaço de FERMENTO que uma mulher ESCONDE no meio da massa… e ali fica a fermentá-la toda…” Lc 12, 18-21

Senhor Re-Suscitado, Jesus Nazareno, Mestre,
dá-me olhos de discípulo para ser capaz de ver “para além”
das minhas próprias certezas e evidências…

Para des-cortinar a realidade,
abri-la como quem se abeira de uma janela que dá para o lado de dentro da Vida
e perceber que o Reino de Deus está a acontecer.

Esse Reino que não começa por ser uma tarefa que Deus nos dá,
não começa por ser uma realidade que Deus nos propõe “construir”…
Porque não é tarefa nossa!

É Ele mesmo que age, que toma a iniciativa, que leva adiante…

Está aí…

Tu falas do Reino não como quem chega a uma casa que está a ser edificada e se junta na construção, mas como quem encontra uma pérola de grande valor sem estar à espera… Como quem anda a cavar num campo e descobre lá enterrado um tesouro que não sabia que estava ali… Tu falas-nos do Reino de Deus como uma OPORTUNIDADE que não podemos desperdiçar. Um Dom, um Presente de Deus… Não uma “construção” que está à nossa espera, mas uma realidade que está a acontecer e devemos apanhar…

Como tu quando passavas…
Passavas e seguias…
Era preciso apanhar-te, não perder a oportunidade,
como aquele cego sentido à beira do caminho que se pôs a gritar até que te fez parar,
como Zaqueu que se empoleirou até que o visses,
como aquela mulher doente há tantos anos
que furou a multidão para te apanhar a ponta do manto…

Apanhar-te e Acompanhar-te…

O Reino de Deus está aí,
é o Agir de Deus no meio de nós,
é a tua permanente Passagem no meio de nós, que devemos apanhar e acompanhar…
É um Dom.
O essencial do anúncio do Reino de Deus consiste no Dom,
na Iniciativa, na Gratuidade do Compromisso de Deus connosco que nos espanta.

Está aí…
…como pequeno grão enterrado… a crescer….
…como pedaço de fermento escondido… a fermentar…

Mas está!

17 Dezembro 2008

Sei que há coisas que se compreendem antes de se tornarem Boa Notícia dentro de nós. São aquelas mesmas que só depois de se tornarem Boa Notícia dentro de nós percebemos que não tínhamos compreendido de verdade. Por isso não deixarei de repetir o mesmo... Porque não me convenço quando me dizes que já percebeste! Não me convenço enquanto for tão evidente que o facto de teres percebido não é para ti senão mais uma aquisição no compêncio dos teus saberes. Não admito que já seja hora de nos calarmos enquanto o que tu dizes teres percebido não mudar rigorosamente nada na tua maneira de fazer as coisas e esperar a sorte dos dias. Porque as boas doutrinas padecem exactamente do mesmo mal das más doutrinas: são doutrinas! Queremos Vida! Queremos Sangue a chegar-nos ao Coração e a mudar-lhe os ritmos! Queremos uma Boa Notícia... e essas não são daquelas que te dizem simplesmente que vais poder realizar tudo o que gostarias de realizar... Essas são ainda maiores! Uma Boa Notícia, de verdade, é daquelas que te vai fazer sonhar o que nunca te passara antes pela cabeça que estivesse ao teu alcance! Uma Boa Notícia não cabe em ti... Não és capaz de a encaixar tão vulgarmente nas estantes da tua mente e dos teus conceitos. Abre brechas, gera liberdade, atira-te ao chão e, quando te levanta, percebes que ganhaste asas que antes não tinhas! Chegou a altura de voar...

16 Dezembro 2008

"Fomos curados nas suas feridas..."

.


Nas feridas dos injustiçados tornam-se manifestas as feridas profundas daqueles que os violentam! Nas chagas de um crucificado fica visível a doença profunda daqueles que o crucificam! TODOS precisam de ser tratados, cuidados, curados, SALVOS!!! E Deus sabe isso… A Salvação é para todos porque Deus sabe isso...

