01 Setembro 2014

beleza da fragilidade


fotografia de Fan Ho
"Entre as mãos perfumadas daquela mulher frágil, na casa de Simão, o leproso (Mt 26, 6-16), aparece um Deus que ama a fragilidade, aquela fragilidade que é própria das coisas gratuitas, mas, sobretudo, de quem não se basta a si mesmo, e que é a origem da vontade de relação, de compreensão, de amor. Os sentimentos são a essência daquilo que a fragilidade gera no homem. Ela não é um defeito, um handicap, mas a expressão da condição humana. Pela fragilidade, o homem busca ajuda, busca laços e, apoiando uma fragilidade na outra, sustém-se o mundo.
A fragilidade não impele a vencer, conhece os últimos e não apenas os fortes. Não acredita na força, no poder; sabe que este é só simulação, uma máscara para ocultar o medo. Pelo contrário, a fragilidade é um recurso, uma estratégia, uma visão de vida que mostra a busca de poder como uma atrofia do viver.
A fragilidade não é debilidade ou diminuição, não é incapacidade de fazer ou de pensar, é tão-só uma visão de um mundo que já não se divide em vencedores e vencidos, onde o vencedor é o mais forte, o mais violento, o mais cruel. A fragilidade persegue o sonho de um mundo onde o vencedor é aquele que dá e que recebe amor.

Leio o Evangelho e busco um Deus da fragilidade, um Deus não para adorar e venerar, mas para acariciar e perfumar, que ri e brinca com os seus filhos, nos calorosos jogos do mar e do verão. Um Deus que sabe ouvir e esperar junto de mim, que temo a dor e o deserto. Um Deus pequeno, não o omnipotente, que me enriqueça com a sua pobreza, com a sua necessidade de carícias e de perfume.
Um Deus tão frágil que faça pensar sempre no amor, e faça sentir a vontade de ser amado. Beleza da fragilidade.
O Deus dos poderosos - o Rei dos reis, o Eterno - não me interessa. Quero o Deus que me seduz com a sua beleza, um Deus belo. Enamorado. Que se encontra do lado do perfume.
Não quero um Deus que se erga na justiça absoluta, no poder ilimitado, na perfeita inteligência. Seria um Deus que não sente a necessidade de se inclinar numa carícia, quando se eleva um gemido de dor. Pelo contrário, o meu Deus é Jesus: que conhece a pressão do medo, a dor da recusa, a paixão do abraço, o calafrio pela carícia dos cabelos embebidos em nardo da mulher pecadora e amorosa. 
Um Deus que me concede o direito de ser débil, «cana rachada», frágil como um homem e não hirto como um herói. E não me condena se sou mecha fumegante, mas pega neste meu fio de fumo, presságio de fogo possível, trabalha-o e protege-o, até dele fazer irromper de novo a chama. Não acaba por quebrar a cana rachada que eu sou, mas enfaixa-a como se fosse um coração ferido. Deus da fragilidade."

Ermes Ronchi

31 Agosto 2014

Oração e Maturidade Cristã



Quanto mais adulta for a fé de um cristão, mais ele toma Deus a sério na oração, fazendo da oração um diálogo com Deus Pai ao jeito de um filho que fala com seu Pai.

Do mesmo modo procura dialogar com o Filho de Deus ao jeito de um irmão que fala com outro irmão.

Quanto mais for este o modo de nós orarmos, mais a nossa oração será uma oração em nome de Jesus e, portanto, mais será oração no Espírito Santo.

São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Ele é o vínculo e o princípio animador da comunhão que nos liga familiarmente a Deus. É ele que clama em nós “Abba”, Papá, e faz de nós co-herdeiros com Cristo (Rm 8, 14-17).

Orar em união com Cristo é comunicar com Deus de modo familiar, dizendo-lhe o que nos vai no coração, seja no sentido de pedir, louvar ou falar das grandes questões da Humanidade. Mas falar de modo familiar. É este o modo de tomar Deus a sério na oração. Eis o que diz São Paulo a este respeito: “Orai com o espírito e com a inteligência. Pensai nas palavras, a fim de entenderdes o que estais a dizer. Quando orardes em comunidade, fazei-o de modo a que as pessoas vos entendam, a fim de poderem dizer “Amen” à vossa oração” (1 Cor, 14, 15-16).

