22 Agosto 2014

ABraço



Será que quando não te sei dizer bom Deus
é quando te SEI melhor?

Inventam-se mil e umas maneiras para te dizer...
E, às vezes, sinto que nenhuma delas te enche as medidas.
Sabe tudo tão a pouco!

Talvez nessas alturas seja quando te SEI melhor...

Infinito!
Assim... largo...
Que nem um abraço!


Olha parece que te encontrei...
Desenhei-te num abraço!

E olha que assim ficas bem bonito!
Se te disser num abraço, acho que te digo bem... muito bem!


21 Agosto 2014

21 de Agosto 1956

DIÁRIO VIII


Miramar, 21 de Agosto 1956

Por mais que faça não consigo aderir inteiramente a esta vida de praia. Há nela uma inautenticidade de tal modo ostensiva, que tenho sempre a impressão de estar num palco. Um palco de promiscuidade de formas, a que a luz alvar não dá recorte – escancarada e paradoxal ribalta onde a nudez se não vê e a beleza não apetece.
Já sem falar da areia, sempre movediça debaixo dos pés, as próprias casas, terapêuticas e provisórias ajudam a criar no meu espírito o pânico da instabilidade. Em nenhuma a gente se pode refugiar para ter febre, gemer ou esperar pela morte… o sofrimento e a agonia perderiam lá dentro toda a dignidade. Sei muito bem que as férias são interregno do equilíbrio humano, Ou intervalos que o favorecem, e também não ignoro que o mar lava tudo, até certas nódoas teimosas do pensamento. Infelizmente, comigo as coisas passam-se sempre ao contrário. Em vez de descansar como a outra gente, de esquecer e dormir, revolvo-me de inquietação, sem encontrar pé na ambiguidade dum meio onde o impudor finge que tem moral, e a moral finge que não tem pudor.

20 Agosto 2014

Senhoras e Senhores...

E que tal aproveitar um serão de Agosto para ver (de novo?) este City Lights do grande Chaplin? Um história deliciosamente bem contada...

18 Agosto 2014

os errados



"Perante a encomenda de uma certeza registada de garantias, apresenta uma bicicleta brilhante, nova, a pedalar incansável através do Verão. Depois, exibe um fósforo aceso, a que chamarás Prova A, como nos filmes. Depois, farelos. Abandona a imoralidade de ser infalível e dá tamanho ao mundo inteiro, galáxias desgovernadas incluídas, lembranças e segredos incluídos. Saberás então que há poucas belezas mais extensas do que o despropósito de uma ideia: a liberdade de estar rotundamente errado.

Olha aqui uma cadeira pequenina, senta-te. Farás tanto bem nessa escolha. Por momentos, poderás desfrutar da reprovação das cabeças e da paz macia de repousares sozinho no desconhecido. Contempla o desconhecido imenso, é maior do que uma barragem. Se os teus olhos não estiverem apontados para ele, não há artifício que te comunique o que esconde. Poderás atirar abundância em qualquer direcção porque, se não tiveres medo de acertar em ti próprio, serás invisível e talvez acertes em algum terreno que necessite de abundância.

Começa hoje a estar errado, começa agora. No armário, tens as gravatas e os fatos necessários para participar na reunião da direcção. Quando o presidente der início à ordem de trabalhos, oferece-lhe algodão doce. Se fores promovido, aceita. Se receberes um silêncio incrédulo e incómodo, sorri. Garante que fica registado em acta. Estas são as regras básicas do comportamento em reuniões: erra e aceita/sorri. Outro exemplo: vai à reunião de condomínios e não te queixes do elevador. Basta isso, não te queixes do elevador. Se te convidarem para tomar chá, aceita. Se te estranharem, sorri. Uma vez mais, garante que fica registado em acta.

Não queiras existir sem erros. As vestes de imperador conservam um homem assustado. Repara na angústia amargosa com que tenta manter fronteiras e castelos de areia contra as ondas do oceano. Não queiras fronteiras. Quer antes a distância, os teus braços a afastarem-se sem horizonte, as tuas palavras a desfazerem-se no ar. A imperfeição é muito mais bonita do que a perfeição porque a perfeição não existe. Ou, se existe, está ao lado do erro, faz parte dele. Se ainda estivéssemos nos princípios da espécie, poderíamos talvez acreditar em vidas certas e inteiras, mas acumulamos história, somamos milhares de anos, séculos a perder de vista, e tu tens o dia de hoje, tens este pedacinho de horas, esta coisa. Tens tanto.