.

15 Dezembro 2008

O teu comentário dava um post

Talvez alguns já nem se lembrem que tínhamos começado isto por aqui há uns tempos... O teu comentário dava um post... São tantos! Mas eu tenho-os guardados... Irão aparecendo por cá... Grande Abraço! Obrigado, Figlo, por este e por taaaantos... MUITO OBRIGADO!


Comentário dos FIGLO no post "VI.Espírito Santo [n.2]"

SHALOM

13 Dezembro 2008


Andámos há uns tempos a fazer uma leitura dos evangelhos procurando o rosto de Jesus como Mestre, Líder, Pedagogo... A melhor maneira de "arquivar" estas coisas é colocá-las direitinhas, ordenadas. Por isso, quando quiserem consultar, estão na nova sala aqui do blog... Podem encontrá-la ali um pouco abaixo, à direita, e chama-se Moreh Yeshuah. O que significa? Vão lá ver...

Um grande Abraço!
SHALOM

12 Dezembro 2008

BOM DIA!

Nós temos todos um bocadinho a mania da perseguição… Achamos vezes demais que “estão a falar de nós” ou “isto é para mim”…

Andando por aí, dou-me conta que este nosso “síndrome” entrou sorrateiramente para a nossa maneira de lermos os textos dos evangelhos. Andamos sempre à cata do que “o texto está a dizer sobre nós” ou “nos está a dizer”… Esta mania da perseguição que quase todos temos, de maneiras e em doses diferentes, torna-se, no contacto com os evangelhos, moralismo.

O problema é que estamos pouco treinados a escutar… e os surdos são sempre muito desconfiados!

Depois, acontece que muitas vezes nos passa completamente ao lado a Boa Notícia que Deus nos está a transmitir em Jesus, porque andamos à procura do “ralhete” que ele nos dá desta vez. Isto é ainda mais evidente nas parábolas que Jesus conta… São Notícias do Reino de Deus, anúncio do admirável mundo novo que emerge do Coração de Deus para todos os seres humanos, e nós conseguimos convertê-las em primárias histórias didácticas e morais… “Temos que ser bons, temos que perdoar”… “Deus diz-nos que nós devemos… que quer que nós… Deus manda-nos isto e aquilo…”

A Boa Notícia é fundamentalmente a de um Deus que VEM, se faz próximo, para CUIDAR, para curar, para acolher, para fazer acontecer o perdão, para pôr de pé, não para ralhar! Não vem para mandar nem para castigar.

A Boa Notícia é o nascimento de um Filho do Homem e Filho de Deus que se deixa mover pela abundância inesgotável do Espírito Santo.


A Boa Notícia é a intervenção de Deus no íntimo do mistério da morte deste Jesus que viveu e morreu pelo Reino de Deus, Re-Suscitando-o com o vigor do Espírito e tornando-o Senhor da História, Princípio de uma Nova Humanidade.

A Boa Notícia é que o Senhor da História é nosso Irmão, e por isso o Dom do Espírito que Deus Pai derramou nele ao re-suscitá-lo derramou-se dele para a multidão dos seus irmãos que formam com ele um só Corpo Filial!

A Boa Notícia é que Deus mesmo nos talhou para sermos da Sua Família e colocou em nós esta fome de impossível que se chama Salvação, como quem nos puxa pelo apetite enquanto nos prepara o Banquete.

A Boa Notícia é que isto tudo é verdadeiro e é de Graça! É fruto da Bondade de Deus, da Sua Graça e Misericórdia… do Seu Amor por nós, imerecido e incondicional… não é conquista das nossas virtudes!

A Boa Notícia é que Deus está desde antes da Criação do Mundo a pôr a Mesa e a dispor as travessas de maneira a que nem um só fique sem provar da abundância da Sua Casa.


