28 setembro 2007

Da função sacerdotal ao ministério dos presbíteros. E vice-versa, infelizmente...

Já muita gente me perguntou porque é que eu nunca uso a palavra “sacerdote” para me referir aos padres e torço o nariz quando a usam comigo…

Muito simples: porque não sou sacerdote! Nem eu nem ninguém! O Novo Testamento é claro a afirmar que na Nova Aliança inaugurada na Ressurreição de Jesus Cristo já não há mais necessidade de sacerdotes para estabelecer a mediação no culto entre Deus e o Seu Povo. Há um único e definitivo Sacerdote, que é o próprio Jesus Ressuscitado!

O papel sacerdotal, no Antigo Testamento e em todas as tradições religiosas da história humana, está sempre ligado ao papel mediador sem o qual os Homens não têm acesso a Deus. Por isso é que a sua principal função é “oferecer sacrifícios a deus em nome do seu povo”, “interceder pelo povo”…

Ao contrário também, ou seja: era através da função sacerdotal que deus “dava a sua bênção” ao povo, através dos sacerdotes “perdoava os pecados”, e através dos sacerdotes exercia a reciprocidade humano-divina manifesta através do culto...

Em todas as tradições religiosas, também na Antiga Aliança do Povo de Deus, o lugar dos sacerdotes era insubstituível para acontecer a relação com Deus, para conseguir o Seu perdão, para louvar a Sua glória, para receber os Seus dons… O culto sacerdotal, sempre ligado à sacralização do templo, à eficácia do rito e à necessidade de oferendas, sempre esteve muito próximo dos meandros do poder, sobretudo em contextos em que o social e o religioso não se destrinçavam, como era na Antiga Aliança do Povo de Deus, ou mesmo nos nossos tantos séculos de cristandade europeia.

Os Profetas de todos os tempos sempre se tornaram adversários da classe sacerdotal, porque anunciavam um Deus Livre de todas as amarras que os sacerdotes impunham em Seu Nome! Anunciavam o Agir Livre de Deus, o Perdão gratuito e o Seu Amor pelos mais pobres, que não tinham dinheiro para oferecer sacrifícios no Templo ou não lhes era reconhecida sequer dignidade para isso!

Jesus de Nazaré surge no seio do Seu Povo como um fruto amadurecido desta corrente profética do judaísmo. Os evangelhos nunca nos dizem que ele tenha ido ao templo rezar. Só foi para duas coisas: ensinar e… “armar barraca” quando expulsou de lá os vendedores e cambistas que ganhavam a vida à custa dos sacrifícios, holocaustos e oferendas ao “deus de Israel”.

Quando chegou a altura de escolher Apóstolos, não os fui buscar ao “grupo de acólitos” do Templo, nem sequer foi a um sábado para chamar os que encontrasse nos bancos da frente da Sinagoga… Jesus escolheu homens livres das lógicas sacerdotais para poderem mergulhar no centro da sua mensagem sobre o Reino de Deus e tornarem-se dela Apóstolos, isto é, Enviados!

Praticamente todos os encontros de Jesus com a classe sacerdotal terminaram em confrontos. Foram eles que mexeram os cordelinhos todos… Era a classe sacerdotal que enviava os seus beatos, os Fariseus, para o meio das multidões ouvir o que Jesus dissesse para depois contarem… Era a classe sacerdotal que enviava os seus teólogos, os Doutores da Lei, para o enfrentar em jogos de palavra medidas ao milímetro e em perguntas maliciosas em relação à interpretação da Lei judaica…

Aquele grupo de discípulos e apóstolos que caminharam com o Mestre e o continuaram depois da experiência da sua Vida Confirmada por Deus na Ressurreição, são a génese da Igreja que hoje formamos. O modo como eles se entendiam a si próprios como Igreja está aberto para nós no Novo Testamento.

O Novo testamento fala muitas vezes dos ministérios [serviços] com os quais se estruturavam as primeiras comunidades de discípulos de Jesus Ressuscitado, mas NUNCA um desses ministérios é o sacerdócio. Sempre que o Novo Testamento usa a palavra “sacerdotes” é para se referir aos responsáveis do culto mediador no Antigo Testamento, nunca de uma função nas Comunidades da Fé Pascal, como se entendia a si própria a Igreja primitiva.

Não estou preocupado com colocar aqui agora um monte de citações, mas quem tiver mais curiosidade [ou não acreditar em mim, eheheh] pode ler, por exemplo, o capítulo 12 da 1ª carta de Paulo aos Coríntios, ou os capítulos 4 a 8 da carta aos Hebreus.

Na experiência de Fé Pascal do Novo Testamento, Jesus Ressuscitado é o Único Sacerdote, não consagrado pelo rito de nenhuma classe sacerdotal, mas consagrado pelo próprio Deus e investido do seu Sacerdócio na sua Ressurreição. Tudo isto é linguagem tipicamente judaica para chamar a Jesus “Mediador”.

A carta aos Hebreus chama-lhe “Sumo e Eterno Sacerdote”, ou seja, Mediador Definitivo. Acabou a necessidade de um culto sacerdotal porque Jesus está permanentemente a “exercer as suas funções de Sacerdote junto de Deus em nosso favor”, diz a mesma carta.

Esta carta diz coisas tão claras como esta: “os preceitos precedentes [a Lei da Antiga Aliança com os seus cultos] são abolidos como inúteis e ineficazes porque não levam nada ao seu cumprimento!” (Heb 7, 18-19)

Ao falar da passagem da Antiga para a Nova Aliança, diz que “ao chamar-lhe Nova, declara Velha a primeira. E o que envelhece e fica antiquado, está prestes a desaparecer!” (Heb 8, 13)

“A Lei [Antiga Aliança] é que nomeia como sacerdotes homens fracos iguais aos outros, mas a Aliança que substitui a Lei nomeou para sempre um Filho perfeito!” (Heb 7, 28)

É como Filho que Jesus Ressuscitado, pelo dom do Espírito Santo, se torna Mediador de uma Nova e Eterna Aliança entre Deus e os Homens. Este Dom é gratuito e universal. Por ser Dom, não se impõe… Era assim que as primeiras comunidades cristãs se entendiam: como contexto privilegiado para reconhecer, saborear e acolher o Dom de Deus revelado/realizado em Cristo.

Nestas comunidades havia ministérios diversos, mas não havia nenhum de tipo “sacerdotal”, cuja função fosse ser mediador da presença de Deus para os irmãos… Acreditavam na dinâmica comunitária do Espírito Santo que actua em todos, não é exculsivo de ninguém. Lembravam-se da promessa de Jesus: “Onde dois ou mais estiverem em meu Nome, eu estarei…”

Não há nenhuma função sagrada que seja condição para que Cristo se faça presente! A única condição é a própria Comunidade Consagrada ao Nome de Jesus, isto é, em comunhão com Ele pela abertura ao Espírito e à Palavra de Deus. É a dinâmica comunitária que manifesta a presença de Deus aos irmãos, não a função sagrada de um “sacerdote”! O Único Sacerdote era o próprio Jesus, o único Mediador entre Deus e os Homens, como diz Paulo na carta ao seu colaborador Timóteo (1Tim 2, 5).




[Bem… isto está a ficar mais longo do que eu contava…
E eu que estou a ser tão sucinto que até estou admirado comigo próprio!
Mas de qualquer modo… Vamos fazer assim:
agora ficamos por aqui, e amanhã já continuo a escrever…

Abraços e Beijinhos, cada um/uma escolha o que quer]

SHALOM

5 comentários:

Ver para crer disse...

Concordo em parte. Porque os padres também são sacerdotes como os baptizados. Mais: estão ao serviço do sacedócio dos fiéis.

Obrigado pelo teu comentário no meu blog.Penso que a história nos ensina que há sempre quem seja capaz de dar a vida por uma causa.
E os missionários são disso testemunho.

Rui Santiago cssr disse...

VER PARA CRER, eheheh. Não é suposto concordarmos ou não concordarmos, eheheh. É que ainda falta a segunda parte... só amanhã...

Eheheh. Até já!!!

Vasco disse...

Mas...mas...mas...ainda há mais?!?!?!!

NAAAAAAAAOOOOOOOOOO

SOCORRROOOOO

Rui Santiago cssr disse...

AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

maria joão disse...

Rui, já que o texto de hoje não me fez rir, pelo menos o comentário do Vasco fez-me soltar uma gargalhada! E como rir faz bem, já contribuiram para a minha felicidade.
Bem hajam!