Engana-te de propósito a fazer as contas. Falha o golo em frente à baliza. Despenteia-te. Escreve «sapo» com cê de cedilha: çapo. E também «sopa»: çopa. Inventa combinações de números quando o multibanco te pedir o código. Contraria o GPS. Põe sal no café. Telefona à tua mãe e diz que querias ligar para as finanças. Despede-te quando chegares e diz olá quando partires. Senta-te no chão. Veste a camisola ao contrário. E, por favor, calça o sapato do pé esquerdo no pé direito e calça o sapato do pé direito no pé esquerdo. Verás que não é assim tão desconfortável, que o calçado ortopédico é um exagero e que há muito mais do que aquilo que esperas naquilo que não esperas.

Perante a encomenda de uma certeza registada de garantias, apresenta a inconsciência mil vezes. Depois, à milésima primeira vez, quando esperarem que lhes apresentes uma canção ou um lápis, apresenta-lhes mesmo uma certeza registada de garantias porque tu sabes que só estarás errado se concordares com eles quando te acusam de erro, porque tu sabes e sais da tua comfort zone, assim mesmo, em inglês imperialista, para dares a tua pele à vida, às cicatrizes e às cócegas feitas com penas de pavão. Não tentas preservar o que tens porque sabes que não tens nada e podes sempre ter mais nada ainda. Quando deixas de fazer sentido, é porque foste capaz de encontrar um novo sentido e há muito boas possibilidades que esse sentido esteja enfeitado por canteiros de plantas necessariamente selvagens, onde a seiva corre desgovernada, feita de sol liquefeito, claridade liquefeita, incandescência tão limpa que cega."

José Luís Peixoto, Abraço

17 Agosto 2014

A nossa Vocação é a Fraternidade Universal


Os seres humanos apenas podem estruturar-se de modo equilibrado em contexto de fraternidade. Na verdade, a comunidade fraterna é o espaço privilegiado para o amadurecimento humano, pois não somos ilhas.

Eis alguns passos importantes para a pessoa poder moldar um coração capaz de comunhão fraterna:

- Tentar compreender o outro na sua realidade mais profunda e nas suas diferenças, pois a pessoa tem muita dificuldade em se realizar quando se sente rejeitada nas suas diferenças. Assim, por exemplo, uma pessoa não consegue dar-se se não se sente amada e valorizada pelos outros.

- É importante habituar-se a confiar nos outros e agir de modo a merecer a sua confiança. Guardar segredo sobre as comunicações e segredos que os outros nos comunicam é o que motiva a sua confiança.

- Estar atentos ao que os outros fazem e saber valorizar as suas realizações.

- Comunicar sempre numa linha de verdade e autenticidade.

- Compreender e aceitar a história pessoal das outras pessoas, a fim de os compreender e aceitar melhor.

- Tomar consciência de que os outros são um dom de Deus para nós. Na verdade só tornando-nos irmãos dos outros podemos ser filhos de Deus e, deste modo, fortalecer a fraternidade universal, o único jardim onde acontece a plenitude humana. É importante reconhecer que ninguém é bom em tudo, esforçando-se por aceitar as qualidades dos outros, a fim destas se tornarem carismas, isto é, dons para nós.

- Recordar-se que o Espírito Santo está nos nossos irmãos, tal como está em nós, compreendendo que nós não somos os únicos detentores da verdade.

- É importante estar disposto para falar quando é necessário e estar disponível para escutar, sinal de apreço e respeito pelos irmãos. Na verdade, quem se recusa a escutar os outros com respeito não merece ser escutado.

Espírito Santo,
ajuda-nos a construir um coração fraterno, 
a veste indispensável para tomar parte na Comunhão do Reino de Deus.
Ajuda-nos a ser construtores de fraternidade na História, 
pois esta é a maneira de sermos incorporados 
na Comunhão Universal da Família de Deus.





NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias

16 Agosto 2014

Este poema por acaso tem por título: 25 de Abril.
Mas para mim chama-se Páscoa.
E vocês, que nome lhe dariam?
Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo 

Sophia de Mello Breyner Andresen

15 Agosto 2014

?



E porque nem sempre aquilo de que precisamos é de respostas...
A proposta de hoje é partilhar PERGUNTAS!

Que perguntas marcam a vida?


A vida é complicada? ou somos nós que a complicamos? às vezes é tão complicado ser simples
(Miguel Cardoso)

Existe um caminho para mim? Um único que me faz feliz?
(Fabi Mourinho)

O que raio existe dentro de nós que nos leva a procurar poder, prestígio e controlo na ilusão de isso nos vir a tornar felizes?! O que é preciso para nos libertarmos das manias e das imagens idolatradas que construímos de nós próprios?! As perguntas são minhas, são sobre mim. Se as faço em forma de "nós" é porque vou sentindo que estes problemas não são só os meus.
(Rui Santiago cssr)

Porque hoje são perguntas gostava de perguntar: Porque por vezes o que esta em mim me controla e não me deixa ser eu... quando dou por mim já esta, já foi, já saiu. que força é esta? é tão forte. ;-)
(Fátima Fontes)

Porque são as pessoas que mais próximo estão de nós, de quem mais gostamos, que mais nos desiludem e mais nos decepcionam? Porque é que tantas vezes somos nós próprios que erguemos os muros que nos impedem de ir mais alem?
(Anónimo)

Porque há pessoas que decidem por termo à vida quando à partida têm tudo para serem felizes, não valorizando assim o dom que é a VIDA?
(Anónimo)


14 Agosto 2014

14 de Agosto 1949

DIÁRIO V


“Escaldado desta secura, ia daqui a cem à hora para Esposende refrescar os olhos no mar, quando tive de parar no caminho por causa de uma procissão. Uma imagem da Senhora da Piedade, patética, retórica, das que o barroco fazia com a fralda de fora, vinha pela estrada adiante, no seu andor de viagens, entre um povo faminto que lhe cantava hinos.

Pediam-lhe chuva. Com os olhos nas veigas secas, clamavam por uma gota de água que lhes poderia valer às sementeiras, já perdidas, mas que seria ainda um milagre, uma prova de que não estavam desamparados. Imploravam cheios de fé, evidentemente; contudo, à sorrelfa, espreitavam de vez em quando o céu, numa prudente interrogação."

E eu lembrei-me de uma mulherzinha da minha terra que um dia, depois de uma carga de água que apanhámos juntos, fez estas considerações:
 - Seja feita a vontade de Deus! Diz que nada anda tanto ao gosto dele como o tempo…
 E num aparte:
 - Que ele há quem diga que são nuvens…



13 Agosto 2014

Horação

Jesus, Mestre e Senhor, trago a cabeça a esta Hora cheia de gente. De perto e de longe, seja lá a distância o que for quando o assunto são pessoas! Uns que fogem de massacres, aqui mesmo ao lado, no Iraque, e outros que sofrem no silêncio, longe longe, lá no IPO. Há vizinhos meus que têm medo de dormir à noite, aqui neste bairro de Gaza, e outros que adormecem sozinhos pensando quando voltarão a ter companhia, lá longe longe, na prisão de Santa Cruz do Bispo. Há mortos a enterrar rapidamente aqui em Conacri e uma menina de 19 anos de quem hoje se fez a despedida lá longe longe, no Porto. Há gente que se suicida aqui no andar por cima do nosso na Califórnia, e outros que pensam nisso enquanto atravessam aquela ponte lá longe longe que atravessa o Rio Douro. 

Jesus, inventámos maneiras de nos tornarmos próximos dos que estão longe e indiferentes a quem temos perto. Ou se calhar isto que digo é uma asneira, sei lá... Digo tantas! O perto e o longe não vai de réguas e a verdade é que o Deus da Vida nos deu coração suficiente para cá metermos o mundo. Gostava de olhar tão atentamente como uma criança bem amada e ver tão bem como um velho sábio. Ajudas-me nisso?

E um coração sensato, e gestos sempre humanos, e palavras habitadas, e os silêncios certos. 