Quando nos pomos a ler os evangelhos, a meditá-los, há uma pergunta que devíamos ter sempre presente, para não nos deixarmos tentar pela nossa mania da perseguição e cairmos no moralismo que nem nos converte nem nos alegra: Qual é a Boa Notícia que Deus me comunica hoje por meio DESTE Jesus? O que é que Deus me diz de Si mesmo? O que é que Jesus me diz de Deus?

E, depois, deixar-se espantar… Simplesmente, ter este gosto de se deixar espantar, surpreender e admirar…

O resto vem depois, a sério! É acção do Espírito Santo em nós, o Espírito que faz acontecer dentro de ti essa Palavra dessa maneira, como Boa Notícia…


SHALOM

11 Dezembro 2008






...sinceramente, o que é que hoje gostavas que te dissessem?





10 Dezembro 2008


Foram eles que me encontraram a mim. Eu seguia o caminho de sempre, e ouvi atrás de mim algazarra de festa. Quando olhei para trás já não tive tempo para mais do que para me encolher com o susto de os ver chegar. Contentes e vivos, era isto que mostravam na maneira como se davam as mãos uns aos outros e me rodearam dançando. Voltados para mim numa roda cheia de alegria, iam girando, girando, girando… contagiaram-me e perguntei-lhes de onde vinham. Nem me ouviram.

Esqueci-me do que tinha para fazer e do lugar para onde ia. O mesmo de sempre, de repente, deixou de ser obrigatório… Sempre tinha feito aquele caminho por entre o prado, mas nunca os meus pés tinham pisado a erva. Nesse dia, não só corri na erva do prado que terminava no rio, como ainda o fiz descalço! Senti que sempre lhes tinha pertencido… sempre. Eu era aquele que estava ali, descalço, feliz, sereno, livre… Sentámo-nos calados. Ouvia-se o rio, o barulho dos nossos pés a dançar na água e o respirar ofegante de alguns.

Quando o silêncio começou a pesar-me, falei: “O que fazemos aqui? Estamos à espera de quê?”

Disseram-me que estávamos todos à espera de Boas Notícias… Chamavam àquele rio o Rio das Boas Notícias, porque quando dois ou mais se sentavam assim com os pés na água viam sempre chegar no leito do rio, pousadas como folhas de Outono, Boas Notícias…

Eram mesmo como folhas pequenas, sim… e pareciam papel… pequenos pedaços de papel que vinham ao sabor da corrente parar-nos aos pés, como se fossem destinados exactamente para nós.

De repente, eles desapareceram, como tinham aparecido… Mas não me sentia só, não sei porquê. Sentia que estava a começar qualquer coisa, que há experiências que não nos deixam ficar iguais, que há momentos que não são apenas intervalos inesperados entre aquilo que fizemos e o que temos para fazer mas novos nascimentos… Tinha na ponta dos dedos uma Boa Notícia que me estava a fazer sentir tudo isto, numa pequena folha, como um pedacinho de papel… Tinha o ar mais débil deste mundo e seria quase ingenuidade dizer que mudara tudo daí para a frente, mas era verdade…

Corri à cidade mais próxima com a Boa Notícia na ponta dos dedos e reparei que quase todas as pessoas viviam em casas feitas com pedras unidas e revestidas a cimento. Não se encontrava uma nesga de jeito para fazer passar aquela folha, apesar de ser tão maleável e pequena… Comecei a bater às portas! Aqueles que quiseram abrir… ai… tantas fechaduras! Tantos ferrolhos, tantas chaves… Percebi bem que alguns desistiram a meio! Quando lhes dizia, cá de fora, que me tinha sido dado aquilo por gente que me tinha encontrado junto ao Rio das Boas Notícias, diziam coisas que eu não percebia muito bem… Sabiam de quem eu estava a falar, já tinha ouvido falar deles e também desse Rio… mas não da parte das Boas Notícias.

