30 maio 2015

Não Digas Nada!

"Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada"


Fernando Pessoa

29 maio 2015

Puf!

Bom Deus, porque é que uma pessoa que fala e lê muito sobre um assunto, entende mais da vida do que aquele que nada sabe?

Entenderá alguém mais da vida?
De quem?

Quando nos dizemos seres de amor, porque não entende mais da vida aquele que procura compreender e amar os outros do que aquele que discrimina, separa e julga (porque muito sabe?)?

Não saber nada da vida e mesmo assim viver em paz ainda é um grande problema...
Não somos capazes de viver em mistério... temos de saber tudo e defender o ideal/natural da vida... porque os outros, coitadinhos, não sabem...

Que pobres... quando apenas achamos a nossa realidade e falamos e comentamos a realidade dos outros.... e nos prendemos a isso!

Bom Deus, dá-nos menos palavras. Não nos deixes colocar os teus mandamentos na vida dos outros, como voz de comando...

Deixa-nos orientar a nossa vida através de ti e ser exemplo do teu amor para os outros. Só isso.. e parece que isso já é muito... é o trabalho de uma vida.


(é uma pena que tantas vezes sejamos o motivo de sofrimento de tantas pessoas, por discriminação e não aceitação daquilo que desconhecemos. E pior ainda, dizer. bom Deus. que foste tu que fizeste o julgamento. Melhor seria reconhecer a nossa fraqueza na aceitação da vida dos outros, quando diferentes.)


28 maio 2015

Baruk atá Adonai…

“ TUDO o que alimenta e faz feliz a Humanidade é corpo de Cristo!” Joxe Arregui



Partiu os pães e…ainda sobraram doze cestos… 
Marcos, 6, 41

Partiu-o e entregou-o aos discípulos dizendo: tomai e comei. Isto é o meu Corpo.
Fazei ISTO em minha memória… 
Lucas, 22, 19

Depois de o partir, entregou-lho. Então os seus olhos abriram-se e eles reconheceram-no!
Lucas, 24, 28-31


Assento a minha Fé na certeza de um Deus absolutamente Bom e Generoso…
Seduz-me um Jesus que sabe de Humanidade e, por isso mesmo, nos desafia ao Louvor, à Gratidão, à Memória e, no partir e repartir do Pão Se nos revela, revelando a vontade do Pai para o mundo… vontade que é também a dEle e há de ser (tem de ser!) a nossa:

- Que o Pão da Vida e da Alegria seja para TODOS!


Baruk atá Adonai Eloheinu Melek aholam amôtsi lehem min aharetz”

“Bendito sejas tu, Adonai, rei do mundo, que fazes sair o pão da terra”.


27 maio 2015

“Quero conhecer o Deus da Sulamita”



Aconteceu em Bissau. Ela foi encontrar-se a casa de um primo para seguirem depois para outro lugar. O primo demorava. Ela sentou-se e pegou numa bíblia que estava ali na sala. Os cristãos que conheci na Guiné têm o hábito de ler as escrituras, como quem petisca. Ela não era cristã e não conhecia a bíblia. Abriu ao calhas, e calhou o Cântico dos Cânticos. Começou a ler o elogio do corpo da amada, os suspiros dela pelo amado que chega saltitando sobre os montes, o coro das amigas da noiva que não entendem o porquê de tanto entusiasmo e de amor tão arrebatado.

Voltou à capa: “Bíblia Sagrada” era o que estava escrito. Voltou ao Cântico dos Cânticos, já não ao calhas. E não ao meio do livro, mas ao princípio: “Que ele me beije com os beijos da sua boca! As tuas carícias são melhores que o vinho… Arrasta-me atrás de ti! Vamos fugir! Que o meu rei me faça entrar nos seus aposentos…”

O primo chegou entretanto: “Vamos?”
“Posso levar a tua bíblia comigo?”

À noite leu o livro do Cântico dos Cânticos de um fôlego só. À luz da vela, claro, porque há sempre este romantismo num país onde quase não há luz elétrica. Dormiu mal. Quer dizer, ficou bem acordada. As palavras andavam-lhe às voltas dentro do corpo. Nessa noite decidiu tornar-se cristã. Foi há quatro anos. Foi baptizada na Vigília Pascal do ano passado. Contou-me esta história quando eu lhe perguntei porque se tinha tornado cristã. Chegou à intuição, naquela noite do Cântico dos Cânticos, que “um Deus que fala de amor assim, tem de ser O verdadeiro!” Foi assim mesmo, com estas palavras. “Quero conhecer o Deus da Sulamita.”

Começou o catecumenado e apaixonou-se quando lhe falaram de Jesus. Olha sempre para ele, até hoje, na perspectiva do Livro dos Amores que a converteu. O Deus que fala de amor assim, afinal, é o Deus de Jesus, e ele é a Palavra máxima desse dizer amoroso de Deus.

