20 Abril 2014

No Primeiro Dia da Semana...



Segundo os ensinamentos de Jesus, o amor atinge a sua profundidade máxima 
quando a pessoa se dispõe a dar a vida pelas pessoas que ama.
Quem ama até à morte nasce para a plenitude da vida.
Felizes as pessoas que sabem gastar a vida pelas causas do amor
mesmo que essa opção de vida faça com que a morte chegue mais cedo.
Para estas pessoas, a morte final não tem qualquer sentido 
de uma tragédia sem saída.

Os que decidem gastar a vida pelo amor
vão morrendo todos os dias ao homem egoísta que há em nós.
Este homem egoísta converte a ideia da morte 
num fracasso e numa tragédia.
Morrer para dar vida é a maneira mais perfeita de viver
e o nosso ser interior rebenta os muros da finitude 
que o nosso ser exterior lhe quer impor.
Com efeito, o Homem Novo não pode nascer
sem que o velho vá morrendo, pois a Vida Nova não nasce
sem que a velha vá gastando pelas causas da fraternidade e do amor.

Há seres humanos que vão renascendo todos os dias para a plenitude da vida, 
pois sabem morrer em cada dia às forças negativas do egoísmo.

Sabemos que não há ressurreição sem morte.
Ou melhor, que é no próprio acto de morrer que a Ressurreição acontece,
graças ao Espírito de Cristo Ressuscitado.
A razão da nossa vida na história
não é apenas prolongar o mais possível a vida mortal,
mas para construirmos a vida eterna.
Por outras palavras, sábias são as pessoas
que sabem aproveitar a vida presente para construir a vida futura.

Graças ao mistério da Encarnação,
a salvação já está ao nosso alcance!
O Filho de Deus fez-se nosso irmão,
a fim de nós sermos membros da Família Divina.

Com seu jeito maternal de amar, O Espírito Santo configura-nos interiormente com Cristo
e introduz-nos na Família Divina (Rm 8, 14-17; Ga 4, 4-7).
Graças a Cristo Ressuscitado,
voltamos a ter acesso ao fruto da Árvore da Vida
do qual tínhamos sido privados por Adão (cf. Gn 3, 22-24).
Do Novo Adão, Cristo ressuscitado, veio o Homem Novo,
espiritual e membro da Família de Deus (Rm 5, 17-19; Rm 8, 14-16).
Ele é a cabeça da Nova Humanidade
e o medianeiro da reconciliação universal com Deus (2 Cor 5, 17-19).

Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias


18 Abril 2014

Onde está o teu Deus?



Deus não está em baixo na Terra
Ele está no alto do Céu.

Porque nos cobre como um manto
E quer ser motivo nosso para caminharmos de cabeça erguida.
Ele quer que em cada passo o tentemos tocar
E assim fazer-nos viver de braços abertos e estendidos.
Ele quer que quando nos deitemos cansados sobre o chão,
Que não nos esqueçámos do pallium
E de que até à (e na) morte ele continua a ser o nosso tecto
Que transforma a chuva em canção.

Deus está no alto do Céu
Porque nos puxa para cima
E nos leva a voar como as águias.



Deus não está no alto do Céu
Ele está em baixo na Terra.

É seiva do tronco que somos
É a vida que nos corre por dentro.
E que não nos permite esquecer a nossa raiz.
Quando o machado embate contra o tronco
É ele quem transborda para fora e como saliva nos sara...
De dentro para fora vai-nos curando, cuidando de nós
Que somos ramos do seu Povo amado
Por quem se baba de ternura e adorna cada manhã de flores.

Deus está em baixo na Terra
No lugar daquele irmão que nos lava (não só os pés)
E que procura mil e uma maneiras
De nos ir limpando as poeiras pelo caminho.
É ele quem nos acolhe em cada chegada, porque nos tem amor
E um amor não desistente porque Espera em nós e de nós sempre o melhor...
Porque nos quer bem e é leal até à última hora.



Deus não está em baixo na Terra
Deus não está no alto do Céu
Deus está na Terra e no Céu, porque não se pode separar
Quando na verdade ele está no meio de nós!

"Pai chegou a hora de dizer bem de ti sem dizer uma palavra;
Pai é esta a hora, de fiar-me de ti sem fazer contas ao medo..."



17 Abril 2014

A mesa... à MESA...


“… tenho desejado tanto comer convosco esta Páscoa mas… a mão daquele que me vai entregar está comigo à mesa. E eles começaram a perguntar-se qual deles…?”



A mesa… é um lugar. MAS… não só… À volta da mesa nos sentamos a comer, a beber… MAS… Muito para além disso, à MESA a Vida acontece e mostra-se sem máscaras nem travões…

Da mesa fazemos MESA... celebramos a Vida e fazemos a Festa… Contamos histórias novas e velhas…
À MESA recebemo-nos amigos e FAZEMO-nos  irmãos…

À MESA a divisão ou a Comunhão, o ódio ou o Amor a si mesmos se retiram todos os véus…
A intimidade ou a inexistência dela é aí que se despem e se apresentam na mais inteira nudez…

Talvez por isso, tanto podem acontecer silêncios pesados e densos… mortais… como Silêncios que dizem a Comunhão que não precisa de palavras…

Se é verdade que, à MESA, homens e mulheres se dizem no melhor do Amor e do Cuidado, também é verdade que, quando o desencontro anda nos ares, os ciúmes calados e as acusações remordidas, mesmo que enterradas num poço sem fundo, aproveitam as brechas e saltam…

E podem voar pratos e copos… E gritar-se palavras que há muito deixaram de ser entendíveis…  E tudo isso se vai estatelar, desenhando no ar e no chão, o retrato/relato de vidas e relações em estilhaços…

Imagino como seria latente e clara, essa dualidade - intimidade / constrangimento - naquela última ceia que Jesus tanto quis comer com os seus discípulos, os íntimos, os amados, os do seguimento

Àquela MESA, partilhando o pão e o vinho, estavam corações apertados, insinuando traições… estavam sentimentos escondidos e consciências pesadas…

à volta da mesa podemos estar todos sentados MAS… Quantas vezes isso quer dizer que a Vida entre nós  se experimenta e se quer como Comunhão?

16 Abril 2014

Semana Maior, Semana Santa, Semana Grande


É com estes nomes que, desde as origens, falamos destes dias. São dias que não cabem nas contagens do costume. São dias que se ligam uns aos outros e se entrelaçam no fio condutor de uma Narrativa de Paixão, quer dizer, de Amor desmedido, sem razões nem condições, sem limites nem desistências.

Deixar-se atrair por Jesus, durante esta Semana Maior, é perceber que a nossa Vocação é o seu Destino. Em Semana Maior, quando fazemos memória de como todo o Evangelho de Jesus lhe foi escrito no corpo, toda a sua Mensagem lhe foi gravada na pele, dispomo-nos a pôr a vida a jeito para que o Evangelho de Jesus se inscreva em nós com letras grandes. É isso uma Semana Maior: uma experiência maiúscula de encontro com Jesus, Palavra inteira de Deus a inscrever-se em nós pela acção paciente do Espírito Santo.



15 Abril 2014

Comunidade Cristã


Comunidade Cristã, sinal da presença de Deus no mundo:
alimenta-se da Palavra de Deus, 
dá testemunho de Cristo, 
celebra o Memorial da passagem de Cristo para o Pai, 
caminha no Amor 
e é animada pelo Espírito que a Envia.
 (constituição 12 da CSsR)

14 Abril 2014

No Segundo Dia da Semana...

Peço desculpa por quebrar o silêncio, mas hoje é dia de fazer memória e de agradecer.

"Ela fez o que podia. Antecipou-se... em todos os lugares do mundo, onde for anunciada esta boa notícia, será também contado o que ela fez" (cf Mc 14, 8-9)

... e eu obedeço.

Naquele dia, Maria partiu um vaso de nardo puro e derramou-o sobre Jesus.
Permanece a memória de um gesto que surpreendeu todos pela urgência de amar.

Os momentos cruciais surpreendem-nos sempre. Nunca estamos preparados.
Felizes aqueles que se antecipam. 
Ai daqueles que esperam o momento da despedida para se fazerem presentes.
Felizes aqueles que se entregam, em gestos de cuidado e de ternura. Não mudam o curso da história, mas dão sentido aos dias e ajudam a suportar as horas maiores.
Ai daqueles que se guardam.
Felizes os que amam. Felizes os que nos visitam a horas inesperadas. 


Naquela noite, entregou à Mãe uma cruz igual a esta, embora fosse mais pequena. Cabia na palma da mão. Acompanhava-a há mais de 20 anos. Os bordos esbutenados (como se diz na terra do Pai) acusavam as vezes em que, nos mais diversos lugares, a tirara do bolso ou da carteira para deixar-se olhar por Aquele Olhar.
Naquela noite, entregou a cruz para fazer companhia à Mãe que tinha uma longa vigília pela frente. Mais tarde, pelas 3 horas da madrugada, a cruz passou para as mãos do Pai, como sinal de amor presente e mais forte.
Naquela noite, não tinha perfume. Já tinha dito todas as palavras. Só havia silêncio e amor. Só te tinha a Ti, o Único Bem. E foste Tu, o Teu Amor, o bálsamo derramado.



13 Abril 2014

No Primeiro Dia da Semana...




Amar é a razão que vale tanto para viver como para morrer. Por isso o Amor é maior que a morte. Mas também é maior que a vida.

O ser humano só pode transcender a lei da morte através do Amor.

O Amor é mais forte do que a morte, na medida em que faz emergir o nosso Eu pessoal-espiritual, o qual não está sujeito à lei da morte.

O Amor é mais forte do que a vida, pois leva a gastar a vida pelos outros. É razão para viver e para morrer.

Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias

12 Abril 2014

hino ao Amor

Se eu tivesse em mim
todas as emissoras,
os palcos de rock do mundo inteiro,
os altares e as cátedras
e os parlamentos todos, mas não tivesse Amor,
seria... apenas ruído, ruído no ruído.

Se tivesse o dom de adivinhar
e o dom de encher os estádios 
e de fazer curas milagrosas
e uma suposta fé, capaz de transportar
qualquer montanha,
mas não tivesse Amor,
eu seria apenas... um circo religioso.

Se eu distribuísse
em cabazes de Natal
e em badalados gestos caritativos,
os bens que ganhei - bem? mal? quem sabe? 
quem não sabe? - 
e fosse até capaz de gastar a minha saúde 
para ser mais eficiente, mas não tivesse Amor,
eu seria apenas... imagem entre imagens.

Paciente é o Amor e disponível,
como um regaço materno.
Não tem inveja nem se vangloria.
Não procura tirar juros como os Bancos,
sabe ser gratuito e solidário, como a mesa da Páscoa.
Não pactua com a injustiça, nunca!
Faz a festa da Verdade.
Sabe esperar, forçando impertinente
as portas do futuro.

O Amor não passará, mesmo que passe
tudo o que não é ele.
No entardecer da vida
o Amor nos julgará.

Criança é a ciência e anda de gatinhas;
criança é a lei; o dogma, brinquedo.
O Amor já tem a idade sem idade de Deus.
Agora é um espelho a luz que contemplamos;
um dia será o Rosto, face a face.
Veremos e amaremos
como Ele nos vê e ama.

Agora são as três:
a fé, que é noite escura;
a pequena esperança, tão tenaz;
e ele, o Amor, que é o maior.
Um dia, para sempre,
para lá da noite e da espera,
será só o Amor.

Pedro Casaldáliga

11 Abril 2014

Tarde

Gosto muitos dos fins de tarde...

Não porque são o começo de nada, nem tão pouco o fim...
Mas antes, porque são reflexo de um momento onde as coisas acontecem e se dão e onde se faz caminho...

É ao fim da tarde que se regressa a Casa!

De cor alaranjada são chamados de fim, não porque terminam algo mas, porque encerram em si uma enormidade de sentido e vão traçando os primeiros passos de um futuro...

A Esperança vive escondida nos fins de tarde...
Carrega aos ombros uma história feita de luz e estica os braços para abraçar a noite!

Ela não vive de ilusões...
Sabe que a noite chegará e que apenas entrando nela poderá ver o dia nascer, de NOVO!

O fim da tarde é sinónimo de conforto...
É uma barriga cheia de laços criados por, e entre irmãos, e uma cabeça "arrumada"...

É o lembrete, de que há um horizonte, que nos faz querer olhar à volta com sabedoria...
Não um lembrete para correr, mas antes para limpar os olhos a cada passo do caminho.
Porque há muito para ver, porque se faz tarde!...

Gosto muito dos fins de tarde... porque sabem a convite!

Páscoa? Talvez chegue num fim de tarde...



 

10 Abril 2014

Novidade… Desassossego… Loucura… Subversão…

Onde nos leva esta Palavra Fogo que nos incendeia por dentro e vai, devagarinho,  reduzindo a cinzas o Homem Velho que teimamos em deixar que nos habite?