Passou um tempo, e já um grupo finalmente tinha conseguido destrancar-se de dentro das suas casas aferrolhadas e escurecidas. Conversávamos… e quase não pude falar-lhes das Boas Notícias que o Rio traz, porque tinham todos eles trazido das casas uma folhas enormes, cheias de gatafunhos mal desenhados que lhes tinham dito terem vindo de lá também, e queriam entende-los melhor. Ora, eu que lá tinha estado, sabia bem que o Rio das Boas Notícias nunca traria no seu leito coisas daquelas…

Tinham ouvido muitas histórias que corriam por ali… Sabiam de muitas pessoas que, por essas bandas do Rio, tinham saído do carreiro e se tinham perdido para sempre! Outros tinham de lá trazido aquelas coisas que eles tinham… Ninguém sabia quem tinha sido, quando nem porquê, mas todos juravam a pés juntos que tinham vindo do Rio mesmo…

Foi quando começaram a chegar essas coisas, que diziam ter sido dadas pelo Rio, que as pessoas começaram a construir aquelas casas…

Lembro-me de quando lá cheguei ao princípio, com uma folhita na ponta dos dedos… lembro-me de ficar com a sensação de ser uma folha de Outono a querer furar um muro de pedras juntas… e de desejar com tanta força que elas caíssem todas de uma vez só, no Sopro do Vento que eu tinha sentido correr na margem do Rio…

Que elas caíssem todas de uma vez só, no Sopro do Vento que eu tinha sentido correr na margem do Rio…

E depois, à solta, com as casas apertadas e aferrolhadas já esmigalhadas no chão, com as folhas amareladas feiosas e enormes a serem levadas para longe pelo Sopro do Vento do Rio, corrermos como crianças de novo e procurarmos o caminho que levasse à margem do Rio das Boas Notícias. Descalçarmo-nos também nós, cansarmo-nos, deixarmo-nos espantar pela grandiosidade da vida que nos rodeia e nos habita e descansarmos depois de pés na água à espera, simplesmente à espera, do que o Rio traria para cada um de nós…

Sopra, Vento do Rio, Brisa que vem de Nascente, Sopra…


08 Dezembro 2008

Senhoras e Senhores... o CHATO!

Isto hoje é diferente... Para quem não conhece ainda, quem aparece nos videos a seguir é uma personagem de nome "O Chato" que gosta de... hummm... chatear.

Há coisas que ele adora dizer: "Vai mas é trabalhar, oh! Vai mas é trabalhar com'ás pessoas! Vai fazer qualquer coisa d' útil p'ra sociedade! Escuta... Tu queres é aparecer, é o que tu queres..."

Desta vez saiu-se com esta... Já nos fartámos de rir cá em casa!


E a "Melga" volta ao ataque...





SHALOM

06 Dezembro 2008

Salmo 168

Se preferires estar na Sala dos Salmos, entra POR AQUI


.
Deus de todas as manhãs e Senhor do entardecer,
Deus do princípio da Vida e da Hora em que ela mergulha na cor, no quente, no silêncio, na aparência de abismo que fica do outro lado do traço fino que despede os nossos olhos, onde o abismo se torna começo e o poente manhã… do outro lado do mundo, do outro lado de nós…

Deus de todas as manhãs e Senhor do entardecer…
meu Senhor e meu Dono…
minha Paz…

Deus de todos os meios tempos da Vida, Deus do meio-dia,
Deus das horas das nossas lutas e descobertas,
Deus que procuramos com os olhos turvados pelas nossas pressas,
lágrimas – de alegria ou de tristeza – e semi-aprendizagens
que é do que se fazem as nossas sabedorias…

Deus das Boas Notícias, revela-Te! Sempre…
Diz-Te a nós, actua em nós, cuida-nos…
Revela-Te e revela-nos a nós mesmos,
revela-nos a nós mesmos a verdade que somos,
o projecto para que estamos talhados,
o mundo admirável de possibilidades encantadoras que emergem dentro de nós,
a força que nos habita e a nascente dos milagres
que está a murmurar há tanto tempo num recanto qualquer de cada um de nós…

Revela-Te no melhor de nós!
Revela-nos o melhor de nós, meu Senhor, para que, assim, Te possamos reconhecer.