É uma mulher linda, já agora. Ainda não tem trinta anos e vende fruta na praça. O sorriso é de ouro e a Fé tem toda a energia e encanto de uma criança feliz.

Acho que a vou guardar para sempre no coração, porque me emocionou muito o click da conversão dela. Convertida pelos amores daqueles dois que fazem o Cântico dos Cânticos, repousa a sua Fé na certeza absoluta de um Deus que só é Bom e de um Jesus que é perito em Humanidade.

Faz-nos falta esta ternura, o encanto de quem ama, a evidência de sermos gente fascinada e acarinhada! Fazemos vezes demais da Vida Consagrada um lugar de vidas desgraçadas. Tornamo-nos pesados e sisudos, perdemos a graça e a beleza. É tão feio ser feio!

Há umas semanas, nas minhas andanças missionárias, pus-me a ler, num encontro de formação para catequistas, o Cântico dos Cânticos. Entre os risinhos e os comentários para o lado, algumas caras torcidas e um ou outro que se levantou, lembro-me melhor daquele que se foi embora desabafando: “Não vim aqui p’ra ouvir poesia!”

Somos uns toscos. Fazemos da Fé uma doutrina ou uma moral, um culto insípido ou um ritual de devoções, e depois vê-se na nossa cara que damos ares de gente mal amada. Há mulheres consagradas que explicam a sua vocação dizendo que se “casaram com nosso senhor”, mas quem as vê deve desconfiar muito desse marido, porque elas têm cara de gente que sofre de violência doméstica! Há homens consagrados que explicam a sua vocação como uma “doação total a deus e aos outros”, mas depois não conseguem não se comportar como solteirões embrutecidos, atabalhoados nas emoções e mais afectados que afectuosos.

Era tão bom se nos vissem como gente especializado em ternura! Gente d’amores e d’esperanças: essa é a nossa vocação. Consagrar-se é atrelar-se a um grande amor, dar-lhe trela e ir atrás. Preferia que fôssemos trapalhões no cerimonial litúrgico, mas fôssemos mestres nas coreografias do cuidado e da atenção aos outros. Preferia que nos enganássemos nas páginas e nas fitinhas todas dos breviários, mas conversássemos com Jesus com a naturalidade e o carinho com que se fala com quem se partilha vida, mesa e cama. Às vezes parece que ainda nos estorva o amor! Queremos mais ser sérios do que amáveis, e essa seriedade torna-se uma inimiga do Testemunho do Reino e da Alegria do Evangelho.

Deus sabe de Amor. A maior prova é Jesus. Amor que ganha corpo e voz e toque e pele e hálito e movimento de gente! Podemos levar a vida toda a perceber que não nos convertemos a Jesus por dever ou por repetição. A gente só se converte por fascínio! Mudamos quando nos mudamos para a vida de outro. Consagrar a Vida é “juntar os trapinhos”. 

“Um Deus que fala de amor assim, tem de ser O verdadeiro!”
Para quê escrever tanto? Está tudo aqui.

25 maio 2015

desafio

I bin sinta na no metadi!
Sentou-se no meio de nós!

Na Vigília de Pentecostes, a boa notícia da presença de Deus foi dita em crioulo da Guiné-Bissau. 

Os ouvidos estão muito acostumados ao “Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles“ (Actos 2, 3).

Mas, como nada nos falta desde que o Espírito do Amor de Deus foi derramado nos nossos corações, começou-se a falar outra língua: 

“Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, i bin sinta na cada um deles. “ 
Sentou-se.
Tomou assento.
Instalou-se.
Fez o seu lugar entre nós.

Nos primeiros dias, a Ruah movia-se sobre a superfície das águas. Mas, no tempo que vivemos – Hoje – o Espírito do Amor de Deus inflamou-se, fez morada e quer permanecer connosco.

Gostava de encontrar palavras para mostrar a beleza e a esperança que encontro nesta expressão em crioulo. Não podia guardá-la…

I bin sinta na no metadi!

Há um travo maternal e terno nestas palavras. A presença de Deus é anunciada com a proximidade, a familiaridade de quem se senta entre amigos. 
Nos momentos de dor, Ele está sentado connosco, no chão, suportando o silêncio, as ondas de aceitação e de revolta… que o diga Job. 
Depois de uma caminhada sem sentido, sem ânimo, Ele senta-se connosco à mesa para nos partir o Pão e reanimar a Esperança… que o digam os dois de Emáus. 
Quando o desejo de segurança nos arrasta para a rotina de sempre, Ele está sentado na margem da Vida, à nossa espera, para oferecer-nos o peixe fresco e o Amor da primeira hora… que o diga Pedro. 
Consta por aí que também costuma ser encontrado, pela torreira do sol, sentado junto ao poço, a meter conversa, a pedir água e matando sede (?!)… disso nada sei, mas dizem que acontece.

Ele está sentado. E nós?

O primeiro desafio dos Actos dos Apóstolos é este: não se afastem, esperem, permaneçam unidos, mantenham-se juntos em oração, dando voltas a tudo isto (Actos 1, 4). Por outras palavras: sentem-se uns com os outros.

Foi assim que o Espírito os encontrou - sentados - naquela Sala de Cima, onde tinham partilhado com Jesus o Pão, o Vinho, a ternura do acolhimento incondicional de quem se dobra para nos lavar os pés, as palavras e os gestos de quem quer deixar como única marca da sua vida a certeza do Amor.

Como poderiam afastar-se desse lugar? Era ali que tinham de permanecer – sentados uns com os outros – a alimentar a Esperança e a Convivência, até se tornarem um só corpo… Comunidade no mesmo Espírito! Nesse momento, sim, estavam prontos para abrir as portas e partilhar.

O primeiro desafio mantém-se hoje. 

É fácil ficarmos, só assim, sentados uns com os outros, a deixarmo-nos fazer?

A agitação que se instala, durante os momentos de silêncio de uma celebração, mostra como é difícil. No final, a serenidade insiste e vence sempre.

A pressa dos nossos cafezinhos, a necessidade de preencher o silêncio com palavras ou de entreter o olhar no telemóvel…

O medo da intimidade que nos preenche a agenda de compromissos… esvazia-nos por dentro, porque “uma só coisa é necessária” e aquela que se sentou aos pés dele escolheu a melhor parte. Sim, se o Espírito do Amor de Deus foi derramado nos nossos corações, nada nos falta e nada nos será tirado (Lucas 10, 38-42).

Obrigada.

23 maio 2015

poema de Amor

Ela
“Tu és belo, és o mais belo dos filhos do Homem
A graça se derrama dos teus lábios,
Por isso és o abençoado para sempre.
Deixa o teu povo e a casa de teus pais
De ti nascerão filhos para o teu lugar
E farás deles príncipes por toda a terra”

Ele
“A sombra das macieiras te fui despertar
do lugar onde foste concebida, te tirei
do lugar onde tua mãe te deu à luz.”

Os dois
“Põe-me como um selo em teu coração
Coloca-me em teu braço como um sinal
Porque o Amor é forte como a Morte”


                                  Cântico dos Cânticos (adpt)


22 maio 2015

O que Nasce?

Se eu minto e iludo, o que nasce de Novo?

Se eu não olho o outro como alguém digno de saber o que lhe diz respeito, ainda que me doa e enfraqueça um bocadinho, o que nasce de Novo?

Se não somos moradas de confiança o que nasce de Novo?

Afinal onde mora o Céu?


A pobreza e a humildade estão no centro da mensagem Evangélica.
E sem elas não se pode entender o Evangelho
Não se pode ver uma Boa Notícia a acontecer!


Acredito...assim...


21 maio 2015

- São sonhos, Senhor. São SONHOS!!!!

Ontem apeteceu-me matar saudades…  e lá morreram algumas, afogadas  numa açordinha alentejana: um daqueles  jantares de pobre, que são uma verdadeira riqueza: - pão seco de vários dias, água a ferver, um olho de azeite, alho, um molho de coentros…  nem há melhor nem mais barato!!! E, para peguilho fiz sonhos…



E já que falei em sonhos…
 Que nunca nos faltem SONHOS. GRANDES. MUITOS. LOUCOS. IMPOSSÍVEIS.
SONHOS daqueles que nascem no coração de gente que vive apaixonada pela vida… SONHOS que cheguem à boca e às mãos de muitos, numa cumplicidade que advém da força da partilha e do acreditar comum que nos faz surdos quando desdenhosamente nos chamam “sonhadores”.
SONHOS, sonhados como quem assenta as garras na rocha dura e com o bico pica estrelas verdadeiras
SONHOS que nos com-prometam na construção de um outro modo de ser mundo.
- Onde?
- Aqui!
- Quando?
- Agora!
- Como?
- Convertendo-nos em colo/solo onde a Palavra e o Silêncio germinem … e o fruto seja de palavras-semente sempre novas e gestos sempre redentores desta desHumanidade em que, parece, todos nos querem ver mergulhados…
- Vencendo  em nós o medo de podermos vir a ter que reconhecer passos mal andados e enganos…  E também o medo de, se preciso for, mudar de agulha e de carril…  
Cristãos sentados na soleira da vida que acontece se calhar ainda não entenderam nada de Jesus Cristo, aquele que passou a vida toda andarilhando e a meter-se em trabalhos… A pura espera não é cristã…
A Paz que Ele deixou aos discípulos naqueles dias de todos os medos, chega até nós abraçada a uma certeza de que não podemos abrir mão NUNCA:  
 - O Espírito Santo do nosso Deus foi-nos dado e é menino para se meter nos NOSSOS sonhos e, sem pedir licença, dar a volta a nós e a eles criando, entre NÓS, bonitas e inesperadas realidades… e capaz de pôr na nossa boca palavras que não são nossas mas de Outro…  e, em vez daqueles sonhos que nos fazem crescer água na boca, dar-nos SONHOS daqueles que afloram à tona da existência se mergulharmos, sem medo de perder o pé, na correnteza da Água Viva que é Jesus…



19 maio 2015

Fascínio e convivência.... as Horas que convertem.


Nós não mudamos por dever.
Mudamos por FASCÍNIO ou por CONVIVÊNCIA.

O evangelho de João é pródigo a narrar-nos este fascínio e esta convivência que convertem, como Horas grandes e densas. São horas de perguntas e horas de procuras novas... 


Ao ver que Jesus passava (...) os dois discípulos seguiram-no. Jesus voltou-se e, vendo que eles o
seguiam, perguntou-lhes: «Que procuram?» Responderam-lhe: «Rabi - que, traduzido,
significa Mestre - onde moras?» Disse-lhes: «Venham e vejam». 

Então eles foram e viram onde morava, e permaneceram com ele naquele dia. 
Era a hora décima, aproximadamente.
(Jo 1, 35-50)

É por volta da hora décima, a hora de recolher à intimidade da Casa que Jesus lança o desafio de ir e permanecer com ele. Morar com ele. Apanhar-lhe o jeito, o ritmo, os hábitos, entrar nas conversas familiares... Com-viver! Ser um com ele. 


Cansado da caminhada, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta da hora sexta.
Veio uma mulher, samaritana, que chegou para tirar água. E Jesus meteu conversa com ela...
... e depois dessa hora, a mulher, deixou para trás o cântaro e correu à cidade a dizer: «Venham ver um homem que sabe tudo de mim. Não será ele o Messias?»
e os discipulos estranhavam aquilo, mas nenhum tinha coragem de lhe perguntar: «que procuras?»
(Jo 4, 5-42)

É por volta da hora sexta, quando o sol está a pique e queima... na hora do braseiro, que Jesus põe o coração daquela mulher em brasa. E isto acontece junto ao poço (biblicamente, dos amores). Jesus mete conversa e deixa a mulher fascinada com o homem que sabe tudo dela e a faz ter outras sedes.


E é curioso que tanto numa como noutra Hora os relatos terminam num corropio, com gente a correr e a chamar outros... É que depois da Hora só pode dar nisto...
Não acreditam? Venham ver...

18 maio 2015

da luta à dança


Moving Stillness, Where Aikido meets Dance from yvette van der slik on Vimeo.


autoridade sem dominação

silêncio eloquente

compreensão 
mais do que conhecimento

ser
 sem o medo de tornar-se

não te deixo ir embora sem primeiro me abençoares 
Génesis 32, 27

Quando assisto à prática de aikido, lembro-me da luta de Jacob e de tantas outras lutas.

Há uma bênção reservada para quem revela as dúvidas, as incertezas, mesmo que isso implique confronto e incompreensão.

Há uma bênção reservada para quem rasga a máscara e os escudos de protecção, mesmo que pague o preço da vulnerabilidade.

Há uma bênção escondida nas nossas lutas e Ele está lá à nossa espera. 
Está de peito feito – e aberto – para suportar as nossas investidas. 
É Ele quem domina todos os reflexos. Sem se desviar, toca os pontos cruciais da nossa fragilidade… até que a luta dá lugar à dança e tudo se cala num abraço.

Vencidos pelo Amor, derrotados pela insistência da Ternura, recebemos um novo nome, gerado na luta que nos trouxe a Paz.

Qual é o teu nome?
Génesis 32, 28

15 maio 2015

Felizes os Perseguidos por Causa da Justiça

Felizes os que têm a capacidade de fazer rolar a pedra...
Os que levam gente atrás por terem feito diferente...
Os que acreditam na ressurreição e no nascer de um novo dia...

Porque esses têm o Reino de Deus!

Felizes os que transformam Justiça em Boa Notícia...
Os que se alegram com a justiça e se deixam tocar pelo injusto...
Os que caminham ultrapassando o medo...

Porque esses têm o Reino de Deus!

Felizes os que não alimentam mentiras...
Os que não enganam o coração ou contribuem para o mal dos dias...
Os que procuram a verdade...

Porque esses têm o Reino de Deus!

Felizes os que se sabendo fracos, procuram o melhor de si mesmos...
Os que agem em liberdade e responsabilidade para com todos...
Os que fazem o tempo cumprir-se HOJE MESMO...

Porque esses têm o Reino de Deus!



Felizes os perseguidos, os insistentes, os não desistentes, os que procuram... por causa da justiça!



Felizes os que se fazem felizes...
E levam uns quantos mais com eles...

Acredito... esse é o Reino!


14 maio 2015

- São pedras, Senhor! São pedras…



Há as pedras do rim e as da bexiga e, também as pedras que às vezes trazemos no sapato MAS… não são essas as pedras que, às vezes, nos entopem a garganta… piores que sapos… Falo de pedras como pesadelos tristes que empurramos dias afora… amargurados, entristecidos, vencidos…

E também daquelas pedras que, independentemente do seu tamanho, fingimos que não existem, tentamos varrer para debaixo de um qualquer tapete, escondido lá no mais fundo de nós mesmos. Por cima semeamos sorrisos amarelos, endireitarmos as costas e… ninguém vai dar por nada… eu sou forte!...

Mas vem sempre o dia em que as ditas pedras começam a gritar. E vale a pena viver esse dia com verdade… Sem fugas nem escondimentos… Vale a pena dar atenção… Vale a pena ouvir os sinais de alarme que o nosso próprio corpo nos dá e, sem medos, medir bem o peso e o tamanho dessas pedras recalcitrantes para percebermos se o esperar que passe é a melhor atitude… é que, na grande parte dos casos, sozinhos nunca seremos capazes de nos vermos livres delas...

 Normalmente, a lucidez que nos falta chega acoplada ao abraço de quem nos quer bem e, por isso, não cala as perguntas certas, descaradas e, por vezes, duras… a doer… a pisar em cheio onde estão as nossas feridas …onde nós menos queremos….
Não há que ter medo. Só quem nunca se engasgou não sabe como é libertador o soco certeiro que alguém nos dá nas costas…

Que nunca nos falte gente capaz de nos abrir os olhos para as nossas fragilidades e, de juntar as suas mãos às nossas numa força solidária que retire as pedras de debaixo do tapete e as empurre até que rolem do mais alto dos nossos montes.

E que MONTES!…  

É a nossa mania de que podemos tudo… e abarcamos tudo… e resolvemos tudo… e nada nos escapa nem cansa nem mete medo e… não há neste mundo e arredores quem nos bata em competências e capacidades…
São as dores escondidas, os medos e as inseguranças silenciados, as névoas futuradas a toldar-nos o presente que são estes nossos dias… as aflições de quem vive e não anda por aí por ver andar os outros

São as falhas e as culpas mal digeridas…as dores que não deixamos que sarem num pedido de desculpa ou num perdão consolador…  

São as incongruências que não queremos ver ou, vendo, não nos sentimos capazes de nos mudar nada… são as decisões que vamos protelando ou as que tomamos sem pensar duas vezes… porque a generosidade insensata só nos atrapalha a vida…

São os desacertos de que todos padecemos quando, como Paulo ou como Torga, nos macerarmos por fazermos o que não queremos, deixando ficar pelo caminho o que queríamos fazer… e por acertarmos onde não queríamos ferir… porque e as nossas setas passam sempre ao lado daquilo em que queríamos acertar…

São as dores e as nódoas negras dos tombos que damos sempre que nos propomos dar passos tão grandes que nem em espargata conseguiríamos dá-los…

Todos nós somos assim na nossa Humanidade em construção e…  BemDito seja Deus porque nos faz assim, inacabados e… BemDito seja Ele pela riqueza dos irmãos que, atentos, nos ajudam a perceber que estamos sempre a tempo de  mudar o que pode ser mudado e de aceitar, serenamente, o que não puder ser mudado…e nos apontam caminhos… e nos ajudam a calcorreá-los… porque “não há soluções, há caminhos”…


Então, capazes da verdadeira paz interior, poderemos florir de novo em roseiral e, dizer de coração refeito e sorriso feliz:
 - São rosas, Senhor! São rosas…


13 maio 2015

"É ELE!"


A experiência pascal não é uma experiência que nasce do “nada”. Quando os evangelistas contam estas coisas, não contam a partir do “0”. A Hora da Páscoa é sempre contada como a irrupção de uma lógica nova, um olhar novo para tudo o que estava para trás - e para a frente, claro! - e uma leitura da vida e destino de Jesus, não a partir da morte, mas a partir da lealdade de Deus. Por outras palavras: a releitura dos acontecimentos que se referiam a Jesus não a partir do veredicto dos poderosos de turno mas a partir do veredicto de Deus. 

A Páscoa é, com toda a força e novidade de uma experiência que anda não esgotámos, a revelação desse veredicto de Deus, mais poderoso e definitivo que qualquer outro: o veredicto sobre a vida de Jesus, sobre os seus gestos e palavras e esperanças e ousadias; e mais: o veredicto de Deus sobre o que foi feito com ele; um veredicto divino sobre os poderes deste mundo e a maneira de os pormos em prática; e um veredicto de Deus sobre as vítimas da História e sobre as injustiças que cometemos em nome de tantas coisas e de coisa nenhuma! 

Vere-Dictus… Dizer a verdade, dizer o verdadeiro… É da boca de Deus que sai a verdade sobre o mundo, não é a dos analistas com horário nobre nem dos “opinion makers” de todas as cores.



A experiência pascal é um acontecimento de perturbação, ao princípio, porque é uma intrusão na certeza que a morte traz às coisas, é um remexer inesperado de um assunto sobre o qual já tinham decidido pôr uma pedra… É um esgar de dúvida, primeiro, uma frincha de inquietação… Depois torna-se insinuação que abre brechas no corpo e na memória, mão de anjo que enrola panos de um lado e remexe memórias do outro, até se fazer palavra. A palavra muda tudo, claro está, porque nos mostra que, afinal, há alguém do outro lado. E a partir daqui… “É ele! Só pode ser ele…”

A experiência pascal foi para os amigos de Jesus uma revelação nova do Mestre, um desengelhar da memória, um desdobrar tão largo da convivência histórica que tinham tido com ele, que lhes deu de Jesus um olhar absolutamente novo e luminoso.



Vamos usar a metáfora das fotografias clássicas, em rolo: 
a vida pública de Jesus é a sua identidade e realidade, quem ele é e como é e o que fez da sua vida; 
a morte na cruz é o negativo da sua vida, a hora das trevas; 
e a ressurreição é a revelação de tudo isto, o clarão luminoso que mansamente atravessa o negativo da cruz para a encher de sentido e significados novos e nos dar um olhar todo novo também ao mistério da sua identidade, missão e destino.





10 maio 2015

como Jesus descobre a sua missão



Graças aos ensinamentos dos seus pais, o Menino Jesus sentia uma grande atracção pelas coisas de Deus e da fé. Como estavam cheios do Espírito, Maria e José tinham-no ensinado muito bem a rezar e a amar a Deus e aos irmãos. Além disso, ensinaram-lhe que Deus ama muito as pessoas humanas, apesar de estas fazerem muitas coisas erradas.

Como tinham muita fé, os pais de Jesus todos os anos faziam uma viagem a Jerusalém, a fim de celebrarem a festa da Páscoa no templo de Deus. Jesus ia sempre com eles. O evangelho de São Lucas narra um facto estranho associado a uma destas idas do Menino Jesus a Jerusalém quando ele tinha doze anos: quando as festas acabaram, Jesus não regressou com os pais seus pais mas ficou no templo a falar com os sacerdotes sobre o mistério de Deus e sobre o Messias que estava para chegar.
Como em Nazaré não havia sacerdotes, Jesus não quis perder a oportunidade de aprofundar os seus conhecimentos sobre Deus e o Messias. Quanto mais falava destas coisas, mais entusiasmado se sentia. Nessa altura, Jesus ainda não sabia que o escolhido para ser o Messias e o Salvador era ele mesmo.

Foi apenas pouco a pouco que o Espírito Santo lhe foi mostrando a missão e o plano que Deus Pai tinha para ele. À medida que ouviam Jesus, os sacerdotes estavam admirados com o facto de um menino de doze anos se interessar tanto pelos mistérios de Deus e do Messias e por ter uma compreensão tão perfeita do mistério de Deus e da missão do Messias. 

Admirados com as palavras de Jesus, os sacerdotes perguntavam-se sobre quem teria ensinado tanta coisa àquele menino. Os doutores da bíblia não podiam imaginar que o Espírito Santo estava a preparar o coração deste menino para realizar a salvação de toda a Humanidade. Entusiasmado com o diálogo sobre Deus e a Salvação, Jesus acabou por se perder dos pais. Por seu lado, os pais de Jesus, ao aperceberem-se de que ele não estava no grupo das crianças ficaram em grande aflição. Maria disse a José: olha que o nosso filho não está no grupo dos meninos. Naquele tempo os meninos e os adultos viajavam em grupos diferentes. 

Dominados por uma grande aflição e angústia, os pais de Jesus voltaram de novo a Jerusalém, a fim de procurarem o seu filho. E foi Assim que depois de muitas buscas vieram a encontrá-lo no templo todo entusiasmado a dialogar sobre as coisas de Deus. Depois deste incidente, Jesus voltou com os pais para Nazaré e ali continuou a crescer na sua estatura de rapaz e na sua capacidade de amar a Deus e aos irmãos.

Quando cresceu, Jesus foi baptizado por João Baptista no Jordão, o rio que atravessava o deserto.
Nesse momento, o Espírito Santo desceu sobre Jesus e Jesus descobriu com toda a clareza a sua condição de Messias e salvador da Humanidade. No momento em que saía do rio Jordão, Jesus viu o Espírito Santo vir sobre ele e ouviu a voz de Deus Pai que lhe dizia: Tu és o meu Filho muito amado.

Depois de ter descoberto a sua missão, Jesus ficou cheio de dúvidas sobre a maneira como devia realizar esta tarefa tão difícil e importante.  No tempo de Jesus havia várias ideias sobre a missão do Messias: para uns, ele devia ser um rei poderoso e dominador das pessoas; segundo outros, ele viria para fazer milagres e levar as pessoas a adorá-lo e a considerá-lo muito importante; outros ainda pensavam que ele viria para matar todos os pecadores, a fim de oferecer a Deus um mundo de gente pura, isto é, sem pecado.

Perante esta mistura de ideias contraditórias e confusas, Jesus decidiu retirar-se para o deserto, a fim de meditar e rezar em silêncio, pedindo ao Espírito Santo que o ajudasse a descobrir o plano e a vontade do seu Pai do Céu. No lugar do deserto havia um mosteiro, isto é, uma casa grande, habitada por muitos sacerdotes, os quais faziam oração várias vezes por dia e estudavam a bíblia. 
Jesus permaneceu perto desse mosteiro, fazendo meditação e pedindo a Deus que o ajudasse a compreender o modo como devia realizar a sua missão.

Jesus permaneceu no deserto durante cerca de trinta dias passando por muitas dúvidas e tentações. Mas por fim descobriu o modo como Deus queria que ele realizasse a sua missão de Messias. Eis as suas palavras: “O Espírito Santo está sobre mim. Consagrou-me para anunciar o Evangelho aos pobres e libertar os oprimidos. O Espírito enviou-me a fazer que os coxos caminhem e os cegos vejam” (Lc 4, 18-21).

A partir deste momento começou a ser muito claro para Jesus que a sua missão era edificar uma Nova Humanidade, fazendo de todos os seres humanos a Família de Deus. Como Deus é um Família de três pessoas, Jesus pensou em criar com os seres humanos a Grande Família de Deus constituída por milhões e milhões de pessoas. Deste modo, Jesus começou a introduzir as pessoas na Família da Santíssima Trindade: como filhas em relação a Deus Pai e como irmãs em relação ao Filho de Deus.
Para isso, Jesus começou a comunicar a força do Espírito Santo aos seres humanos.

Com o seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo começou a conduzir-nos a Deus Pai que nos acolhe como filhos e ao Filho Esterno de Deus que as acolhe como irmãos. Foi, pois, no deserto que Jesus compreendeu que tinha a missão de comunicar aos homens uma vida nova, isto é, a vida divina dos filhos de Deus. 

Cheio da força e da luz do Espírito Santo, Jesus ganhou grande coragem e começou a anunciar o plano de Deus em favor de todos os seres humanos. O Espírito Santo também deu a Jesus o poder de fazer milagres, a fim de fazer andar os coxos, dar vista aos cegos, tomar a defesa dos fracos e humilhados. 

Depois de vencer todas as dúvidas e tentações, Jesus descobriu uma coisa fundamental: o importante é servir a Deus, fazendo o bem e libertando os irmãos. 

Nós não precisamos apenas de pão para o estômago. Precisamos também do Espírito Santo e da Palavra de Deus para fortalecer o nosso espírito, a fim de ficarmos capacitados para o plano de Deus que fez de nós membros da sua Família Divina.






NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
Em Comunhão Convosco, 
Calmeiro Matias





08 maio 2015

Felizes os Construtores da Paz

Bom Deus dá-nos a TUA PAZ!

Não uma paz podre, não uma paz em repouso, mas uma PAZ VIVA!
A TUA PAZ

Aquela PAZ que contigo temos e que nos tira a necessidade de qualquer guerra...

A tua PAZ que nos dá tudo o que precisamos para estar em PAZ connosco mesmos e com o mundo...
Que nos concilia com os tantos mundos!

Para o teu Reino chamas construtores...
mas tantas vezes esquecemos que em linhas pequenas vem como requisito: da PAZ

Faz-nos construtores da PAZ
Porque esses serão chamados FELIZES!



07 maio 2015

Gente estranha esta!...

Há quem diga por aí que os cristãos são gente estranha…

Há os que dão crédito às maiores barbaridades, desde que venham com cheiro a religião e lhes digam que é a Igreja que diz ou que vem na bíblia… ele é um deus que faz milagres para certificar Santos para os altares ou, para mudar o curso do rio se eles quiserem  construir a casa no seu leito… ele são anjos e demónios, uns e outros com formas estranhas…etc. etc. etc…

Há os que acreditam num deus que lhes dá a provar, no prato da vida, os sofrimentos de que ele mais gosta e fica à espera a ver se os comem, calados e submissos, como bons meninos ou, se refilam como putos mal educados…

Há, também, aqueles que acreditam em reencarnações em água benta com poderes especiais… em visões… em velas acesas que os ajudam a passar no exame mesmo sem estudar… e temem pobrezas que acontecerão como vingança do céu a quem se atrever a cortar a cadeia das orações que, na sua volta ao mundo,  já deu riqueza a muita gente…

Há aqueles que sabem que o Homem é o ÚNICO sagrado que existe e, por isso, é sagrado todo o trabalho pela Justiça e pela Paz, e sagrada a sexualidade que se expressa no Amor e tantas outras realidades da Vida mas… há outros que sacralizam tudo -  vestimentas, rituais, imagens, dias e espaços onde encerram Deus e O separam do que acontece nos dias da vida – pondo fé para um lado, vida e opções para outro…

Contudo, estranhos, estranhos são os cristãos revolucionários! Aqueles que, dizendo acreditar num Deus que é Pai e é Amor e, fazer parte activa de uma Igreja a caminho, que se vai fazendo Una, Santa, Católica, e Apostólica, e Amorosa, e Acolhedora, e Compassiva, ao jeito do Mestre,põem um olho no telejornal e o outro no Evangelho, comovem-se activamente perante os escravizados deste século XXI e, ao mesmo tempo, rezam pelos traficantes de seres humanos e por todos os que de algum modo são agentes no mal e na ganância que destrói o Homem e o Planeta Terra onde ele habita…(Mt 5 e Rom 12, 9-21)

E são muitos os que dão, literalmente, a vida por ISSO que acreditam…

Olhando para estes, sinto que tudo o resto tem pouca importância…

Porque este é o tempo de não nos opormos ao Espírito, o tempo de nos convertermos a um modo novo de pensar e ser Igreja - menos sagrada e mais Humana… e de não nos contentarmos em trazer Deus no coração e na boca…


Que seja a nossa vida a proclamar um actual e bem audível “Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus”… gritado nas escolhas que fazemos e na não-violência que nos habita o coração…

06 maio 2015

"bonita que só ela!"


Estamos habituados a revoluções feitas com armas, 
que deixam um fio de sangue a escorrer no chão…

Estamos habituados a confiar nas mudanças que são impostas pela força, 
porque nos queixamos muito da violência mas é sempre a ela que recorremos 
quando queremos que as coisas fiquem diferentes…

É por isso que o Evangelho ainda nos parece tão estranho, às vezes…
Porque nos conta a história de uma revolução feita de ternura.
Porque o Evangelho nos conta a mudança mais decisiva que foi introduzida no mundo, 
mas é uma mudança selada pela mansidão e pela não-violência.

Era uma vez uma mulher, bonita que só ela, 
uma mulher que vivia numa aldeia pequenita da Galileia chamada Nazaré, 
e ficou para sempre ligada à história que muda a história! 
O nome dela era Maria 
e foi da sua boca que nasceu o hino mais revolucionário que se tinha ouvido alguma vez. 

Foi uma exultação de alegria, 
porque há revoluções que nascem da Felicidade!
Foi um clarão de Esperança, 
porque há revoluções que nascem de uma Promessa!

Era uma vez uma mulher, bonita que só ela, 
que sentiu a vida visitada pela bondade de Deus 
e, por causa disso, abriu as portas e percorreu os montes. 
Era uma vida d’esperanças, semeada de futuros, 
e dentro de si uma Palavra ganhava corpo.

Foi ela quem ouviu a primeira Bem Aventurança do Evangelho:
“Feliz de ti que acreditaste que vai cumprir-se tudo o que foi dito da parte do Senhor!”
Por isso mesmo, ela cantou logo depois: 
“De hoje em diante, todas as gerações me chamarão FELIZ!”

Era uma vez uma mulher, bonita que só ela, 
que era uma pessoa feliz por causa da Esperança que Deus encontrou nela e por causa da Confiança que ela encontrou em Deus.

Voltamos o nosso rosto para Maria 
porque queremos aprender dela a coisa mais importante de todas: 
que Esperança é essa, 
que Confiança é essa, 
que faz de ti “Maria Feliz”?







04 maio 2015

trespassados

Esta noite tem de ser assim. 
Partilho um texto do Abrigo dos Sábios, 
de Paulo Costa.

«E é por isso que, no fundo, não tenho por mim mesma mais do que um interesse limitado. Tenho a impressão de ser um instrumento através do qual passaram correntes, vibrações. Isto é válido para todos os meus livros e direi mesmo que para toda a minha vida. Talvez para todas as vidas; e os melhores de nós talvez não sejam, também eles, mais que cristais trespassados. 
Assim, a propósito dos meus amigos, vivos ou mortos, repito-me muitas vezes a frase admirável que me disseram ser de Saint-Martin, “o filósofo desconhecido” do século XVIII, tão desconhecido de mim que nunca li uma linha dele e nunca verifiquei a citação: “Há seres através dos quais Deus me amou.” Tudo vem de mais longe e vai mais longe que nós. Por outras palavras, tudo nos ultrapassa e sentimo-nos humildes e maravilhados por termos sido assim trespassados e ultrapassados.»

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos