24 Abril 2007

"A partir de agora tudo será diferente!"

Houve uma altura na minha vida, já nem me lembro bem quando, em que comprei uma bicicleta de dois lugares.

Era linda… À frente um guiador fantástico, os travões, uma campainha, as mudanças… Uns pedais que se ajustavam na perfeição ao pé e uns rolamentos que pareciam manteiga… Atrás, uma outra espécie de guiador, mas que não “guiava”, claro, nem tinha travões, nem mudanças nem campainha. Era apenas um apoio para as mãos de quem fosse atrás. Mas tinha uns pedais e uns rolamentos iguais…

Montei-me nela e comecei a pedalar contente com a novidade da minha bicicleta. Passei pelo lugar do costume e encontrei-me com o amigo que me tinha feito comprá-la. Parei, pus o pé no chão e dei um “trim-trim” valente. Logo ele apareceu à janela, desviando a cortina com a mão, e riu-se de alegria e espanto com a minha surpresa.

Saiu, abraçámo-nos e disse-lhe: “Senta-te aí atrás! Esse lugar é para ti. A partir de agora pedalamos sempre juntos!”

Ele, de mochila às costas, como quem estava disposto a nunca mais me deixar, sentou-se no banco livre da minha bicicleta num pulo.

“A partir de agora tudo será diferente!”, foi o que eu disse, confiante e triunfante, ao mesmo tempo que dava a primeira pedalada e tirava o pé do chão.
Dirigi-me aos caminhos por onde costumava andar antes e mostrei-os todos a Jesus, montado no banco de trás da minha bicicleta.

Sentia que ele estava encantado com os caminhos por onde andávamos, “os meus caminhos”, assim lhes chamava eu, e sorria a cada novidade. Mas, ao mesmo tempo, parecia que “os meus caminhos” não eram novos para ele, como quem também já os tivesse percorrido…

As minhas mãos manejavam o guiador e conduziam-nos por todos os atalhos que eu conhecia bem desde a infância, caminhos que percorrera sozinho na minha bicicleta antiga mais de mil vezes! Pedalávamos contentes, ao mesmo tempo, e sentíamo-nos verdadeiramente felizes!

De repente, serpenteando pelos “meus caminhos”, Jesus começou a largar uma das mãos do seu suporte atrás de mim para me apontar veredas e ruelas que eu nunca tinha visto que estavam lá… Primeiro uma, depois outra… Ia-me apontando caminhos novos dentro dos “meus caminhos” que eu nunca reconhecera…

Andámos nisto muito tempo…
Entre a surpresa e a alegria, andámos nisto muito tempo…

E houve uma altura na nossa vida, já nem me lembro bem quando, em que ele pediu que parássemos.

Perguntei-lhe se estava cansado, e ele disse que não. Enquanto pedalávamos, por uns momentos mais devagar, ele disse-me por cima do ombro que era bom pararmos um bocado para pensarmos juntos onde havíamos de ir a seguir.

Sorri-lhe… Seria mesmo preciso?! Olhei para trás de relance e vi no seu rosto que sim. Tínhamos aprendido a conhecer-nos, e percebi que ele tinha coisas escondidas para me dizer…

Percebi depois. Queria dizer-me que havia mais caminhos para além dos “meus caminhos”.

Parámos à sombra de uma árvore, numa planalto já muito sereno e verde, e fechámos ambos um pouco os olhos, como que limitando-nos a respirar fundo. Quando, passado um pouco, lhe disse “Vamos continuar!”, fez-me um pedido inesperado: “Deixa-me ir à frente!

Aquele “Deixa-me ir à frente” ecoou dentro de mim durante uma eternidade… Não era aquilo que eu tinha projectado quando comprei a bicicleta de dois lugares… Era suposto ser eu a ter nas mãos o guiador…

“Porquê?!”, perguntei-lhe eu… E ele sorriu e ficou só a olhar-me. Nos seus olhos vi reflectida num instante a História de Amizade que já tínhamos construído. Nunca me dera motivos para não confiar nele…

Meio a medo, mas com um entusiasmo diferente do primeiro, lá me sentei no banco de trás da minha bicicleta…
Ele sentou-se à frente, pôs o pé no pedal e, antes de arrancar, olhou para trás, piscou o olho e repetiu o que eu tinha dito na nossa primeira partida: “A partir de agora tudo será diferente!

Fui a lugares que nem imaginava que pudessem existir, conduziu-me de bicicleta a topos de montanhas que eu achava impossível alcançar e de lá nos fez descer serenos sem nos perdermos nem magoarmos… Fez-me sentir cheiros que nenhuma palavra pode descrever e abriu-me os olhos para um mundo novo ao qual “os meus caminhos” ainda não davam acesso…

O medo e a desconfiança do princípio, debaixo da árvore, desapareceram com a experiência de liberdade e verdade profundas que ele me fazia saborear. Uma vez, enquanto atravessávamos uma enorme planície, perguntei-lhe por cima do ombro por onde andávamos. Fez um silêncio matreiro de suspense e respondeu-me: “Estes são os meus caminhos”!

Ri-me à gargalhada e, a meio do meu riso, disse: “Mas agora podes chamá-los também de teus”…

Aconteceram já tantas coisas desde que eu comprei a bicicleta nova e depois ele me pediu que o deixasse guiar… Nem com uma noite inteira de palavras contaria o que vivemos juntos. Além disso, as palavras ficam sempre tão pobres quando chega a altura de contar histórias destas…
Já lá vão uns anos, e continuo no banco de trás da minha bicicleta de dois lugares. Demorou mas percebi que era este o meu lugar! Nunca me senti tão feliz…

Quando, pelos dedos apontados de Jesus por cima do meu ombro, os “meus caminhos” foram dar “aos caminhos dele”, tudo começou a fazer sentido de uma maneira nova e profundamente plenificante.

De vez em quando eu ponho-me a olhar para trás ou para os lados com olhar vazio… Então, ele olha de relance para mim e, ao ver-me assim, dá um “trim-trim” valente para eu perceber para onde vamos. E o “vazio” desaparece… E o “lá atrás” torna-se longe e pequeno demais para que valha a pena lá voltar…

Um dia contei-lhe estas coisas todas e ele disse-me que se chamavam “Confiança”. E eu acreditei… Porque ele nunca me deu motivos para eu não acreditar...




SHALOM



10 comentários:

Pedro (Coimbra) disse...

Não percebo porque é que temos (sempre) medo de nos sentarmos no banco de trás. Parece que temos a necessidade de ter sempre as mãos no guiador... Mas só "dando o guiador" ao Mestre é que descobrimos os verdadeiros caminhos!
Obrigado por mais esta partilha!

Júlio da Costa Gomes disse...

Não gosto muito de conduzir. Tem um sabor especial confiar na condução de alguém. E qundo é Jesus a conduzir ai é que se alarga a confiança.

Sol da manhã disse...

:D!
Hmmmmmmm...pois...mas...pois...mas...pois...mas...

Hoje fico-me pelo pois...mas...
...lenta como sou...um dia destes há-de sair qualquer coisita minimamente inteligível...

Um abraço,
Maria

Rui Santiago cssr disse...

Oi MARIA!

Mais inteligível que isto?...
Hmmm... acho difícil, tratando-se do que se trata...
Eu, pelo menos, percebi perfeitamente... É mesmo isso que acontece, eheheh!

SHALOM

Já agora: este fim de semana há encontro de JR's (Jovens Redentoristas) aqui em Gaia. Por isso a Eucaristia de Sábado às 19h vai ser especialmente animada...
Estás convidada, ok?
Smnário de Cristo Rei, em frente ao gigantesco Hotel Meliá...

Sol da manhã disse...

OK!!! Obrigado :D!

Maria

Inês Monteiro disse...

Há lugar para mais um? eu juro que não faço barulho! mas queria tanto encantar-me com esses caminhos...
Shalom

João disse...

Desculpa mas não resisto:
Não deve dar jeito nenhum andar de bicicleta de túnica e sandálias!
(mas ok... a Deus nada é impossível!)
Já estou a ver Jesus a conduzir o meu pandinha... hi hi hi!

Isamor disse...

Dás-me licença para 'pegar' no teu texto e oferecê-lo a um menino que vai fazer a Profissão de Fé no próximo domingo? Acho que seria uma bela prenda para a vida...

Rui Santiago cssr disse...

Olá ISAMOR!

Claro que sim, eheheh.
SHALOM

anawîm disse...

Sabes como vim aqui cair a este texto?
Lembrei-me de procurar o que tivesses escrito no dia 23 de Abril de 2007... o sétimo aniversário da minha Consagração...

poderei supirar um pouco de alívio perante o facto de, realmente, no fundo, no fundo, no fundo... mas mesmo lá no fundo... até nem escreveste nada nesse dia...?