Não é um Deus que está em toda a parte… não és dos que está em toda a parte a fazer coisa nenhuma… Estás na história concreta dos que suplicam, ainda que calados, libertação e dignidade e na daqueles que se empenham em torná-la possível, homens e mulheres de todas as condições, tempos e crenças.

Estás onde o Amor acontece, a Verdade não se verga ao mundo e a Justiça se procura.

Revela-te, Bom Deus,
naqueles que têm ainda coração dentro do peito capaz de se comover,
mãos capazes de inventar
e mente desejosa de provar que nem todos os sonhos são impossíveis…

As tuas respostas à nossa história, as tuas respostas aos nossos gritos,
são sempre PESSOAS.

Não respondes com “respostas”… Não respondes com “conselhos”…
Respondes-nos sempre com Pessoas a quem consegues ainda tocar o coração,
consagrar com o Teu Espírito e conduzir pela mão,
ainda que elas mesmas muitas vezes não o saibam…

Deus de todas as manhãs e Senhor do entardecer,
é no meio da Vida, sempre no meio da Vida que nos voltamos para Ti…
Revela-Te a nós como fazes sempre, revela-Te no melhor de nós!
Por isso, oh Deus, revela-nos a nós mesmos,
faz-nos perceber onde reside o melhor de nós e como se exprime,
para que Te reconheçamos como fonte e sentido dos nossos dias…

E, se quiseres, torna-nos Respostas também, Respostas Tuas para alguém…
Tu sabes… Tu escutas, Tu conheces…

Uma coisa só Te peço, Bom Deus, meu Senhor e meu Dono: REVELA-TE!
Sempre… Deus que não te consegues guardar nem esconder…
Deus sempre novo, que não cansa nem se cansa!
Deus que não “está” mas que VEM…

05 Dezembro 2008

Não aparecerá em nenhum noticiário do mundo...

...mas aconteceu ontem.

Há três anos foi-lhe descoberto um tumor no cérebro, e desde então a vida tornou-se uma aventura de sobrevivência e esperança. Há cerca de uma semana, ele entrou pela última vez em coma. Durante estes três anos, a mulher sempre cuidou dele com uma ternura inesgotável. Manifestava por ele um carinho que só se via quando cuidava também do filho que entretanto tinha nascido… também tem agora três anos.

Ontem à noite, depois de dias em coma, os médicos mandaram a Isabel para casa. Disseram-lhe para ir descansar, que estava tudo bem, os sinais estabilizados… havia que esperar. Mas ela não foi simplesmente. Antes de ir, aproximou-se da sua cama, encostou-se a ele e cantou-lhe uma canção de embalar. Cantou-lhe uma canção de embalar…

E, enquanto cantava, ele despertou do coma, sorriu-lhe, e partiu sereno…

Aconteceu ontem, aqui tão perto. Um ser humano morreu ao som de uma canção de embalar cantada por quem o amava. Sorrindo… Sereno… como uma canção de embalar.

E eu juro que me sinto cheio de vaidade por pertencer a esta Humanidade, capaz de milagres destes, capaz de transfigurar e salvar a vida desta maneira! Eu juro que neste momento me sinto cheio de vaidade por saber que no mundo em que eu vivo isto aconteceu…

Ser pessoa humana é um privilégio que nunca saberemos agradecer suficientemente. Neste momento, sinto uma enorme vaidade da minha Humanidade… e uma enorme gratidão pela Bondade que nos talhou assim, à Sua imagem e semelhança…


SHALOM

04 Dezembro 2008

Ruah, Espírito Santo de Deus, meu Amor…
Tu que apareces como brisa, toque amante, ternura…

Diz-me quem é Jesus de Nazaré… Diz-me quem é esse Re-Suscitado por Ti, Tu que és agora a sua Força, o seu Poder, a sua Vida! Diz-me quem é esse cuja vida se tornou Caminho e Porta para me encontrares a mim e a todos os meus irmãos como o encontraste a ele em primeiro lugar…

Diz-me Tu, Ruah, meu Amor…
como um segredo entre amantes, porque só Tu o conheces de verdade!
Ele é Teu, desde o princípio.
Suspirado de Ti nas esperanças seculares de Israel,
Suscitado por Ti na Galileia dos Gentios e
Re-Suscitado em Ti pela intervenção poderosa e fiel do Abba no mais íntimo da sua morte…

O apóstolo Paulo dizia que só Tu conheces as profundidades de Deus, e só Tu nos podias conduzir amorosamente à descoberta dessas sendas… Diz-nos que és Tu, Ruah, que no íntimo do nosso íntimo sussurras “Abba… Abba… Abba…” para que aprendamos a ser filhos e nos deixemos gerar continuamente pela Sua ternura. E eu hoje peço-te, meu Amor, que também sussurres no mais íntimo de mim o Nome de Jesus tal como Tu o dizes… Conduz-me ao sabor do seu Mistério, à experiência do verdadeiro tamanho da sua Vida e da sua Missão, ao alcance universal da sua fidelidade…

Porque há dias em que parece que nada chega,
nada do que já temos, dizemos, conhecemos, experimentámos…
Percebemos que estamos a tocar num Mistério tão maior que todas as nossas palavras e procuras dele, de tal modo que nos apetece fechar os olhos e deixar que aconteça uma osmose qualquer em que deixamos de ser nós mesmos para nos tornarmos o corpo daquele que amamos e procuramos dentro de nós…

E encostamos o peito, e damo-nos inteiros,
e pomos as mãos atrás das costas como quem abandona todas as defesas,
mas sentimo-nos à porta… apenas à porta…
como quem está a roçar no princípio de qualquer coisa que ainda não é toda para agora…
mas, ao mesmo tempo, não se pode desejar senão inteiramente!

E o amor gera uma fome indescritível…
Um desejo que nos faz sentirmo-nos tão pouco importantes,
tão despretensiosos e ausentes de nós mesmos.

Ruah, Espírito Santo do meu Deus, Força e Vitalidade do meu Senhor Re-Suscitado, Dom maior do Abba… És a Sua ternura, a doçura do Seu agir feminino, amante e materno, o ambiente salvífico em que a Nova Humanidade está permanentemente a ser gerada…

Ruah, meu Amor… brisa suave do meu Deus, Silêncio eficaz da Palavra, deixa-me hoje ficar só assim, neste sentimento de desimportância que é tão libertador e pacificador… E diz-me, por favor, se me apanhares a jeito no meio do Teu abraço, como é que fazias com esse Jesus que suscitaste entre nós e re-suscitaste para nós…

Partilha comigo um ou outro dos vossos segredos…
Como é que ele fazia contigo?!
Como é que Tu o levavas?!...
Que amor esse, mais forte que a morte…

Quero a Festa! Tenho um Coração como o de toda a gente, Ruah, meu Amor… preciso do impossível para ser Feliz! Preciso de um Dom maior que todos os meus méritos e todas as minhas conquistas! É aí que a vida faz pleno sentido e se salva… Quando é transfigurada por um Dom impossível a si mesma…

Quero a Festa, a experiência definitiva da minha pertença a uma história tão extraordinária e grandiosa que me coloque no exacto lugar da minha desimportância mas, ao mesmo tempo, me faça experimentar o Amor único e sem medida que me é dedicado e a ternura com que sou conhecido e cuidado…

Quero isso, Ruah… esse impossível chamado Salvação, Ressurreição, o Parto do Homem Novo, a Hora do Encontro.

03 Dezembro 2008

"...o pão NOSSO..."


“…e os discípulos reconheceram-no ao PARTIR DO PÃO”… (Lucas 24, 35)

“…os discípulos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos e ao PARTIR DO PÃO…” (Actos dos Apóstolos 2, 42)


A Vinda/Presença permanente de Jesus re-suscitado junto dos seus ficou para sempre marcada pelo sinal que ele mesmo escolheu deixar-lhes como herança nas horas finais da sua vida. Naquela última refeição com eles, transformou a injustiça e a fatalidade daquela morte em realização máxima do dom de si mesmo, em oblatividade total e confiante… A tal ponto de poder dizer que já “ninguém lhe tirava a vida, mas ele mesmo a dava livremente”!

É claro na linguagem do Novo Testamento que o sinal da presença de Jesus não é “o pão” mas o PARTIR DO PÃO, a fracção e a partilha de um mesmo pão que se torna, deste modo, corporização da dinâmica do Reino de Deus a acontecer…

É tão, mas TÃO diferente dizer que “Jesus faz-se presente no pão” ou dizer “Jesus faz-se presente no PARTIR DO PÃO”… A primeira faz acontecer manifestações religiosas, a segunda faz acontecer o Reino de Deus!

Aí sim, apetece dizer aquelas palavras tantas vezes repetidas na Eucaristia: “Felizes os convidados para a Ceia do Senhor”… Dizem-se no preciso momento em que se PARTE O PÃO, e não se podem separar desse gesto. Felizes os convidados para o Banquete de Deus, a festa plena do Céu, Festa para a qual toda a Humanidade está convidada, e felizes aqueles que procuram ir-lhe “apanhando o jeito” nesta refeição de irmãos em que a FÉ que professamos e a PALAVRA que escutamos nos fazem chegar à descoberta de que tudo se concretiza e corporiza na capacidade de PARTIR O PÃO e reparti-lo como dom comum…

Ora isto vem a propósito de alguém que voltou… Lembram-se do Emanuel, o cartoon que apareceu pela blogosfera no ano passado por esta altura? Ele andava há uns meses “por aí”, foi o que ouvi dizer, sem aparecer lá pelo blog dele… Apareceu, entretanto, há umas semanas lá no sítio do costume, e ontem novamente! E apareceu com isto… CLICA AQUI



SHALOM

02 Dezembro 2008

Viver como quem Espera


Nas comunidades primitivas, os discípulos de Jesus viviam e celebravam na Espera(nça) da Vinda do Senhor, da definitiva Vinda (Advento) de Deus no seu Cristo, já glorificado e plenificado pelo Dom do Espírito na sua Ressurreição. A Fracção do Pão que celebravam era o gesto do Memorial e da Esperança de Jesus: “Anunciamos Senhor a tua morte, celebramos a tua Ressurreição: Vem, Senhor Jesus!”

Por isso são constantes os apelos à Vigilância: “Estai vigilantes! Estai Preparados, Atentos, Despertos, como quem Vigia, não como quem dorme…” Mas estes apelos constantes à Vigilância na Esperança não são “agoirentos”, não são uma má notícia, não se referem a um dia futuro que há que temer ou preparar para que depois não corra mal… É um apelo permanente à Vigilância da Fé que aponta para o presente de cada comunidade.

Nos primeiros anos estes apelos não eram tão necessários… Mas depois, geração após geração, a Esperança foi esmorecendo… e diziam alguns “O Senhor já não vem… O Senhor não vem… estamos entregues a nós mesmos… O Senhor não vem!” Então, o fogo do começo começava a apagar-se… A vida das comunidades começava a definhar quando deixavam de viver, acreditar e celebrar como quem Espera, como quem está Atento e Vigilante.

Foi aqui que o anúncio da Vinda iminente do Senhor glorificado se tornou muito importante, para reanimar a Vitalidade da Vida no Espírito daquelas comunidades. Este Anúncio não é a datação de um dia e um acontecimento isolado e grandioso, mas aponta para o presente de cada Comunidade e para a permanência da Fidelidade de Deus que tem ainda a dizer a Palavra definitiva sobre a História, e será uma Palavra de Salvação. O que está em causa é a sabedoria de Viver como quem Espera…

Como aquele que espera que a mulher que ama volte de longe… Ela prometeu que voltava, logo que conseguisse resolver tudo o que tinha ido fazer. Durante meses ele esteve a viver sozinho, e o apartamento tornou-se claramente a cara de um homem com pouco jeito para a arrumação…

Quando ela lhe envia uma mensagem a dizer: “Está quase tudo… Estou quase a voltar para junto de ti!” a primeira coisa que ele faz é arrumar o apartamento! Pôr as coisas no lugar, aspirar, limpar… Lavar a loiça que se amontoa há mais de uma semana na cozinha, separar o lixo e levá-lo, arrumar em condições a roupa que entretanto parece que tomou conta de todos os cantos do quarto…

No dia a seguir, acorda de manhã… “Pode ser que já venha hoje…” Toma banho e põe aquele perfume que ela adora, que lhe ofereceu no Dia dos Namorados, veste depois aquela camisola especial que ela lhe deu no aniversário do ano passado e sai. Ela adora flores! Ele vai comprar as que ela gosta e, pelo caminho, viu um centro de mesa que ela adoraria encontrar na mesa da sala.

“Hoje ainda não pôde vir…”

No dia seguinte, quem sabe?!

Aquele perfume, um jeitinho às flores antes de sair para o trabalho… Uma aspersão até com água, para se aguentarem mais, ajeitar bem o centro de mesa… Ela pode chegar enquanto ele não está em casa… A toalha do banho no sítio certo, a roupa suja no sítio certo…

“Hoje ainda não pôde vir também…”

Um dia e outro… As flores murcham e ele arranja outras! Quando se dá conta que na mesinha da televisão já se amontoam revistas e livros e comandos e mais um copo e uma caixa de biscoitos, arruma num instante…

E passa uma semana, e passa outra… e pode acontecer que no seu íntimo ele pense: “Ela já não vem. A minha amada não vem. Esqueceu-se de mim…que parvo eu fui ter esperado tanto tempo…”

Se isto acontece, se ele deixa de Esperar… Abandalha! A palavra é mesmo esta. Quando deixamos de Esperar seja o que for, quando morrem em nós as expectativas, acabamos sempre por abandalhar no essencial…

E talvez, passadas duas semanas, ela venha! E quando chega, um dia de manhã, encontra-o deitado no sofá da sala, a dormir todo torto, de pijama a cheirar a choco e as persianas todas corridas… O centro de mesa no chão num canto porque a mesa entretanto ficou cheia com o computador e papeladas, um jarro de flores murchas à entrada…

Quando o Novo Testamento insiste tanto na Vigilância da Vinda iminente do Senhor, é para aqui que está a apontar-nos, para a qualidade da nossa Vida e da nossa Fé, para a sabedoria de Vivermos como quem Espera. Porque sem isso começamos logo a abandalhar…

O Senhor está connosco! Não é o Anúncio da Vinda de um Ausente! Um Re-Suscitado, um Vivente no Espírito é sempre nosso contemporâneo, mas desejá-lo, procurá-lo, esperá-lo, descortiná-lo a vir permanentemente entre as nuvens dos nossos próprios dias, medos e problemas é a condição para uma experiência de Fé que dê qualidade verdadeira, sabedoria e beleza à nossa Vida.


01 Dezembro 2008



Quem perde as Expectativas perde os Motivos...

Quando deixa de valer a pena Esperar começam a morrer partes de nós...

Porque estamos talhados para Esperar, para Acolher, Receber, ser Visitados...

Porque, no fundo, passamos a Vida à procura daquilo que "nos mereça", por que e por quem valha a pena Entregar-se, a quê e a quem Dar-se...

O melhor de nós está sempre no mais íntimo de nós. Mas o mais íntimo de nós está sempre para além dos limites fechados de nós mesmos...