12 Agosto 2014

o desafio da Intimidade


Hoje proponho-me a fazer convosco um exercício.
Abri a minha bíblia no Génesis e comecei daí a procurar, e apresento-vos assim, sem mais, o resultado da pesquisa:

Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim.
Gn 4, 1

Caim conheceu a sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Henoc. 
Gn 4, 17

Adão conheceu outra vez a sua mulher, e esta deu à luz um filho, ao qual pôs o nome de Set.
Gn 4, 25

O Senhor disse a Abraão: 
- Voltarei à tua casa dentro de um ano, por esta época, e Sara, tua mulher, terá um filho.
Ora, Sara ouvia por detrás à entrada da tenda. (Abraão e Sara eram velhos, de idade avançada, e Sara já tinha passado da idade.)
Ela pôs-se a rir secretamente: 
- Velha como sou, disse ela consigo mesma, conhecerei ainda o amor?
Gn 18, 10-12

Ela é mais justa do que eu; pois que não a dei ao meu filho Sela. - disse Judá.
E não a conheceu mais. E, na ocasião de dar à luz, eis que ela trazia dois gêmeos no seu ventre.
Gn 38, 26

Elcana conheceu Ana, sua mulher, e o Senhor lembrou-se dela. Ana concebeu, e, passado o seu tempo deu à luz um filho que chamou Samuel.
1 Sam 1, 20

Judite, que tinha grande crédito em Betúlia, adquiriu ainda maior renome em todo o país de Israel. À coragem juntava a castidade, de tal sorte que nunca em toda a sua vida conheceu outro homem, desde que morreu Manassés, seu marido.
Jt 16, 21-22

Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem?
Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.
Lc 1, 34

Por esta altura, nem preciso de comentar. SEMPRE que na bíblia se fala na intimidade da relação que gera vida nova, o verbo usado é o verbo CONHECER. Sempre!
 
E com esta chave bem presente na vossa cabeça, proponham-se a passar os olhos nos livros do Pentateuco (Êxodo, Números, Deuteronómio, por exemplo), e a ver que verbos é que Deus vai empregando quando fala (muitas das vezes com Moisés) do Seu Povo. O engraçado é que vão dar de caras com este CONHECER muitas vezes.

O Senhor disse: 
- Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel.
Ex 3, 7-10

Mas, ninguém como João, no seu Evangelho, usa tantas vezes este verbo. São 69 vezes. Contei-as eu! Sessenta e nove. A esmagadora maioria a falar da relação entre o Pai e o Filho, e da relação que leva ao Pai pelo Filho.

Perguntaram então a Jesus: 
- Onde está o teu Pai? 
Respondeu ele: 
- Não conhecem nem a mim nem ao meu Pai; se me conhecessem, certamente conheceriam também o meu Pai.
Estas palavras proferiu Jesus ensinando no templo.
Jo 8, 20

- Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. Se me conhecessem, também certamente conheceriam o meu Pai. Desde agora vocês já o conhecem, pois o tendes visto. 
Disse-lhe Filipe: 
- Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. 
Respondeu Jesus: 
- Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai.
Jo 14, 6-9

Pessoalmente, eu vejo este exercício de João, que coloca Jesus a pronunciar sem jeito o verbo conhecer, como um enorme desafio de intimidade... e garante-nos ele, Jesus, que a coisa não vai ficar a dois!!!!

P.S. E por motivos óbvios, eu escusei-me a ilustrar este post com uma imagem! Fica ao critério do querido leitor...

11 Agosto 2014

postais-postais

Enquanto lia cartas antigas e cuidava da colecção de postais do meu Pai, lembrei-me deste texto.
"Tenho os postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, derramados de ternura para um garotinho de dois anos. O paizinho gostava que o Janjão, etc. Andam os dois por aí agora, o Janjão e o paizinho. E, se calhar, o Janjão continua a receber postais. E de certeza que o Janjão continua a receber postais. É verdade não é, senhor, que continua a receber postais? Mesmo de bata, no hospital, mesmo professor, mesmo importante? Postais. Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmas e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caem bem. Não sei porquê mas caem bem."
António Lobo Antunes, «Aqueles que andam por aí», Visão, 19 Jan. 2012


E se para além de postar no facebook, de utilizar o instagram como prova de vida e de marcação do território, surgisse uma moda mais ousada?
Dá trabalho escolher o postal, encontrar uma esferográfica. Talvez a caligrafia esteja entorpecida pelo teclado. Depois é preciso enfrentar uma estação de correios. Pode ser uma experiência de viagem no tempo e, com sorte, ainda se apanha alguma conversa interessante.

E se houvesse tempo para ver e escutar o que se passa neste Verão estranho?
Se houvesse este esforço de sintonia, que vozes e que apelos ouviríamos?
E se escrevêssemos intencionalmente a alguém?

10 Agosto 2014

O Deus cuja Palavra agita o mundo



Na perspectiva bíblica, a Palavra de Deus é eficaz, isto é, realiza o que significa. Uma vez que a pessoa a acolhe no seu coração, a Palavra começa a transformar o seu coração e a sua mente em conformidade com o significado da mesma Palavra. O protagonista desta acção transformadora é o Espírito Santo que gradual e progressivamente nos vai configurando com Jesus Cristo.

Nesta perspectiva ganha pleno sentido a seguinte frase de São Paulo na Carta aos Gálatas: “Já não sou eu que vivo mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20). Estas palavras significam que a pessoa, à medida em que se vai transformando pela Palavra de Deus, começa a olhar a realidade e a interpretá-la de acordo com os critérios do Evangelho. E é assim que o nosso modo de ser e agir se torna cada vez mais semelhante ao de Jesus.

Os seres humanos são capazes das maiores monstruosidades. Mas se descobrirem sentidos para viver são capazes de alterar o rumo da sua vida e da vida de muita gente. Na verdade, somos capazes de fazer guerras monstruosas e criar máquinas diabólicas para matar. Somos capazes de oprimir e explorar os outros para amontoar riquezas tantas vezes desnecessárias. Somos capazes de raptar e matar crianças, conceber instrumentos monstruosos de tortura e destruir a natureza, movidos apenas por interesses mesquinhos.

Mas também somos capazes de criar música, poesia e inventar um futuro cheio de gestos de ternura e amor. Somos capazes de inventar máquinas brutais para fazer guerras criminosas. Somos capazes de pilhar e destruir pessoas, como conseguimos idealizar e criar planos de solidariedade, que ultrapassam os meros laços do sangue. Somos seres famintos de verdade, isto é, de compreender e enunciar de modo adequado a realidade de Deus, do Homem, da História e do Universo.

Quando uma pessoa começa a crescer espiritualmente é capaz de inserir uma nova dinâmica libertadora na marcha da Humanidade. À medida em que descobre as possibilidades de transformação do mundo, a pessoa tem condições para ser iluminada e fortalecida pelo Espírito Santo, a fim denunciar o mal, optando, mediante a não-violência activa, como Jesus fez.

É verdade que a Palavra de Deus nos ensina a fazer do perdão uma atitude central no nosso modo de ver e agir. Mas o perdão não deve confundir-se com dever calar-se perante as injustiças, e deixar de lutar contra a violência, opressão e as situações injustas. Por outras palavras, a Palavra de Deus ajuda a pessoa a descobrir as forças do mal e o Espírito Santo fortalece-a para o denunciar como Jesus fazia.

No mundo em que vivemos não faltam razões que levem os profetas de Deus a denunciar. Eis, por exemplo, algumas dessas razões: o egoísmo e a indiferença face ao sofrimento e a miséria reinante no nosso mundo. As guerras mortíferas, provocadas por meros interesses económicos. A leviandade com que pomos em perigo o equilíbrio ecológico. O tráfico de drogas que, pouco a pouco, vão degradando e corroendo milhões de pessoas, fazendo delas simples trapos humanos. A distribuição injusta das riquezas da qual origina a morte que todos os dias mata milhares de pessoas. A violação e o abuso sexual de crianças, provocando nelas distorções enormes e bloqueando a sua capacidade de se humanizarem e construírem como pessoas felizes.

A violência que se manifesta nas formas mais diversas, tais como a tortura, a exploração dos países pobres por parte dos ricos, o comércio de órgãos humanos ou o comércio de mulheres. A distorção da verdade levada a cabo pelos poderosos meios de comunicação, pelos senhores da guerra ou pelos poderosos grupos de pressão.

A Palavra de Deus ajuda-nos a compreender a dignidade da pessoa humana, a qual não só foi criada à imagem de Deus como também já foi incorporada por Cristo na Família Divina. O Espírito Santo consagra as pessoas do mesmo modo que consagrou Jesus e lhe deu aquela força transformadora que fez dele o início de uma Nova Humanidade.

(...) A Palavra de Deus vai ajudando a pessoa a compreender cada vez melhor o mistério de Deus e de Cristo, bem como o lugar do Homem no pleno de Deus.

O Crente terá uma noção tanto mais clara da dignidade e dos direitos do Homem quanto melhor compreender que Deus nos Criou para tomarmos parte na Comunhão Universal da Família de Deus cujo coração é a Santíssima Trindade. Não há amor autêntico que não procure ser fermento transformador nas situações que desumanizam ou impedem a humanização das pessoas.

À medida em que cresce espiritualmente, a pessoa começa a ser capaz de reinventar atitudes e caminhos que façam avançar a Humanidade na conquista da justiça, a fim de que surja o Mundo Novo querido por Deus.

No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias



09 Agosto 2014

quero a fome de calar-me




Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que não me esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete

A única glória do mundo - ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea - a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separarda. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor - várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas - pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como pinhas fechadas

Caem - quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira - e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança.

Daniel Faria


08 Agosto 2014

Ora... Acção


"Na medida em que nos transformamos e somos invadidos
pela força amorosa e criadora de Deus
tornamo-nos mediações de libertação
e felicidade para os irmãos."
por Calmeiro Matias


07 Agosto 2014

7 de Agosto de 1945

Andanças de verão… Perguntas sempre latentes… Insatisfações e afirmações plenas de Vida… Coisas do meu Poeta! De alguém que não anda no mundo por ver andar os outros

Na sua escrita, em prosa ou verso mas sempre poética, a Vida só faz sentido quando a ela damos O TUDO e continuamos INTEIROS. 
É ele que diz de si mesmo:-  “Todo Médico”- otorrinolaringologista – dr Adolfo Correia da Rocha;
Todo poeta” – Miguel Torga.

Nasceu a 12 de Agosto de 1907. Morreu a 17 de Janeiro de 1995.

DIÁRIO II

Caldelas, 7 de Agosto 1945

“A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, teimou, e descobriu a pedra filosofal

Em Hiroshima onde a bomba atómica foi lançada, tudo quanto era vida morreu. Por causa do fumo e da poeira que se levantaram, o mundo esteve de respiração suspensa durante vinte e quatro horas, sem saber o que tinha acontecido. Mas hoje de manhã, os jornais, diligentes, já estavam senhores da verdade inteira. Não tinham morrido vinte, trinta ou quarenta mil pessoas, como era de temer. Para matar a ridicularia de quarenta mil pessoas não era necessário tanto sonho. Não, felizmente, não se tratava de um desapontamento. Nem quarenta, nem sessenta, nem setenta mil mortos. Isto só: todos os seres vivos liquidados!


E a humanidade dobrou o jornal aliviada.”         

                                                                                                               

06 Agosto 2014

45 Balcão B (...) 46 Balcão A (...) 47 Balcão F (...)


É só dizer um "Olá" antes de ir renovar o Cartão de Cidadão. As coisas encarregam-se de nos lembrar que é preciso ir reafirmando a identidade, como se essa fosse uma maneira de por a vida em dia. Acho espantosa a pobreza de um Cartão de Cidadão. Um método tão elaborado ao qual escapa toda a trama dos detalhes que nos fazem! Sinto-me defraudado quando prevejo que, à menina lá no posto de atendimento - espero que seja uma menina - vou ter que dizer a frase: "Está tudo igual. Não muda nada." Quando, na verdade, está tudo tão diferente. Aquele rapaz que um dia tirou o Cartão de Cidadão em meu nome já não sei bem onde anda. Guardo ainda as coisas dele - deixou-mas - mas ele foi à vida dele, que é agora a minha. Gostava de me sentar lá na cadeirinha de escritório, do outro lado da mesa da menina - lá está! - e dizer-lhe: "Sabes, há tantas coisas mudadas desde a outra vez..." E punha-me a contar-lhe histórias, experiências, aprendizagens, descobertas, bichos de sete cabeças que, entre tanto, domestiquei e que agora me vêm comer à mão, certezas que passaram a perguntas, e perguntas que se tornaram desafios, pessoas que conheci e portos de onde desatraquei. Íamos ter ali uma bela conversa.  Mas nada disto cabe nas contas da cidadania...

Identidade é um olhar que pousa sobre nós. Não é poesia isto, é mesmo semântica! "Iden" é particípio do verbo "oráô", em grego, que significa "ver". Mas é um ver profundo, atento, demorado... Para um ver fugaz sobre alguém, o grego tem o verbo "blepô" que serve bem. Mas o "oráô" que dá o tal "iden", significa "ver quem é", ou "ver o que é". É identificar! Não com um número, claro, mas com um olhar que reconhece. A menina que me vai atender na Loja do Cidadão e me vai fazer o cartão - que manguito do destino se me sair uma matrafona ou um zé bigodes! - não vai ver quem eu sou. A verdade é que vou lá, trato disto, e depois venho cá para fora outra vez tratar da identidade a sério, expor-me ao olhar de quem me conhece e dizer "Olá" às pessoas sem ter que esperar pela vez da minha senha.

Desculpem a pressa, tenho que ir indo. A menina está à minha espera. Espero mesmo que seja uma menina. É que sempre inspira a gente na parte da fotografia!

05 Agosto 2014

Acredito



Acredito em Jesus, acredito que vale a pena segui-lo, tomar partido por ele e estou disposto a fazê-lo, a viver com ele, sabendo que nunca ficarei desiludido?

SIM!

Acredito em Jesus, em tudo o que ama e proclama, no que diz e que anuncia - em tudo mesmo - cada palavra e cada gesto?

SIM!

Acredito que o Projecto de Jesus é válido aqui e agora, na minha vida e na minha comunidade, e que me desafia a vivê-lo?

SIM!

Acredito que ainda não acredito o suficiente e que tenho muito caminho para fazer para que o meu Acredito seja pleno?

SIM!!




04 Agosto 2014

resistência




porque "um livro é como a água,
abre caminho por toda a parte"
José Palma


03 Agosto 2014

A Esperança Cristã




Deus Santo,

Nós vos damos graças pelo facto de as lentes da nossa esperança optimizarem os horizontes da nossa inteligência.

Por ter como alicerce a Palavra de Deus, a esperança cristã ultrapassa os muros estreitos da vida presente, capacitando-nos para contemplar, não apenas os bens desta terra, mas também os bens da vida eterna!

Mas isto não significa que a nossa esperança nos distraia ou aliene dos compromissos históricos.
Pelo contrário, a vossa Palavra capacita-nos e envia-nos para transformarmos o mundo de acordo com os critérios do Evangelho.

No Evangelho de São Mateus, Jesus diz que os cristãos estão no mundo como sal que dá sabor à vida.
Impelidos pela esperança, acrescenta Jesus, os cristãos são a luz que ilumina o sentido que a vida tem.
São também um fermento que transforma as estruturas do pecado, as quais impedem a humanização do Homem (cf. Mt 5, 13-16).

Depois de uma vida gasta ao serviço do bem e fortalecidos pela esperança que os capacita para os compromissos do amor, o cristão pode dizer com São Paulo:

“Por isso não desfalecemos. E mesmo se em nós o homem exterior vai caminhando para a ruína, o homem interior renova-se todos os dias. Com efeito, a nossa momentânea e leve tribulação proporciona-nos uma glória eterna que vai para além de toda e qualquer medida” (2 Cor 4, 16-17).

Eis algumas afirmações de São Paulo que são realmente uma expressão genuína da esperança cristã:

"Por isso não nos detemos nas coisas visíveis, pois estas são passageiras, mas olhamos para as realidades invisíveis, as quais são as eternas” (2 Cor 4, 16-18).

Fundada na Palavra de Deus e na ressurreição de Jesus Cristo, a nossa esperança dá-nos a certeza de que não estamos a caminhar para o fracasso da morte mas para a plenitude da Vida Eterna.

Trindade Santíssima,
Vós sois o alicerce da nossa esperança! Nós vos louvamos pelo dom da revelação que nos capacita para transformar o mundo e a História em harmonia com o vosso plano criador!

No Primeiro Dia da Semana...
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias