26 março 2015

Perguntemo-nos:


“- Que crescimento económico é este alimentado pelos mercadores de armas e pelos aproveitadores de todos os tipos?
- Que diplomacia é esta que só se preocupa com equilibrismos, com não ingerência, com respeito de zonas de influência?
- Que política é esta que perdeu o sentido da polis e do mundo como espaço comum?

Se não for agora, quando é que vamos decidir-nos a trabalhar com resoluta paciência por um desarmamento das mentes, dos corações e dos braços?

Quando nos lembraremos de que quem pronunciou a terrível frase "Por acaso eu sou o guarda do meu irmão?" era, na realidade, o seu assassino? “

Enzo Bianchi (Prior da Comunidade de Bosé)


25 março 2015

um Deus à flor da pele



Há coisas que tiveram de tal modo impacto em nós que as réplicas desses momentos ainda não abalaram de nós, ainda não acabaram de nos abalar. Um desses meus momentos foi quando li numa revistita qualquer para miúdos a pergunta: “Qual é o maior órgão do corpo humano?” Lembro-me que me pus a pensar e cheguei à conclusão que devia ser o intestino. E logo na altura, miúdo ainda, fiquei com pena disso… Acho que já intuía que a metáfora humana a tirar daí não seria grande coisa. Fui à última página, onde tinha as respostas e fiquei sem reacção durante uma eternidade que ainda dura: a pele. A pele! 

Somos pele por todo o lado. Para onde quer que nos viremos, estamos a pedir conTacto. Somos revestidos de sensibilidade, porque estamos talhados para tocar e ser tocados. 

Abomino as divindades metálicas. Frias, rijas, ocas, divindades estúpidas que geram religiões estupefacientes. É assim que a bíblia caracteriza os ídolos inventados por nós: têm olhos mas não vêem, ouvidos mas não ouvem, peito mas não sentem… (Sl 115)

Já o Deus contado na Escritura é uma divindade à flor da pele, todo dito em antropomorfismos que às vezes, na nossa cultura de linguagens tão herméticas e sem graça, até embirramos para não entender: um Deus que sente e se agita, que vê e ouve e se lhe revolvem as entranhas, e se chateia e volta atrás, e tem o coração encostado à boca. O Deus bíblico é todo cheio das nossas coisas quando amamos de verdade.

Por isso é que na tradição judaico-cristã surgiu a proibição de fazer representações de Deus, que são uma idolatria: porque Deus não pode estar representado no que é frio e sem vida. Deus não pode ser representado fora do universo da pele e do conTacto. Porque, segundo a bíblia, a única imagem que Deus fez de si mesmo foi o Ser Humano, todo pele por todos os lados, porosidade pura. 

24 março 2015

e se falarmos na Conversão de Jesus?



Falar da Conversão de Jesus ainda é um assunto delicado na linguagem da nossa fé.

Quando se fala do Baptismo de Jesus surge logo este tipo de questões:
- Jesus precisava ser baptizado? Porque quis sê-lo? Sentiu dentro de si o chamamento a converter-se?

Responder com um "sim" à última pergunta é chocar muitos. Colocar sequer a hipótese de que Jesus tenha sentido a necessidade de Converter a Vida parece heresia. O caminho mais fácil é sempre o do Super-Messias pedagogo ("Não precisava converter-se, claro, mas fê-lo para dar o exemplo", "Não quis ir contra os costumes da época", etc.)
As respostas nesta linha são sempre uma auto-defesa para evitar falar da Conversão de Jesus.

O engraçado é que não é só a linguagem do Baptismo, nos Evangelhos, que nos fala da Conversão de Jesus. Nunca tinha antes pensado nisso até anteontem ler esta frase:


O coração de Jesus também começou a mudar, porque, verdade verdadinha, ninguém ganha novos amigos e fica com a vida da mesma maneira.


E esta deixou-me a mastigar, a meditar e a dar voltas... e já a trago assim, comigo, desde esse dia.
E sem querer estragar dizendo muito mais, arrisco só um eco:
Se os Evangelhos nos evidenciam uma amizade entre Jesus e os discípulos, e também com tantos que curou/libertou e que depois o seguiram e ficaram com ele... então, não só é válido dizer que o coração e a vida daquela gente começou a mudar (a converter-se), como o é dizer que Jesus também foi convertendo a sua vida.

De facto ninguem ganha amigos novos, sem que isso lhe mude a vida, as rotinas, as opções, o olhar, as decisões, o calendário e a agenda.
E se isso não é converter-se...

22 março 2015

a Fé como caminhada para a Alegria



À medida que o mistério da fé se nos revela, 
a nossa vida ganha sentido 
e cresce em nós a certeza de estarmos a caminhar para a plenitude da alegria.

A fé garante-nos que a marcha criadora da Universo foi iniciada pela força do amor. 
Ainda a terra não girava à volta do Sol,
ainda o Céu não era azul 
e o Deus amor já estava a dinamizar a marcha do Universo a partir de dentro.

Movido pela força do Amor, o Universo evoluiu no sentido da Vida Pessoal Espiritual. 
O crescimento da vida pessoal não se mede ao quilo nem se avalia pelo volume. 
Não se mede ao metro, nem se analisa pelo cálculo das superfícies. 

A única maneira de conhecermos a qualidade da vida pessoal de uma pessoa 
é observar o seu jeito de amar. 
De facto, a identidade espiritual de uma pessoa é o seu jeito de amar.

Jesus dizia que a casa de Deus é uma comunhão amorosa. 
Também dizia que o Reino de Deus é a comunhão das núpcias do Filho de Deus.
Nesta Festa todos dançam o ritmo do amor, mas cada qual com o jeito com que treinou na Terra. 
Isto quer dizer que a nossa identidade espiritual permanece eternamente 
na comunhão da Família de Deus.

Eis o que diz a Primeira Carta de São João: 
“O amor de Deus manifestou-se no meio de nós, pois ele enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, 
a fim de que, por ele, tenhamos a Vida Eterna” (1 Jo 4, 9). 

O evangelho de São João diz que a fidelidade de Jesus radica no facto de ele ter a plenitude do Espírito Santo e transmitir a Palavra de Deus com fidelidade: “Aquele que vem do Alto está acima de todas as coisas e as suas palavras são de Deus, pois Deus não lhe deu o Espírito por medida” (Jo 3, 34).

Noutra ocasião disse aos discípulos que veio comunicar-lhes a Palavra de Deus, 
a qual é uma fonte inesgotável de alegria:

Revelei-vos estas coisas, 
para que a minha alegria esteja em vós 
e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11).






NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias





20 março 2015

Feira do Livro

Apareçam!
Há por ai rumores de que vai ser muito bom!

Começa já amanhã!!!


Horário
Sábado das 10h às 24h
Domingo das 10 às 13h


Com a presença de várias editoras
CER, Paulinas, Paulus, Perpétuo Socorro, Salesianas

E tantas actividades diferentes como a
Hora do Conto
Workshops de Leitura Adaptada (língua gestual, etc...)
Entrevistas
Sala dos Pequenitos com Leitura Infantil
Workshop de Fotografia

E ainda
A possíbilidade de entrar numa Tenda Bíblica


Se calhar os rumores têm mesmo razão de ser!!!


19 março 2015

(ao sabor do Vento…)



Querido Deus,

hoje, ao dizer-Te obrigada, fica-me na boca o sabor a coisa pequena mas, estremeço só de pensar que a alternativa é agradeSER, isto é, pôr a minha vida em modo acção de Graças…

É que não há um único dia em que eu não tropece numa imensidade de sinais silenciosos da Tua Bondade e da Tua Beleza e, para não variar, todas as manhãs embarco num cais que se chama Graça - o simples acordar não depende de mim - e todos os meu amor e gosto de ti que digo ou oiço ao longo do dia dizem-me coisas acerca da Tua ternura e do Teu amor personalizado…

Não há um único dia em que não me ofereças a oportunidade de viajar ao sabor do Teu Vento, aquela Brisa suave a que chamamos Santa, de ver e de experimentar o Teu Reino a acontecer do lado de dentro das situações mais concretas, nos acontecimentos mais corriqueiros, nas atitudes mais (in)esperadas de gente que aprende a amar e a ser livre de si mesma e se faz PRESENTE Teu, a mim e a outros...

Por isso, hoje, em silêncio, pus-me a revisitar, para não esquecer, todos os portos onde, em dias de tempestade encontrei abrigo em forma de abraços, alimento em forma de palavra, água fresca em forma de sorriso, pedra firme em forma de silêncio acolhedor…Todos os ancoradouros onde eu já pude descansar o coração cansado, sedento, esfomeado… Todos os portos de abrigo espalhados por aí, onde sempre encontrei Gente. Gente! TANTA! Que aprende de Ti a desenhar mapas em arco íris no coração de outra Gente… a encher de sol as histórias mais sombrias e de leveza o cansaço que adormenta … 
E, tanta coisa muda de figura quando a Vida se reza em comunhão… quando nos fazemos mãos em degrau que permite desvalorizar paredes ou muros e espreitar mais acima que aquilo que os olhos vêem…

É por estas e por outras que me sabe bem fazer Memória…Ilumina-me o Futuro… Assegura-me que, se a fome apertar, vou encontrar à minha espera, tenho a certeza, uma vasta Mesa de Humanidade, posta de muitos modos, por Gente vestida de Graça e de Cuidado sábio…

Fazendo Memória agradecida sinto que celebro a morte do medo…

É por isso que hoje, querido Deus, dizer-Te obrigada me soa a coisa tão pouca.
Só me resta uma alternativa – agradeSER, aprendendo a pôr essa Mesa de Humanidade que não escolhe comensais -  reconhece e aceita os esfomeados… Venham eles de onde vierem… Sejam eles quem forem…

Amen!


18 março 2015

( )


dei por mim a olhar as coisas como se elas fossem acabar no momento a seguir. haver amanhã é uma boa notícia que não merecemos. a vida entra-nos pelo futuro todos os dias, o novo esfrega-se-me na cara, a esperança ronrona pela alegria de me ver, e dá-me cabeçadas.

dei por mim a olhar as pessoas como se elas fossem todas para o mesmo lugar. e pareceu-me ridículo que usássemos tanto os cotovelos para arranjar espaço na única fila que existe. hoje não gostei assim tanto de ver pessoas. estavam muito nervosas. apressadas, disparatadas. ficamos toscos quando queremos ser importantes. parecemos estúpidos quando nos queremos agredir.

havia uma criança que brincava de faz de conta com um avião na mão. e voava. a criança, claro, não o avião, que era de brincar. a criança é que era a sério. por isso voava.

e estava lá um velho - aquele velho! - tão velho que é bonito por todos os lados. cada prega da pele é uma vela. os velhos que são Velhos voam outra vez como em pequenos. mas melhor. porque arregalam os olhos, porque têm tamanhos capazes de sorver graça sobre graça, porque os amigos já não são imaginários e o que há de surpresa no mundo já não lhes mete medo.

um dia gostava de ser velho. já conheci velhos tão bonitos que me dá vontade de ser velho também. com as palavras todas medidas e gestos de régua e esquadro, tudo composto na gramática da sabedoria e na aritmética da ternura.

as palavras são prodigiosas, porque nos abrem mundos espantosos de oportunidades, encontros e desejos. os gestos são uma maravilha, porque estamos feitos para o contacto. somos corpo a toda a volta, somos pele dos pés à cabeça.

dei por mim a olhar para as coisas como se elas fossem acabar no momento a seguir. e ainda não estou refeito do choque que foi elas não terem acabado. o mundo contradiz-me. fantástico!


17 março 2015

SACERDOTE


(porque às vezes - dizem - uma imagem vale mais que mil palavras!)

164!

Cento e sessenta e quatro vezes é mencionada a palavra sacerdote no grande livro da(s) Lei(s), o Levítico, o terceiro da Bíblia.

Por estranho que nos possa parecer, a palavra "lei" não aparece assim tantas vezes, muito embora seja à volta da Lei que todo o Levítico gira. De facto, os acontecimentos por ele narrados situam-se ali no contexto da caminhada do deserto do Êxodo, com a Lei do Sinai como pano de fundo.

Apesar de ser o terceiro livro das nossas bíblias - ali coladinho à narrativa do Êxodo, experiência fundante do Povo de Deus - este livro tem uma datação bastante posterior ao tempo do Êxodo. Embora a base de toda a legislação do Levítico remonte certamente a este tempo, praticamente todo o código legislativo e toda a estrutura do culto presente neste livro deve ser situada uns cinco séculos mais tarde, por altura do cativeiro da Babilónia.

O livro do Levítico diz bem a importância que o Exílio da Babilónia teve na História do Povo de Deus. Sem as referências culturais e nacionais, sem a segurança e paz do tempo da monarquia, a Lei é colocada no centro. É o que resta! E a figura do sacerdote é realçada, na medida em que é o garante dessa Lei. Agora sem rei, os sacerdotes passam a ser eles mesmos mediação de Deus com o Povo, e toda as leis que emanam passam a ser Palavra do Deus Iahweh (Lv 1, 1).

Da Aliança do Sinai, onde Deus dá apenas uma Lei, um Mandamento em Dez Palavras (não inventareis no meio de vós dinamismos de escravidão (Ex 20, 1-21)), até ao tempo do Cativeiro, onde na boca de Deus é colocada toda a legislação do Templo e do tempo (leis relativas às ofertas de culto (Lv 10, 12-15), aos sacrifícios pelos pecados (Lv 6, 17-23), aos direitos dos sacerdotes (Lv 7, 7-10), à parte dos sacerdotes nas oferendas (Lv 10, 12-15), às doenças (Lv 13-14), aos animais puros e impuros (Lv 11), às impurezas sexuais (Lv 18), aos alimentos permitidos (Lv 10, 8-11), às faltas contra a família (Lv 20, 8-21), às prescrições morais (Lv 19) às festas (Lv 23-25), etc.) vai - não poucas vezes - um longo caminho de instrumentalização do nome de Deus, e sacralização da figura do sacerdote, o fiel representante e mediador de Deus junto do Povo.

Nesta linha, não deixa de ser interessante verificar, que no livro do Levítico, a palavra sacerdote é calada nos capitulos 23 a 25, referentes às festas e solenidades do tempo (o Sábado, a Páscoa, a festa das Tendas, o dia da Expiação, o ano do grande Jubileu), só voltando a aparecer no capítulo 26. Sendo o sacerdote a principal figura, porque motivo o redator o cala, precisamente quando se fala das festas (sagradas) do Templo? Aqui, só Iahweh tem lugar! Tudo é feito em função dEle e para Ele. E o mesmo se diz do Ser Humano!

No livro do Levítico todas a leis são ditadas por Deus a Moisés no Sinai, e Deus sempre faz questão de reforçar a figura do sacerdote como peça fundamental na aplicação das leis. Na intenção dos redatores está algo muito bonito: afirmar que todas as leis devem ter o seu fundamento na Lei única do Sinai e reforçar que toda a acção e todo o culto humano deve ser resposta à Aliança com Deus. No entanto - e infelizmente - na sua aplicação estas leis tornaram-se tantas vezes opressoras e geradoras de um culto de ídolos.

Séculos mais tarde, um tal de Jesus de Nazaré não vem abolir a Lei, mas levá-la à perfeição e ao pleno cumprimento (Mt 5-7), colocando-a em função do ser humano, nunca para escravizar ou condenar mas sempre para curar ou libertar, Memorial da Graça Amorosa e Libertadora de Deus.
A Carta aos Hebreus aprofundará a teologia do Único e Completo Sacerdócio para a qual apenas Jesus Cristo é o Sumo Sacerdote - único "mediador" entre o homem e Deus - sendo que todos participamos do seu sacerdócio, não no sentido cultual do Antigo Testamento, bem patente no livro do Levítico, mas como um exercício de serviço em favor de todo o ser humano (Heb 2-10). E assim, a figura do sacerdote desaparece por completo dos escritos do Novo Testamento.
Já não há sacerdotes, há presbíteros, há ministros....
E a Lei única é a Lei do Espírito (Rom 8, 2), um Espírito à Jesus...


16 março 2015

Seguíamos em procissão, um carro atrás do outro. A paisagem mudava. Pedras enormes polidas pelo vento equilibravam-se na margem da estrada.

A companheira do banco de trás partilhou uma pérola que tinha escutado há poucos dias:

“Felizes os pobres
porque se dão ao luxo de viver aquilo que o dinheiro não pode comprar!”

Repetimos, traduzimos, saboreámos. Agora, é a minha vez de partilhar com quem passar por aqui. Ai de mim, se guardar a água que me sacia! Ai de mim, se esconder a beleza! Aquelas pedras estão ali, a desafiar a lei da gravidade, como aviso. Em caso de hesitação, diante de qualquer tentativa de reter a força libertadora da bondade, as pedras serão nossas testemunhas e não ficarão caladas.

Felizes... é este o travo que fica da mesa posta, dos reencontros, das mãos dadas, dos detalhes, do trabalho, do descanso, dos espigos de couve, das conversas e do silêncio.

Felizes... aqueles que para além das caras, começam a ver corações. 

Felizes... aqueles que fazem da vida uma eucaristia de gestos simples e de acções de graças que se dizem num beijo.

15 março 2015

Realização Pessoal e Fracassos




Deus Santo,
Hoje gostava de falar-vos das hesitações e medos que, por vezes, surgem e nos bloqueiam, impedindo-nos de tomar iniciativas e correr riscos.

Na verdade, para um cristão os medos não têm muito sentido, pois sabemos que o Espírito Santo está connosco dia e noite.
No entanto, as nossas atitudes nem sempre coincidem com os conteúdos da nossaFé.

Nós sabemos que a realização pessoal implica fazer projectos, procurando atingir metas e objectivos.
Mas por vezes temos medo!

Ajuda-nos, Espírito Santo, a entender que numa história de sucesso há sempre fracassos pelo meio.
Mas nunca pode acontecer uma história de sucesso sem que uma pessoa tenha a coragem de programar, decidir e corrrer riscos.

Perante os fracassos, a pessoa com boa maturidade sabe que existem novas ocasiões para recomeçar.

Na verdade, a grandeza da pessoa não consiste em não falhar, mas em saber seguir em frente depois de um fracasso.

A pessoa que não tem a coragem de aceitar as possibilidades do fracasso não é capaz de sonhar novas aventuras e fazer projectos com a possibilidade de poderem acontecer fracassos.

Ajuda-nos, Espírito Santo, a recordar frequentemente este princípio fundamental:
"Depois de um fracasso, novas oportunidades se lavantam".

Ajuda-nos também, Espírito Santo, a recordar com frequência a verdade fundamental da vossa presença constante no nosso coração.

Estais connosco, e disponível para nós, vinte e quatro horas por dia. Além disso, a vossa ajuda é totalmente gratuita. Obrigado Espírito Santo!

Nós sabemos que tu não nos substituis. Mas se tivermos a simplicidade de te falar dos nossos planos e se dermos espaço para agires em nós, a nossa vida será imensamente mais fecunda em realizações válidas para nós e para a Humanidade.

São Paulo estava muito consciente deste facto quando escreveu que tu és, Espírito Santo, o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5,5).

Ajuda-nos, a fim de compreendermos que o caminho do malogro é recusar-se a recomeçar depois de um fracasso.

Também é muito importante não cairmos na tentação da fuga, culpando os outros dos nossos fracassos, armando-nos em vítimas.

As pessoas persistentes acabam sempre por descobrir as decisões e os passos certos para atingirem a meta do sucesso.

Espírito Santo,
Ajuda-nos a entender que a pessoa faz-se, fazendo. Realiza-se, realizando.
É assim que emerge o Homem livre, pois a liberdade é a capacidade de se relacionar amorosamente com os outros e interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.
Amen!




NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias

12 março 2015

Pequeninices


São pardais… São papoilas… São minúsculas sementes…É a brisa… São as mãos de um velho…
São os olhos de uma criança…

Onde nos poderá levar a arte de contemplar estas e outras pequeninices, estas desimportâncias pelas quais passamos, encolhendo os ombros, todos os dias?...
Tão preocupados andamos com amanhãs que nos perdemos num hoje  desatento, anémico e sem graça…

As aves voam… Sim, claro… E depois? Quem é que ainda não viu isso?
As flores do campo… Há quem diga que cheiram bem… E, depois?
Das sementes…  Só nos lembramos do fruto… Claro! Que utilidade teriam se não nos dessem nada?

Baralhamos tudo… com imediatos, teorias, utilidades… Ou isso ou nada!

Parar e contemplar… e contemplar… e contemplar…  até que aquilo que olhamos ganhe vida…  nos pergunte porque nos gastamos ?…  nos sacuda das dormências e demências do Maria vai com as outras

Parar e contemplar até que nós mesmos nos tornemos silêncio, e prece, e leveza…  e possibilidade de sentir de que bandas vem a fina e suave Brisa que vivifica a Vida…

Depois, e só depois, como a vela de um barco sente o vento, perceberemos que, vindo das bandas da Galileia, da boca de um tal Yeshu Nazareno, continua a soar um SEGUE-ME que  insistentemente nos namora, sem ruído nem força bruta… nos persegue, incansável, até nos cativar e pôr atrás dEle e do Seu jeito Novo e louco de viver. E não nos dará tréguas!
Até nos fazer enamorados dEle...
E deste Corpo que formamos…
E deste chão que somos…

11 março 2015

ABBAndonar-me



Pai de Jesus e Pai Nosso, para conversar contigo posso inventar palavras novas, não posso? 

Hoje penduro-me assim nos Teus braços e aprendo a ABBAndonar-me. É com o Teu Jesus que se aprendem estas coisas da confiança. Numa das horas mais duras da vida dele, no chão ensanguentado daquele Jardim das Oliveiras em que chorou a injustiça que lhe estavam a tramar, ele dirigiu-se a Ti como um menino a pedir colo: ABBA… Papá, na língua dele. Não era de esperar que um homem se dirigisse assim a Deus, muito menos numa Hora daquelas. Não era de esperar, se não conhecêssemos já o Teu Jesus. És Pai com entranhas de Mãe, és ABBA, todo força e ternura porque, quando há amor, força e ternura são a mesma coisa.

As Tuas duas mãos são a Palavra e o Espírito. Fiar-me da Tua Palavra e entregar-me ao Teu Espírito é o segredo para viver dentro do Teu abraço. ABBAndonar-me a Ti é não Te dar luta nem Te fugir. Pôr-me a jeito, deixar-me atrair e agarrar, agradecer-te as surpresas e confiar-te os futuros todos. 


Jesus ensinou-nos que podemos ABBAndonar-nos porque a Tua Vontade a nosso respeito coincide sempre com o nosso máximo bem. Não devemos ter medo de quem só nos quer bem! Para quê dificultar a tarefa de quem nos ama?!








(Fotografia do Miguel Cardoso, com quem faço o projecto ORA VÊ)

10 março 2015




“Homens da Galileia, porque estais aí a olhar para o céu?!” (At 1, 11)


09 março 2015

toque

No sábado, esta passagem foi lida e proclamada em todas as comunidades cristãs de tradição católica. É um esforço de sintonia, apesar do abismo que nos separa. Reconheço, profundamente, este esforço de comunhão. Peço para que o escândalo e a surpresa nunca me deixem indiferentes. Não quero domar a subversão de Lucas (cap. 15).


Um homem tinha dois filhos. Um dia, o mais novo pediu-lhe que antecipasse a divisão da herança. Tinha pressa. Havia uma vida por viver e não podia esperar pela hora da morte do Pai. 

O pai dividiu a fortuna entre os dois filhos. Sem uma palavra, o filho mais velho aceitou a situação e porção que lhe caiu nas mãos. O mais novo, saiu de casa.

Não sabemos quanto tempo demorou a gastar a herança. Chegaram rumores de festas, mulheres e vinho. A miséria conduziu-o a aceitar a escravidão de um trabalho, em que não lhe era permitido comer o que era destinado aos porcos. 

Só ele sabe o tempo que demorou até perceber que todos os que serviam na casa do pai tinham pão em abundância, enquanto ele estava ali. Decidiu levantar-se e ir ao encontro do Pai. O discurso de arrependimento e de penitência estava preparado: “Pai, pequei contra os céus e contra ti. Não sou digno de ser teu filho. Trata-me como um dos teus empregados.”

Antes que ele chegasse, o pai já estava do lado de fora da porta, à espera. Quando conseguiu avistá-lo, começou a correr. Escândalo!
Face a face, o filho mais novo recuperou o fôlego e começou o discurso de vergonha e de culpa: “Pai, eu...” Escândalo! Um abraço silenciou todas as palavras, todas as desculpas, todas as justificações. Escândalo! Um pai capaz de dar o primeiro passo para abraçar um filho daqueles. Escândalo!

 “Depressa! Sem mais demoras!” O pai pediu aos empregados para trazerem vestes novas, para que o filho despisse os trastes velhos com que sobrevivia. Era hora de celebrar.

Ao regressar a casa, depois de um longo dia de trabalho, o filho mais velho escutou ruído de música e de dança. Recusou entrar e juntar-se à festa, quando lhe contaram o motivo da alegria.

Mais uma vez, o pai saiu e foi ao encontro do filho mais velho. Face a face, sentiu a amargura, a raiva de quem culpa os outros pela vida que não ousa viver.
“Filho, tu estás sempre comigo. A intimidade que temos não te basta? Temos de celebrar, porque o teu irmão estava morto e voltou a viver.”

Ninguém sabe se o filho mais velho foi capaz de se juntar à alegria do Pai.
Rembrandt deixou-nos esta pergunta no quadro.




Nos meios em que me movimento, não escuto muitas vezes a palavra conversão. Conheço histórias em que parecia que se estava a bater no fundo, mas...
O que nos impede de afundar?

Não sei... mas para mim é como o movimento de um bebé, no ventre da mãe, dando a volta para nascer. É voluntário? Será um acto deliberado? É um reflexo de vida?

Henri Nouwen viu o mesmo nesta pintura. Reparem na cabeça do filho mais novo. Conseguem ver? Sem cabelo. O tom da pele e um certo brilho. Parece a cabeça de um recém-nascido, que acabou de dar a volta para nascer. A posição de joelhos revela a proximidade ao coração e às entranhas do pai, com rosto e mãos de mãe.

O toque humano é insubstituível. Quem nos ensinou a reduzir o toque humano ao contacto casual, sem reconhecer o valor de atitudes e de gestos de acolhimento, que abrem espaços de liberdade para estar – simplesmente – com o outro? Quem pode negligenciar o poder libertador de uma gargalhada e do bom humor para afastar a insanidade? Quem pode calcular o alcance de um olhar? Quem pode imaginar o que nos comove e toca por dentro?

Este é o fundamento e a âncora que me sustentam: o toque humano é insubstituível e encontra modos infinitos de se exprimir.

O que me assusta é a rigidez do filho mais velho. Preso à perfeição, incapaz de mudar e de “dar a volta”. Mesmo que esteja rodeado de amor, afasta-se… intocável, inantigível, invulnerável... desumano.

06 março 2015

I've Got You Under My Skin

Bom Deus
É bom poder contar contigo!

Saber que não retribuis o que te damos, mas que és restaurativo...
Não nos dás o que merecemos, mas o que precisamos.

Porque tu és Justo... e injusto é aquele que podendo dar não dá! Como ouvi no outro dia...

Se surges de outra forma nos meus irmãos ou no mais íntimo de mim mesma... não acredito!
Não é assim aquele que levo debaixo da minha pele (como dizia o Frank Sinatra ao cantar I've Got You Under My Skin).

Tão fundo no coração que é realmente uma parte de mim...

O mano Rui no outro dia disse uma coisa muito bonita...
"Um Deus que é pior que eu no meus melhores momentos e pior que as melhores pessoas que conheço... não é credível!"

E sorrio, porque isto é tão bonito e verdadeiro para mim...
Gosto tanto de te ver nas melhores pessoas que conheço... e poder dizer que "É Aquele Deus que eu aCredito!"

Ajuda-me Bom Deus a levar-te por inteiro!
E sempre em verdade, em concordância com o que somos...

Que eu seja capaz de sempre dar do tanto que posso!...
E contigo posso muito!



05 março 2015

verte-te ao Amor com…

Hoje é para mim que estou escrevendo...  
... e escrevo aquilo que continua a ecoar aos meus ouvidos desde a Celebração de Cinzas… 
... e sei que só renascerei delas se me com-verter ao Amor – se me verter ao Amor com




“Presta atenção!”   Mat.6,1-



 Não andes por aí a dizer eu cá sou muito justa!... quando, tantas vezes, ainda te ficas no olho por olho e dente por dente que devia ter ficado lá atrás na poeira dos séculos antes do Cristo. Dizendo-te cristã, fica-te mal não passares disso. E, também te fica mal, continuares a achar que igual para todos é que é justo. assim como também não está certo andares à procura de quem diga amen concordando com tantas das tuas atitudes que, sabes muito bem, têm a ver com tudo menos com Justiça… 

Tu… NÃO! Com-verte-te ao Amor!

Quando deres esmola… quando ajudares alguém, não andes por aí, a bichanar a amigos e conhecidos. Mesmo que peças a todos para guardarem segredo… Tu bem sabes que é essa a melhor maneira de todos ficarem a saber que és generosa, amiga de dar… e, em caso de utilidade não faltará quem confirme que és boa pessoa 

Tu… NÃO! Com-verte-te ao Amor!

Que a tua mão esquerda não saiba o que a tua mão direita fez… quando estendeste a tua mão para curar as dores de alguém ou levantar alguém da valeta, o que fizeste ficará escondido na tua intimidade e na de quem recebeu essa Graça. E lembra-te - ninguém te fica a dever nada. Nem sequer agradecimentos  como tu achas que sempre merece o bem que fazes. O que se faz por amor não tem preço… Que a tua partilha não humilhe nem confunda quem recebe. Só assim o teu Pai, que vê no segredo, ficará feliz por ambos. Ele te dará a confirmação. Não precisas de mais nenhuma.
Quando rezares…  não precisas de mostrar a toda a gente que o fazes… as esquinas da tua  rua não precisam saber  que és praticante… De quê? 

Tu… NÃO! Com-verte-te ao Amor!

Entra no teu quarto, fecha a porta e reza a Vida ao teu Pai, no segredo. E o teu Pai que vê o segredo, te confirmará. Na certeza porém, de que essa confirmação não passa pela Sua boca nem soa nos teus ouvidos. A Voz de Deus ressoa exclusivamente na intimidade, na tua consciência .                                                                                                                                                         
Desata e deita fora todas as MÁSCARAS! Com-verte-te ao Amor! Verte-te ao Amor com… 

Porque é o Amor que tece de infinito os NÓS que vamos criando, por mais pequeninos e finitos que eles sejam…



04 março 2015

Jesus é Deus a contar-se

Acredito que Jesus é a melhor explicação que podemos ter de Deus. Não porque Jesus explique Deus, mas porque Deus se explica em Jesus. Não quer dizer que eu ache que Deus se mostrou em Jesus. Acho é que Deus Se escondeu todo nele. Está todo nele. Escondido. Por isso é que Deus não é mais misterioso, não tendo deixado de ser Mistério. 
Estou convencido de que só podemos dizer de Deus aquilo que podermos dizer de Jesus. O que não afinar com a maneira de viver de Jesus, certamente não afinará na maneira de ser de Deus. Diante desta evidência da Fé Pascal eu desacredito qualquer outra linguagem, teológica ou filosófica, que me queira provar de Deus o que Deus não nos tenha contado em Jesus.





Começa na próxima segunda-feira mais um Curso do Centro de Espiritualidade Redentorista. 
Estão todos convidados.

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03 março 2015

IAWHEH

405!

São quatrocentas e cinco vezes que o "nome" de Deus, IAWHEH (YHWH), aparece no livro do Êxodo, segundo do Pentateuco e de toda a Bíblia.

A palavra Deus também aparece 121 vezes, mas o nome IAWHEH é dito 405.
Não é, portanto, de Deus que fala o livro do Êxodo. É dAQUELE Deus, ESTE IAWHEH, Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob.... e agora Deus de Moisés, Deus de Aarão, Deus de Miriam...

O Êxodo narra a génese de um Povo e a experiência (maravilhada) que este faz de Deus, um Deus com nome. Este Deus tem nome!!! E não fomos nós que lhe demos o nome, como aos deuses dos Egípcios. Este nome é ele que se vai dizendo e continua a dizer:
"EU SOU Aquele que sendo..." (Ex 3, 14)

Esta é a primeira grande revelação do Êxodo, o Deus de Israel tem um nome: "EU SOU" (YHWH). E esse nome é o próprio SER de Deus. Como se disséssemos ao mesmo tempo que Deus não tem um nome. Deus é o nome! O nome de Deus é o próprio Deus. Deus, simplesmente, é!

O nome do Deus que se Revela, IAWHEH, é o nome de um Deus em Êxodo, o Deus que vê, que ouve, que se lhe revolvem entranhas e que sai para libertar, resgatar e assumir (Ex 3, 7-8). O Deus IAWHEH é um Deus Libertador. É um Deus de Livres, (dos Escravos, mas) não de Escravos. É o Deus dos Últimos, daqueles que não contam, para os resgatar para si. IAWHEH é nome/acção do Deus em acção, uma acção de Libertação: é ele quem vê, quem ouve, quem desce a fim de fazer subir (Ex 3, 7-8); é ele quem envia (Ex 3, 10) é ele quem está com as bocas entorpecidas e as faz falar (Ex 4, 15), é pela mão dele que acontece a libertação (Ex 3, 20; 14, 21), é ele quem luta (Ex 17, 8-16), é ele quem sustenta (Ex 16, 15) e quem dá caminho (Ex 13, 18. 21-22).

O nome do Deus que se Revela, IAWHEH, é o nome que o povo de Israel vai aprendendo ao longo do Êxodo e ao longo de toda a História. O povo vai aprendendo o que significa este nome e vai fazendo a descoberta encantada de que é o nome do Deus "que está connosco", que nos circunda a toda a volta (Ex 13,  21-22), mas que também está no meio (Ex 34, 9-10). Que nunca abandona, nunca desiste (que sempre perdoa) e que é bem mais teimoso na sua não-desistência e fidelidade que todo o povo nas suas teimosias e infidelidades.

O nome do Deus que se Revela, IAWHEH, é o nome do Deus que quer fazer Aliança com o seu Povo (Ex 17, 1 - 24, 11). É o Deus da Aliança. De uma Aliança que é Compromisso de Fidelidade e é Caminho para a Terra da Liberdade. IAWHEH é o nome do Deus que só sabe Ser em Aliança e que só sabe ser Fiel a essa Aliança, mesmo perante todas as infidelidades do seu povo.

IAWHEH, o nome do Deus que se revela é o nome do Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob... Deus de Moisés, Deus de Aarão, Deus de Miriam.... Deus de João Baptista, Deus de Ana, Deus de Miriam e Deus de JESUS...

IAWHEH, o nome do Deus que lá no Êxodo - nos começos da História do Povo - se começa a revelar, é o nome do Deus de Jesus.
É o nome do Deus que, em Jesus, vê, ouve, toca, cura, e sai ao encontro, perdoa e estende a mão para levantar.
É o nome do Deus que, na Páscoa de Jesus, liberta, resgata e assume na sua Família, a Família Deus.
É o nome do Deus Emanu'el, o Deus que envolve, circunda e assume a sua/nossa Humanidade para estar connosco.
É o nome do Deus que, na Vida do Filho, estabelece com toda a Humanidade uma eterna e sempre nova Aliança.

IAWHEH é o nome do Deus que é Pai de Jesus.