Onde nos leva esta Palavra Água que nos inunda e nos faz mergulhar fundo na Vida de um Outro?

Onde nos leva esta Palavra Vida capaz de fazer de nós “memórias vivas” dEsse tal Jesus e gerar em nós coisas tão novas, tão novas… tão admiravelmente NOVAS que não nascem de nós, nascem do Seu Espírito?

Que Palavra Loucura é esta que nos leva a querer viver permanentemente esfomeados e sedentos de Justiça, com a compaixão, a excentricidade e a mansidão à flor da vida?


A que extremos de radicalidade estamos convocados por um Baptismo que nos “agrafa” à Vida “pouco séria” de um HOMEM - “tão Humano, tão Humano que só pode ser Deus” - LOUCURA para uns, ESCANDALO para outros…?

                                                                                                                                          eric johansson

09 Abril 2014

por onde começamos a conversa sobre Deus?



Situo-me na experiência da Tradição Judaico-Cristã. Isto é, considero-me cidadão da Bíblia, o que se conta lá é saboreado por mim como a narrativa dos meus antepassados. É de mim que fala a Escritura Bíblica, não porque é a minha religião que diz assim ou porque eu tenho que aceitar isso como um dever moral… 

É de mim que fala a Escritura Bíblica porque fui tendo oportunidades de experimentar que essa Escritura como que revela a Inscritura de Deus em mim, o texto cheio de sentido que se inscreve no contexto concreto, real, umas vezes bem feliz e outras com as pontas todas mal amanhadas do que eu vou vivendo.

Dou-me conta que penetrar na Escritura Bíblica, livre já da crença em fábulas e literalismos infantis, coincide com o que há de mais real em mim, livre também das mentiras que gosto de contar a mim próprio e das fábulas que me dá jeito inventar acerca da minha vida e motivações para me livrar do risco de ter de mudar ou arrepender-me.

Adiante. Inserir-me na Tradição Judaico Cristã dá-me dois horizontes de Fé fundamentais.

O Judaísmo iniciou uma silenciosa revolução nas nossas conversas sobre divindades, uma revolução chamada Monoteísmo. Todas as elaborações religiosas eram politeístas e imaginavam os deuses como projecções dos homens: infalivelmente, rascunhavam uma Divinolândia que era uma espécie de mundo paralelo ao nosso, verdadeiramente uma reflexão do nosso. E os deuses funcionavam entre si, casando e traindo-se, conquistando-se e guerreando-se, fazendo aliados e inimigos, chorando de amores uns pelos outros e fumegando de ira uns contra outros. Os homens, espectadores destas coisas.

Mas um Deus único é Alguém que não tem outros deuses para se entreter nem se perder… É a novidade de um Deus voltado para nós! O anúncio de um Deus Único é o anúncio de um Deus para nós! Um Deus único é um Deus connosco. O Céu inclinou-se, Deus fez-se Graça, isto é, inclinação maternal… Hanah, em hebraico… como Emunah, Fidelidade, Fé, que vem de Omen (mãe ou ama que leva ao peito) e Amun (criança de peito, levado ao colo).



O Cristianismo depois seguiu esta intuição, aprofundou-a mais, descobriu-a gravada em traços fundos nos gestos de Jesus. E o cristianismo, desde bem cedo, logo na primeira geração, passou por uma dificuldade interessante: sem deixar de crer num Deus Único, voltado para nós e connosco, deixámos de conseguir dizer a nossa Fé fora da gramática da relação. Porque o Deus em quem acreditamos é aquele de Jesus, que é Filho dele… a cara chapada um do outro, tal Pai tal Filho… num Espírito que é igual aos dois! De maneira que a Fé começa a dizer-se assim: Creio em Deus que é Pai, em Jesus filho dele, e no Espírito dos dois!

Só entendemos quem Deus é na sua relação com Jesus, e só entendemos que Jesus é e o que faz na sua referência a Deus, como um Filho que sai ao Pai. E isto só se vislumbra no Espírito dos dois, no Amor que os põe em Comunicação-Comunhão face-a-face.

Esta linguagem trinitária da Fé Cristã sussurra-nos uma ousadia muito grande: não devemos mais falar do divino como um sujeito, mas como uma comunidade! O Mistério de Deus, em Si mesmo, é comunhão, porque Deus não é só uma pessoa e muito menos uma pessoa sozinha! O divino solteirão é um mito de mau gosto, o que costuma dar sempre um "deus" de maus fígados.

Então, o Monoteísmo que vinha já da tradição judaica é uma sinfonia que começa a compor-se em compasso ternário: o Pai, o Filho que sai a ele e Espírito que é dos dois.



Resumindo: o Judaísmo ensinou-nos que Deus é Alguém voltado para nós, um Mistério de Comunicação. O Cristianismo deu um avanço mais nesta linguagem, e afirma que Deus, em Si mesmo, é um Mistério de Comunicação. O Pai não se entende sem o Filho, o Filho não se entende sem o Pai, e o Espírito não se entende sem ser lugar pessoal de encontro entre os dois. 





08 Abril 2014

Na cozinha

Caros leitores,
É com gáudio que vos anuncio que recuperei a password daqui do estaminé à intrépida da minha esposa.
Aproveito também para vos informar que a coloquei de castigo na cozinha pelo acto de insubordinação perpetrado.



E já agora, por falar em cozinha...
Ninguém pode negar que a Convivialidade do Reino de Deus, inaugurada em Jesus, se concretiza de maneira muito especial e insistente, à Mesa. As inúmeras referências a banquetes, refeições, selecção de convidados e alimentos, ao longo dos evangelhos, são a prova disso.

E no meio disto tudo, onde anda o Senhor Deus?
Consta que Teresa d'Ávila dizia que Deus anda na cozinha, no meio dos tachos e das panelas.

Ora, eu propus-me a investigar se esta afirmação ousada tem fundamento na narrativa bíblica e parece que sim...

O Senhor dos Exércitos prepara para todos os povos um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos.
Is 25, 6

Tu preparas para mim uma refeição, à frente dos que me oprimem
Sl 23, 5

Um Senhor deu um grande jantar e convidou a muitos... 
Parábola do banquete do Evangelho de Lucas, Lc 14, 15-24

Então de facto, enquanto o Filho se senta à Mesa com todo o tipo de gente e desafiando todas as normas de pureza e impureza do sistema social e religioso, anunciando e concretizando o perdão de Deus... O Pai anda silenciosamente atarefado na Cozinha a preparar tudo!
Parece que Ele mesmo, sairá depois, e passará pela Mesa, a enxugar as lágrimas de todos os rostos (Is 25, 8; Ap 21, 4)

(Bolas!! o que é que fui fazer? Se calhar é melhor ir tirar a minha mulher da cozinha...)

Bem, proponho-me a terminar em jeito de oração, com aquela que Jesus ensinou aos seus discípulos,
Pai Nosso que estás na cozinha...

07 Abril 2014




Eu sou...
Sou água, praia, céu, casa branca
Sou mar Atlântico, vento e América
Sou um monte de coisas santas
Misturadas com coisas humanas
Como te explico... coisas mundanas

Fui criança, berço, tecto, manto
Mais medo, cuco, grito, pranto, raça
Depois misturaram as palavras
Ou desviaram-se os olhares
Algo aconteceu... não entendi nada

Vamos, diz-me, conta-me
Tudo o que está acontecendo contigo agora
Porque senão, quando a alma está sozinha, chora
Deve-se arrancar tudo para fora, como a primavera
Ninguém quer que algo morra por dentro
Falar olhando nos olhos
Arrancar tudo que se pode para fora
Para que dentro nasçam coisas novas

Sou pão, sou paz, sou mais
Sou a que está por aqui
Eu não quero mais do que queiras dar,
Hoje se dá, hoje se tira
Igual à margarida, igual ao mar
Igual à vida, vida, vida, vida

Vamos, diz-me, conta-me
Tudo o que está acontecendo contigo agora
Porque senão, quando a alma está sozinha, chora
Deve-se arrancar tudo para fora, como a primavera
Ninguém quer que algo morra por dentro
Falar olhando nos olhos
Arrancar tudo que se pode para fora
Para que dentro nasçam coisas novas

Coisas novas, novas, novas, novas

06 Abril 2014

a Esperança ilumina o caminho da Vida

Photo © 2012 “Mike” Michael L. Baird
A esperança cristã confere ao crente um sentido de vida que o capacita para ver os outros como membros da  Família de Deus.

A esperança é uma certeza assente não na evidência, mas na fé de que a fidelidade de Deus não nos desilude.

Mesmo nos momentos de dificuldade, a esperança dá-nos a certeza de que não estamos sós, pois o nosso Deus é fiel e verdadeiro.

Quando tomamos Deus a sério e confiamos nele sentimo-nos mais tranquilos, pois sabemos que o Senhor faz maravilhas em nosso favor.

Eis o que o Espírito Santo disse a São Paulo, uma vez em que ele estava desanimado por causa da sua fragilidade:

“Basta-te a minha graça, pois o meu poder libertador é perfeito quando se trata de ajudar a fraqueza de alguém” (2 Cor 12, 9).

Durante a última Ceia, Jesus fortalece a confiança dos Apóstolos, pois eles estavam com medo de ficar sós após a partida de Jesus.

Eis as palavras de Jesus: “Agora estais abatidos, mas ver-vos-ei de novo e haveis de vos alegrar e já ninguém poderá tirar-vos a vossa alegria” (Jo 16, 22).

A Carta aos Colossenses dá-nos uma norma sábia para nos tornarmos fortes na esperança:
“Colocai a vossa mente nas coisas do alto e não apenas nas coisas terrenas” (Col 3, 2).

Quanto mais a nossa mente e o nosso coração se deixam possuir pela Palavra de Deus, mais o Espírito Santo nos transforma e torna semelhantes a Jesus.

A nossa esperança dá-nos a certeza de que estamos a caminhar para Deus que é a fonte da plenitude humana.

Eis as palavras do Apocalipse a este propósito: “E vi descer do Céu de junto de Deus, a cidade santa, a Nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo.

Depois ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: “Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles e eles serão o seu povo.

Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele mesmo enxugará todas as lágrimas dos seus olhos.

Não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor porque as primeiras coisas passaram.
E o que estava sentado no trono afirmou: eis que eu renovo todas as coisas” (Apc 21, 2- 5).

No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias



05 Abril 2014

Poeta? Eu?

E hoje faremos algo diferente...
Vamos ver quanto temos de poeta!

A ideia é que cada um dê seu contributo para um poema que no final será de todos.

O primeiro a comentar escreve dois versos e os restantes igual, de forma a conseguirmos construir um poema com várias estrofes de quatro versos cada...

Vamos a isso?
Veremos se corre bem, nada como experimentar!



  1. Cada desafio é uma desinstalação,
    cada convite é uma brecha aberta para sair de si

    E nesse sair de si
    Acontece o milagre do encontro

    Acontece o milagre do Abraço,
    Da vitória da CONfiança sobre os nossos medos.

    As lágrimas outrora amargas,
    Tornam-se gotas de sete esperanças!

    Dúvidas e indecisões desaparecem,
    Quando o amor nos transforma e nos enche!

    Na intimidade mais profunda da alma,
    Brilha fortemente, a Luz que nos leva à real felicidade

    Unidos em ORAÇÂO,
    que sempre nos renova e fortalece!

04 Abril 2014

11


"Um anúncio renovado proporciona aos crentes, mesmo tíbios ou não praticantes, uma nova alegria na fé e uma fecundidade evangelizadora. Na realidade, o seu centro e a sua essência são sempre o mesmo: o Deus que manifestou o seu amor imenso em Cristo morto e ressuscitado. Ele torna os seus fiéis sempre novos; ainda que sejam idosos, «renovam as suas forças. Têm asas como a águia, correm sem se cansar, marcham sem desfalecer» (Is 40, 31). Cristo é a «Boa-Nova de valor eterno» (Ap 14, 6), sendo «o mesmo ontem, hoje e pelos séculos» (Heb 13, 8), mas a sua riqueza e a sua beleza são inesgotáveis. Ele é sempre jovem, e fonte de constante novidade. A Igreja não cessa de se maravilhar com a «profundidade de riqueza, de sabedoria e de ciência de Deus» (Rm 11, 33). São João da Cruz dizia: «Esta espessura de sabedoria e ciência de Deus é tão profunda e imensa, que, por mais que a alma saiba dela, sempre pode penetrá-la mais profundamente». Ou ainda, como afirmava Santo Ireneu: «Na sua vinda, [Cristo] trouxe consigo toda a novidade». Com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. Jesus Cristo pode romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e surpreende-nos com a sua constante criatividade divina. Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual. Na realidade, toda a acção evangelizadora autêntica é sempre «nova»."

da Primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco


03 Abril 2014

O SEXTO DIA… na primeira pessoa....



Eu era um dos muitos impuros que vivem nas margens de tantos caminhos.
Cego e por isso pobre. Invisível e impuro como todos os pobres. Escravo sem Senhor nem Dono…

Os próprios muros da cidade me negavam a sombra protectora. O meu lugar era fora deles…Como o lixo...
Os cães, tão vadios como eu, ladravam à minha passagem. Os garotos atiravam-me pedras. Gozavam-me. Riam-se de mim.

A cegueira dos meus olhos era culpa dos meus pecados. Ou dos pecados de um qualquer dos meus antepassados… Sei lá!...
Até ÀQUELE DIA

Sempre tinha sentido na pele que a cegueira dos olhos é triste mas não é desHumana. A cegueira do coração, essa sim! Escraviza pessoas e povos. É geradora de leis e políticas desfocadas da Bondade e da Verdade. É criadora de injustiças. Alimenta a desGraça…

Já várias vezes ouvira falar das andarilhanças de um tal Yeshu - cheias de Estórias de curas, de demónios que à sua passagem fugiam espavoridos, de relatos de multidões atrás – uns, para O ouvirem encantados, outros, a mando dos poderosos, para O apanharem em falso…
E, eu pensava cá p’ra mim: - “É sempre assim! Os fortes e poderosos são uns fracos! Para resolver as suas questões mandam “capangas” em seu lugar… Este é cá dos meus - um sem eira nem beira!...

Dessa “afinidade” nasceu o desejo e a coragem de me aproximar dEle.
Medo? De quê? Quem nada tem nada teme!
   
Então, procurei aquele encontro e… aconteceu.
Só que tenho a certeza de que nAQUELE DIA não fui eu que O encontrei, foi Ele que me encontrou a mim pois, pelo que dEle tinha ouvido dizer, o Yeshu passa(va) a vida à procura daqueles que anda(va)m perdidos nas bermas e nas valetas de TODOS os caminhos…

Das duas procuras nasce um tempo novo – uma reviravolta que nos torna desconhecidos aos olhos dos outros e (espantem-se!) aos nossos próprios olhos…

Não foi a curiosidade que me levou a esperar, sentado na berma do caminho onde o Yeshu iria passar. Foi a certeza de que só procura os pobres quem é pobre em seu coração

Era voz corrente que esse tal Yeshu, vindo de Nazaré, nascido da descendência de David, tinha entranhas de mãe Que o Seu jeito de olhar os pobres como eu ia muito para além da Lei… Que se fazia surdo à voz do Sábado… preferindo anunciar e dar Sinal de um Tempo Novo e, por isso nunca fora surdo a um gemido e adivinhava até os mais silenciosos pedidos de perdão e de cura…

Eu sei que os olhos do coração são os que melhor vêem! Mas, nAQUELE DIA  eu também queria ter olhos para Lhe ver o rosto.


O Yeshu chamou-me pelo nome! Senti-me pegado ao colo por um vento do céu. Um alvoroço e uma festa tomaram conta de mim: “Yeshu, por favor, faz QUE EU VEJA!”

Não vou mais esquecer a Sua voz, a Sua mão, o cheiro do barro fresco, apanhado do chão, amassado com saliva… Como se eu estivesse a ser feito de novo (e estava!)… e a ser beijado pela primeira vez (e estava!)

Pelo que sei, muitas mais vidas nasceram assim… E quantas mais ainda hão-de nascer assim!?…Dadas à LUZ como eu fui nAQUELE DIA!... 





Não me propôs que deixasse o que tinha – pois se eu não tinha nada, nem sequer caminho, vivia sentado na beira de todos os caminhos... 

DEle, desse Yeshu, recebi o Caminho que me faltava. Deu-me de presente uma vida com Futuro pois que, a Sua Luz, habitando os meus olhos me resgatou de inúmeras cegueiras… 
E... me VESTIU de NOVO...

A  capa VELHA – rota, suja, negra e triste do conformismo, da pobreza e da escravidão - já não me fazia falta…
Larguei-a e segui-O… porque o que eu queria MESMO era ver QUEM era esse tal Yeshu! 

E isso, só SEGUINDO-O… de perto! Mergulhando cada dia mais fundo na Sua Vida… EXPERIMENTANDO…

Porque ISTO é de EXPERIMENTAR… De mãos vazias. De Pés descalços. De olhos abertos… De coração livre e pronto para acolher as TANTAS “desobediências” que o SEGUIMENTO nos pede…                            

02 Abril 2014

Rito do Baptismo (audio)

Partilho esta segunda catequese quaresmal, continuação daquela outra sobre o catecumenado e iniciação cristã que deixei aqui na semana passada.

Fica também a folha com o esquema da conversa, que todas as pessoas receberam ao princípio para acompanharem.

Abraço!

Para ouvir ou fazer download do MP3,



01 Abril 2014

Casa


Hoje raptei o estaminé ao Dani, apoderei-me secretamente da password dele, e vim eu aqui disparatar um bocadinho. Por isso, peço-vos desculpa. Confesso que estou um bocadinho inibida por estar a escrever aqui, assim, mas vá, vou-me deixar disso e escrever o que tenho para partilhar. Sentimento de Pertença. É uma boa forma de o resumir. 

Desde que casámos, eu e o Daniel temos ido sempre a casa dos nossos respectivos pais, que continuamos a chamar a Nossa casa. Um Domingo vamos a casa de uns, no seguinte a casa de outros, e tem sido assim, quase todos os domingos. É algo muito comum, ir a Casa ao Domingo. Estar com a Família. Um Estar à Mesa que se prolonga, entre conversas e partilhas, e as novidades da semana para contar. Sabe muito bem, e a verdade é que, quando por algum motivo não podemos ir, sinto mesmo a falta daquele momento, principalmente do momento em que estamos todos à Mesa, sem qualquer dúvida. Falo disto e aposto que muita gente desse lado sente imediatamente aquele conforto de ir a Casa, o cheiro da comida melhorada no forno, as vozes dos que nos são mais queridos a ecoar por aquele espaço que nos é tão familiar, tão Nosso.

Desde que casámos, eu e o Dani temos ido sempre a Casa ao Sábado. A uma outra Casa. A uma Casa que é Nossa também. Estamos à Mesa juntos, à Mesa do Nosso Pai, com todos os nossos irmãos, e, sabem, é um daqueles Momentos que descrevi há bocado. Em que estar à Mesa se prolonga, em que conversamos, e partilhamos juntos o bem que nos sabe estar ali, todos, sábado após sábado. Vamos a Casa, estar com a nossa Família. Porque é esta a beleza tão grande de termos esta Família tão Bonita a que chamamos Comunidade, esta Casa tão acolhedora, esta Casa, que para mim, logo ao primeiro vislumbre, quando chego lá de fora, me transmite todo o conforto, toda a Paz, todo o à vontade que só a Nossa Casa nos consegue transmitir, aquele nervoso miudinho no estômago quando sabemos que vamos estar com quem Amamos.
Este sábado não pude ir a Casa. E nem imaginam como senti tanto a falta.

Obrigada Papá, por esta Família tão Bonita que me dás, mais Bonita a cada dia!

Margarida, que promete não voltar a raptar a password ao marido.

31 Março 2014

ouVI dizer

Contaram-me que os primeiros tempos foram difíceis.
A mesa estava preparada, mas os convidados não se serviam. As diferenças culturais e o medo do desconhecido eram mais fortes do que o apetite. Faltava o tempero da confiança. Aqueles que serviam passaram a sentar-se à mesa, para partilhar a refeição. Então, os convidados viram e confiaram. Algum tempo depois, deu-se a prova definitiva: aceitaram beber água da torneira, em vez de água engarrafada, porque tinha desaparecido o medo.
Mas, nem todos os convidados se sentavam à volta da mesa. Alguns escolhiam lugares sentados, enquanto outros não se aproximavam. Ficavam afastados, esperando autorização, por respeito a regras de submissão e à lei do mais forte.
Nenhum princípio de hospitalidade e de respeito pelo convidado poderia justificar esta injustiça. Aquela mesa teria de ser sinal de outra Mesa, onde se servia o Amor sem distinções... ou nada faria sentido. Contaram-me que, um dia, encheram-se de coragem e disseram aos convidados que ali, à volta daquela mesa, todos eram iguais e sentavam-se lado a lado, comendo do mesmo pão. Foi necessário segurar na mão de cada um e chamá-los, para que se aproximassem. De onde seria esta regra de etiqueta que impede separações entre pessoas?
Entretanto, a maior parte das convidadas partiu para outros destinos, algures na França, na Espanha, na Suíça. Levaram a memória disto, que acontecia à volta da mesa.

Eu não vi. Contaram-me e acreditei. 
Agora, vejo os sinais, porque aquela mesa nunca está vazia. Quem chega, encontra a mesa posta até ao entardecer, como se estivesse sempre alguém à espera.