Jesus diz para não usarmos de muito palavreado na oração. Os pagãos é que procedem deste modo, pois pensam que por falarem muito serão melhor atendidos (Mt 6, 7). Jesus diz que a nossa oração não deve ser como a dos hipócritas que se põe a julgar os outros. Estes não saem da presença de Deus justificados, diz Jesus (Mc 12, 40). A Carta de São Tiago diz que devemos orar com fé, pois sem fé não é possível obter os dons de Deus (Tg 1, 5-8).

Na oração estamos a falar com Deus que não é uma teoria, mas Alguém real com quem podemos contar. Podemos ter conhecimentos teóricos sobre os conteúdos da fé mas não termos uma experiência viva de Deus.

A oração deve ser uma relação com Deus assente na verdade e no amor. Isto quer dizer que à medida que cresce no amor, a pessoa está mais capacitada para conhecer e amar a Deus. Eis o que diz a primeira Carta de São João: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. Aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chega a conhecer Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 7-8).

É importante termos consciência de que a oração não é um conjunto de palavras mágicas capazes de mudar o querer de Deus ou a sua opinião. Mas isto não quer dizer que a oração não seja eficaz. Pelo contrário, podemos ter a certeza de que a oração é sempre eficaz. À medida que oramos no Espírito Santo, o nosso coração começa a sintonizar com o querer de Deus. Este é o dom principal que nos é concedido através da oração, pois o querer de Deus coincide rigorosamente com o que é melhor para nós.




NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
Em Comunhão Convosco, 
Calmeiro Matias









29 Agosto 2014

Lágrima de Preta

Hoje a partilha é da mana Idalina.
Ontem estive com ela e pedi-lhe que recheasse hoje o cantinho com alguma partilha que fizesse sentido para ela...
Por isso aqui vai:



LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado
de outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
De todos os vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

por António Gedeão



“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”

28 Agosto 2014

28 de Agosto 1993

Obrigada, meu irmão Poeta! 
Contigo viajámos neste mês de Agosto. De lugar em lugar. E não só!

Do tempo trouxeste-nos um dos muitos acontecimentos que envergonham a nossa Humanidade – a primeira bomba atómica lançada sobre Hiroshima. Há vergonhas e datas que precisamos não esquecer! 6 de Agosto de 1945 é uma dessas.

Contigo, passámos por uma procissão. A religião e Deus, nunca se deram bem no teu coração de Poeta.
Naquele (?) tempo a religião era o retrato da submissão a um deus omnipotente e conhecido e… tu só tinhas uma religião – a LIBERDADE e, DEUS, em ti sempre foi pergunta e desassossego…

Contigo fomos à praia da gente chique do Porto em 1956. Em duas penadas, deste logo a entender que aquela não era a tua praia…Navegavas noutras águas…Outras aragens te burilavam os dias…

E chegados ao ano de 1993, escancaraste-nos, fraternal e sem pudor, a porta da tua intimidade, com a lucidez de quem, apesar dos anos, se reconhece inacabado e insatisfeito, imperfeito no modo de se dizer e de dizer a Vida, sem certezas de nada, sabendo simplesmente que “vive e ama e morre antecipadamente ressuscitado
Para um não crente é obra !!!

Obrigada, meu irmão Poeta! FAZES-ME  BEM!!! 

Que o Deus de TODOS os poetas desperte em nós, que nos dizemos crentes, uma Sabedoria que a TODOS leve a viver, amar e morrer antecipadamente ressuscitados. Amen!


DIÁRIO XVI


Chaves, 28 de Agosto 1993

“ A indiferença da natureza! Revejo os lugares que há anos me são familiares, e onde, num poema, numa frase ou num simples estremecimento emotivo, cuidei que qualquer coisa de mim permanecia e ficaria identificado. E em nenhum deles há resquícios sequer de que por ali passei. Ou então sou eu, que de tão desfazado do mundo, me vou perdendo de vista até nos Tabores das minhas passadas transfigurações.”

CONFIDENCIAL

“Não me perguntes,
porque não sei
da vida,
nem do amor
nem de Deus,
nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
e morro, antecipadamente
Ressuscitado.
O resto são palavras
que decorei
de tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
sem nada perguntar,
vê, sem tempo, o que vês acontecer.
E na minha mudez
aprende a adivinhar
o que de mim não possas entender.”


                                               

27 Agosto 2014

"Quem te mandou mexer no que estava quieto?!"



Muitas vezes a novidade nos aparece como um roubo. Na evangelização esta cara de menino grande a a quem a gaivota rapinou o gelado está sempre a encontrar-se. Porque nos habituámos a ter os assuntos de divindades muito bem arrumadinhos no gavetão religioso, misturado com almoços dominicais - quase sempre assado - em família e meias brancas com raquetes, e quando se mete a mão nesse universo há um buraco negro qualquer que se revolta. É o buraco negro que, muitas vezes, faz desaparecer toda a inteligência mais comum, toda a argumentação mais básica. "Há coisas que não se discutem!", pronto. Mas, afinal, são quase sempre aquelas que dão discussão... Há uma certa mentalidade religiosa que é uma espécie de sorvedoiro da inteligência e da sensatez. Era isso que eu queria dizer com a história dos buracos negros.

E não há semana em que não se veja esta cena: a gente vai lambendo o gelado do costume, mesmo quando a língua já enregelou e deixou de saborear, mesmo quando a bolacha já está mole e não sabe a nada. E vem a gaivota, matreira, falsota, e embica com a gente, e bica na gente, e leva-nos o costume no bico como se fosse coisa pouca e pequena. E não há maneira de mostrar que aquilo já não tinha jeito mesmo, que já não era coisa que se visse, bendita gaivota!!! A gente passa é a não gostar de gaivotas, e a procurar uma gelataria costumeira, que as há sempre perto. E a contar, à hora da merenda, o enfado do incidente, como quem desenrola o drama de uma afronta de bradar aos céus.


26 Agosto 2014

Sabedoria!


Algures numa sala de catequese, a catequista narrava o trecho do primeiro livro dos Reis (1 Reis 3, 16-28), o famoso episódio onde Salomão, sabiamente, e para que se fizesse justiça, ordena que se corte a criança, filha de uma das duas mulheres, ao meio, e assim cada uma ficasse com metade da criança.
A santa da catequista ilustrava o episódio com a imagem do rei, ordenando que cortassem a criança em dois, enquanto uma das mulheres chorava e a outra olhava com ar desinteressado.
Um pequenote, olhando a cena e apontando para a mulher sem coração comentou:
- Espero que ela fique com a parte que tem o rabo.

25 Agosto 2014

anda



Anda, 
desliga o cabo,
que liga a vida 
a esse jogo,
joga comigo
um jogo novo
com duas vidas 
um contra o outro.

Já não basta,
esta luta contra o tempo,
este tempo que perdemos,
a tentar vencer alguém.

Ao fim ao cabo,
o que é dado como um ganho,
vai-se a ver desperdiçámos,
sem nada dar a ninguém.

Anda, faz uma pausa,
encosta o carro,
sai da corrida,
larga essa guerra,
que a tua meta,
está deste lado,
da tua vida.

Muda de nível,
sai do estado invisível,
põe o modo compatível,
com a minha condição,
que a tua vida,
é real e irrepetível,
dá-te mais que o impossível,
se me deres a tua mão.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que
mais perde se não vens.

Anda, mostra o que vales,
tu nesse jogo,
vales tão pouco,
troca de vício,
por outro novo,
que o desafio,
é corpo a corpo.

Escolhe a arma,
a estratégia que não falha,
o lado forte da batalha,
põe no máximo o poder.

Dou-te a vantagem, tu com tudo, eu sem nada,
que mesmo assim, desarmada, vou-te ensinar a perder.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que
mais perde se não vens.

música e letra: Pedro da Silva Martins



(é tão bom quando aparece Alguém a desencaminhar-nos, para entrarmos no ritmo)

24 Agosto 2014

Forças Desumanizantes e Fé Cristã


Os seres humanos não podem ignorar os perigos de destruição que estão a pôr em perigo o futuro da Humanidade. Pela primeira vez na História, o Homem tem nas mãos o poder de pôr fim ao projecto humano. Eis alguns dos perigos que ameaçam o futuro da nossa espécie: a destruição do equilíbrio ecológico; o perigo da destruição maciça pelo nuclear; a ameaça cada vez mais real e próxima de destruição de grandes parcelas da Humanidade devido à fome e à falta de água.

Na base de todos estes perigos que ameaçam a sobrevivência está a indiferença perante os valores, tais como a fraternidade, a solidariedade, a justiça e da paz. Esta indiferença perante os valores trouxe consequências graves para as relações humanas, tanto a nível interpessoal, como a nível social ou internacional. É verdade que estes perigos ainda podem ser vencidos através do diálogo e da elaboração de projectos que levem a adoptar medidas capazes de gerar uma nova consciência de justiça, de solidariedade e dos direitos humanos. Se a salvação da Humanidade ainda está nas mãos dos seres humanos, então temos de dizer que se trata de um dever ético para toda a Humanidade.

Só entrando na lógica do amor, os seres humanos podem encontrar condições para sobreviver face aos perigos que ameaçam a Humanidade. Para além das técnicas e competências necessárias para vencer os perigos que nos ameaçam é urgente tomarmos consciência da necessidade de cultivar uma vida espiritual profunda, a qual é um fermento capaz de transformar o mundo.

É urgente aprofundar os sentidos da vida, a fim de a pessoa humana encontrar razões para se empenhar na construção da fraternidade, da justiça e da paz. Quando lhes falta o sentido da vida, as pessoas entram em crise e têm tendência a adoptar atitudes e comportamentos destrutivos. A Vida espiritual é uma fonte inesgotável de sentidos para a nossa vida.

É importante que as pessoas cultivem aptidões e conhecimentos científicos capazes de favorecer o progresso humano. Mas não nos podemos esquecer de que o ser humano deu o salto de qualidade para o espiritual, o qual tem de ser cultivado sob pena de a Humanidade ficar desequilibrada. O crescimento espiritual é uma fonte inesgotável de sentidos de vida e razões para a pessoa se comprometer no sucesso da construção humana.

Os cristãos estão chamados a ser no mundo uma luz que ilumina o sentido da vida, bem como um sal que confere sabedoria à vida e um fermento que ajuda as pessoas a viver de acordo com os valores fundamentais da humanização. Graças à Palavra de Deus que o faz compreender o plano de Deus e à presença do Espírito que o ilumina e consagra, o cristão está chamado a ser evangelizador dos nossos irmãos.

A fé faz do cristão uma pessoa optimista, pois tem consciência de que a vida está cheia de sentido. Graças ao mandamento do amor que Jesus nos deixou, o cristão sabe que o amor é uma razão que vale tanto para viver como para morrer: “É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 12-13).

Graças à sua fé na ressurreição de Cristo e da Humanidade, o cristão é um grito de esperança no mundo. Ele tem a missão de anunciar a Boa notícia da vitória de Cristo sobre a morte, da qual deriva a certeza de que o Homem não está a caminhar para o vazio da morte. A Esperança cristã é uma força poderosa chamada a fazer frente às forças desumanizantes que ameaçam o futuro da Humanidade.

No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias

22 Agosto 2014

ABraço



Será que quando não te sei dizer bom Deus
é quando te SEI melhor?

Inventam-se mil e umas maneiras para te dizer...
E, às vezes, sinto que nenhuma delas te enche as medidas.
Sabe tudo tão a pouco!

Talvez nessas alturas seja quando te SEI melhor...

Infinito!
Assim... largo...
Que nem um abraço!


Olha parece que te encontrei...
Desenhei-te num abraço!

E olha que assim ficas bem bonito!
Se te disser num abraço, acho que te digo bem... muito bem!


21 Agosto 2014

21 de Agosto 1956

DIÁRIO VIII


Miramar, 21 de Agosto 1956

Por mais que faça não consigo aderir inteiramente a esta vida de praia. Há nela uma inautenticidade de tal modo ostensiva, que tenho sempre a impressão de estar num palco. Um palco de promiscuidade de formas, a que a luz alvar não dá recorte – escancarada e paradoxal ribalta onde a nudez se não vê e a beleza não apetece.
Já sem falar da areia, sempre movediça debaixo dos pés, as próprias casas, terapêuticas e provisórias ajudam a criar no meu espírito o pânico da instabilidade. Em nenhuma a gente se pode refugiar para ter febre, gemer ou esperar pela morte… o sofrimento e a agonia perderiam lá dentro toda a dignidade. Sei muito bem que as férias são interregno do equilíbrio humano, Ou intervalos que o favorecem, e também não ignoro que o mar lava tudo, até certas nódoas teimosas do pensamento. Infelizmente, comigo as coisas passam-se sempre ao contrário. Em vez de descansar como a outra gente, de esquecer e dormir, revolvo-me de inquietação, sem encontrar pé na ambiguidade dum meio onde o impudor finge que tem moral, e a moral finge que não tem pudor.

20 Agosto 2014

Senhoras e Senhores...

E que tal aproveitar um serão de Agosto para ver (de novo?) este City Lights do grande Chaplin? Um história deliciosamente bem contada...

18 Agosto 2014

os errados



"Perante a encomenda de uma certeza registada de garantias, apresenta uma bicicleta brilhante, nova, a pedalar incansável através do Verão. Depois, exibe um fósforo aceso, a que chamarás Prova A, como nos filmes. Depois, farelos. Abandona a imoralidade de ser infalível e dá tamanho ao mundo inteiro, galáxias desgovernadas incluídas, lembranças e segredos incluídos. Saberás então que há poucas belezas mais extensas do que o despropósito de uma ideia: a liberdade de estar rotundamente errado.

Olha aqui uma cadeira pequenina, senta-te. Farás tanto bem nessa escolha. Por momentos, poderás desfrutar da reprovação das cabeças e da paz macia de repousares sozinho no desconhecido. Contempla o desconhecido imenso, é maior do que uma barragem. Se os teus olhos não estiverem apontados para ele, não há artifício que te comunique o que esconde. Poderás atirar abundância em qualquer direcção porque, se não tiveres medo de acertar em ti próprio, serás invisível e talvez acertes em algum terreno que necessite de abundância.

Começa hoje a estar errado, começa agora. No armário, tens as gravatas e os fatos necessários para participar na reunião da direcção. Quando o presidente der início à ordem de trabalhos, oferece-lhe algodão doce. Se fores promovido, aceita. Se receberes um silêncio incrédulo e incómodo, sorri. Garante que fica registado em acta. Estas são as regras básicas do comportamento em reuniões: erra e aceita/sorri. Outro exemplo: vai à reunião de condomínios e não te queixes do elevador. Basta isso, não te queixes do elevador. Se te convidarem para tomar chá, aceita. Se te estranharem, sorri. Uma vez mais, garante que fica registado em acta.

Não queiras existir sem erros. As vestes de imperador conservam um homem assustado. Repara na angústia amargosa com que tenta manter fronteiras e castelos de areia contra as ondas do oceano. Não queiras fronteiras. Quer antes a distância, os teus braços a afastarem-se sem horizonte, as tuas palavras a desfazerem-se no ar. A imperfeição é muito mais bonita do que a perfeição porque a perfeição não existe. Ou, se existe, está ao lado do erro, faz parte dele. Se ainda estivéssemos nos princípios da espécie, poderíamos talvez acreditar em vidas certas e inteiras, mas acumulamos história, somamos milhares de anos, séculos a perder de vista, e tu tens o dia de hoje, tens este pedacinho de horas, esta coisa. Tens tanto.

Engana-te de propósito a fazer as contas. Falha o golo em frente à baliza. Despenteia-te. Escreve «sapo» com cê de cedilha: çapo. E também «sopa»: çopa. Inventa combinações de números quando o multibanco te pedir o código. Contraria o GPS. Põe sal no café. Telefona à tua mãe e diz que querias ligar para as finanças. Despede-te quando chegares e diz olá quando partires. Senta-te no chão. Veste a camisola ao contrário. E, por favor, calça o sapato do pé esquerdo no pé direito e calça o sapato do pé direito no pé esquerdo. Verás que não é assim tão desconfortável, que o calçado ortopédico é um exagero e que há muito mais do que aquilo que esperas naquilo que não esperas.

Perante a encomenda de uma certeza registada de garantias, apresenta a inconsciência mil vezes. Depois, à milésima primeira vez, quando esperarem que lhes apresentes uma canção ou um lápis, apresenta-lhes mesmo uma certeza registada de garantias porque tu sabes que só estarás errado se concordares com eles quando te acusam de erro, porque tu sabes e sais da tua comfort zone, assim mesmo, em inglês imperialista, para dares a tua pele à vida, às cicatrizes e às cócegas feitas com penas de pavão. Não tentas preservar o que tens porque sabes que não tens nada e podes sempre ter mais nada ainda. Quando deixas de fazer sentido, é porque foste capaz de encontrar um novo sentido e há muito boas possibilidades que esse sentido esteja enfeitado por canteiros de plantas necessariamente selvagens, onde a seiva corre desgovernada, feita de sol liquefeito, claridade liquefeita, incandescência tão limpa que cega."

José Luís Peixoto, Abraço

17 Agosto 2014

A nossa Vocação é a Fraternidade Universal


Os seres humanos apenas podem estruturar-se de modo equilibrado em contexto de fraternidade. Na verdade, a comunidade fraterna é o espaço privilegiado para o amadurecimento humano, pois não somos ilhas.

Eis alguns passos importantes para a pessoa poder moldar um coração capaz de comunhão fraterna:

- Tentar compreender o outro na sua realidade mais profunda e nas suas diferenças, pois a pessoa tem muita dificuldade em se realizar quando se sente rejeitada nas suas diferenças. Assim, por exemplo, uma pessoa não consegue dar-se se não se sente amada e valorizada pelos outros.

- É importante habituar-se a confiar nos outros e agir de modo a merecer a sua confiança. Guardar segredo sobre as comunicações e segredos que os outros nos comunicam é o que motiva a sua confiança.

- Estar atentos ao que os outros fazem e saber valorizar as suas realizações.

- Comunicar sempre numa linha de verdade e autenticidade.

- Compreender e aceitar a história pessoal das outras pessoas, a fim de os compreender e aceitar melhor.

- Tomar consciência de que os outros são um dom de Deus para nós. Na verdade só tornando-nos irmãos dos outros podemos ser filhos de Deus e, deste modo, fortalecer a fraternidade universal, o único jardim onde acontece a plenitude humana. É importante reconhecer que ninguém é bom em tudo, esforçando-se por aceitar as qualidades dos outros, a fim destas se tornarem carismas, isto é, dons para nós.

- Recordar-se que o Espírito Santo está nos nossos irmãos, tal como está em nós, compreendendo que nós não somos os únicos detentores da verdade.

- É importante estar disposto para falar quando é necessário e estar disponível para escutar, sinal de apreço e respeito pelos irmãos. Na verdade, quem se recusa a escutar os outros com respeito não merece ser escutado.

Espírito Santo,
ajuda-nos a construir um coração fraterno, 
a veste indispensável para tomar parte na Comunhão do Reino de Deus.
Ajuda-nos a ser construtores de fraternidade na História, 
pois esta é a maneira de sermos incorporados 
na Comunhão Universal da Família de Deus.





NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias

16 Agosto 2014

Este poema por acaso tem por título: 25 de Abril.
Mas para mim chama-se Páscoa.
E vocês, que nome lhe dariam?
Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo 

Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Agosto 2014

?



E porque nem sempre aquilo de que precisamos é de respostas...
A proposta de hoje é partilhar PERGUNTAS!

Que perguntas marcam a vida?


A vida é complicada? ou somos nós que a complicamos? às vezes é tão complicado ser simples
(Miguel Cardoso)

Existe um caminho para mim? Um único que me faz feliz?
(Fabi Mourinho)

O que raio existe dentro de nós que nos leva a procurar poder, prestígio e controlo na ilusão de isso nos vir a tornar felizes?! O que é preciso para nos libertarmos das manias e das imagens idolatradas que construímos de nós próprios?! As perguntas são minhas, são sobre mim. Se as faço em forma de "nós" é porque vou sentindo que estes problemas não são só os meus.
(Rui Santiago cssr)

Porque hoje são perguntas gostava de perguntar: Porque por vezes o que esta em mim me controla e não me deixa ser eu... quando dou por mim já esta, já foi, já saiu. que força é esta? é tão forte. ;-)
(Fátima Fontes)

Porque são as pessoas que mais próximo estão de nós, de quem mais gostamos, que mais nos desiludem e mais nos decepcionam? Porque é que tantas vezes somos nós próprios que erguemos os muros que nos impedem de ir mais alem?
(Anónimo)

Porque há pessoas que decidem por termo à vida quando à partida têm tudo para serem felizes, não valorizando assim o dom que é a VIDA?
(Anónimo)